Fake news? Diga não às mentiras!

Já faz um tempo que venho observando a evolução (ou retrocesso) dos posts publicados nas redes sociais. Criei minha conta no Facebook no ano de 2007 para manter contato com meus amigos de fora do Brasil; até aquele momento tinha apenas dois ou três amigos brasileiros que conheciam a rede. Naquela época, o Orkut já estava bastante decadente na minha opinião, com pessoas compartilhando gifs incessantemente e esquecendo de se comunicar e compartilhar assuntos interessantes. Quando conheci o Facebook, fiquei encantada. Na minha rede de contatos, o pessoal usava o Facebook como um Twitter, só que com mais caracteres. Falavam de sua visão do mundo, de fatos engraçados, via gente compartilhando músicas legais e, pouco a pouco, fui deixando o Orkut de lado para me tornar uma usuária constante do Facebook.

Esse termo “usuário” é interessante. Com o passar do tempo, e com todos os meus amigos do Orkut se debandando para o Facebook, durante muitos anos fui uma usuária mesmo. Não são só as drogas químicas que nos escravizam; aprendi que as redes sociais também. Mas esse é um papo paro outro momento.

O que venho comentar aqui é que, de lá pra cá, vi o Facebook crescer e se tornar popular no Brasil. Vi as frases positivas e engraçadas darem lugar a discursos de ódio e guerras ideológicas. Não falo aqui sobre as denúncias sociais que alertam as pessoas sobre o mal que determinadas pessoas, grupos e políticos permeiam entre nós. Felizmente, por meio das redes sociais, pudemos conhecer a Primavera Árabe e muitos outros movimentos sociais que lutam por direitos inalienáveis aos seres humano, e não só eles. O que venho expor aqui é o perigoso discurso de ódio que vem de onde nem mesmo sabemos. Muitos devem conhecer o termo “fake news”. Fake news, em inglês, como ficaram conhecidas notícias falsas criadas com o intuito de manchar a reputação de pessoas ou grupos, em sua maioria, com teor político. Esse termo ficou bastante conhecido durante a eleição presidencial mais recente dos Estados Unidos, em que “trolls”, contas roubadas e robôs programados para disparar comentários de modo automatizado, além de pessoas comuns, foram usados para proliferar no campo minado das redes sociais notícias que poderiam enfraquecer um candidato e outro ganhar.

Mas o que isso tudo tem a ver com nossa realidade brasileira? Como era de se esperar, as fake news hoje estão espalhadas aos quatro cantos de nossas redes. Hoje basta lermos um post em alguma rede social, ou recebermos um texto no whatsapp, que se torna verdade para grande parte das pessoas. Podemos dizer “mas eu não tive culpa em compartilhar!”, “Sou inocente e quem escreveu isso é o culpado. Fui enganado!”. Contudo, apesar de aquele que criou uma história ter atuado perversamente, quando compartilhamos uma fake news, estamos colaborando com a mentira. Sabe aquela história de que daremos conta de toda palavra que sai de nossa boca? Pois é, podemos atualizar esse ditado e dizer que daremos conta de todo post que compartilhamos. No momento que levamos isso a sério, tomamos a rédea da nossa vida em nossas mãos e assumimos que somos responsáveis pelo que propagamos, estamos agindo com maturidade, humildade e discernimento.

Muitas vez, replicamos aquilo que gostaríamos que fosse verdade apenas para comprovar que o que pensamos sobre o outro é real – e ainda pior do que havíamos dito. No calor das emoções, movidos pela raiva, pela indignação, nem pensamos em pesquisar se aquilo é realmente verdade e nossos dedos caminham rapidamente em direção ao botão compartilhar. Se meu amigo compartilhou, não tem problema nenhum fazer o mesmo. Ah, dá preguiça pesquisar e como todo mundo está fazendo isso, não tem problema eu fazer também. No fundo, as fake news não dizem apenas sobre quem as criou, mas também sobre quem as compartilha. Sobre nós. Reclamamos tanto contra a corrupção de políticos, mas não somos capazes de olhar para dentro de nós e enxergar a corrupção nos nossos pequenos atos cotidianos. É a lógica do discurso de Jesus sobre o cisco no olho de nosso irmão e a trave em nosso olho.

Eu também já fui propagadora de fake news em uma situação e, a partir daquele momento, quando uma amiga me avisou: “isso o que você compartilhou é mentira”, confesso que fiquei com muita vergonha de mim mesma. Havia lido aquela “notícia” e, diante da minha fúria, nem pensei em procurar saber se era verdade. Não importa se fulano era corrupto, não interessa se ciclano é o bandido aos meus olhos; se o que compartilhei não é verídico, por mais que tal pessoa tenha feito coisas horríveis, não estaria sendo honesta em manter tal post em meu perfil. Estaria perpetuando a mediocridade. Não tive outra opção se não a de ir lá e, vencendo meu orgulho, deletar o que tinha compartilhado e escrever outro post comentando sobre aquilo.

Você pode se perguntar: mas como vou saber se uma notícia é fake news ou não? Eu desenvolvi algumas técnicas. Primeiro, observo a fonte. Se é de um site que não seja de um jornal estabelecido, eu sempre desconfio. Jogo no Google e, muitas vezes, já observei que era mentira, pois outros meios acabam denunciando aquela “notícia”. Também não repasso textos do whatsapp que não verifico a autenticidade – apenas para dormir em paz à noite com a consciência leve. Existem muitos sites criados com o intuito de gerar fake news, e isso pode ser encontrado tanto no espectro político da direita quanta da esquerda ou centro. Então, quando observo nas publicações textos desses sites, nem perco meu precioso tempo. Comentários que provêm de prints ou republicações de opiniões que afirmem algo que acuse alguém também têm sido observados com um pé atrás por mim. Eu ainda prefiro compartilhar textos de jornais estabelecidos e que acredito serem mais idôneos; mesmo que haja parcialidade em suas posições, esses jornais sabem que têm, minimamente, um nome a zelar e que, caso se tornem um centro de fake news, terão de responder por isso. Ainda assim, sempre desconfie.

O que compartilhei é algo bastante pessoal, fruto de uma observação constante sobre o que tem acontecido e os caminhos que temos tomados (e que outros têm tomado por nós também). Infelizmente, não sou otimista em relação a tais notícias acabarem. Na verdade, com a aproximação das eleições veremos, cada vez mais, políticos e movimentos de direita, esquerda ou centro criando notícias falsas. Por isso, todo o cuidado é pouco para aqueles que, de fato, desejam conviver em uma sociedade justa e honesta. Não nos façamos de ingênuos, não deixemos que a preguiça e o comodismo nos impeçam de buscar a verdade, pois sabemos de quem a mentira procede. Não adianta eu falar que luto contra o mal na sociedade se contribuo com ele em atos tão pequenos como esses. Assumamos nossa vida, assumamos nossas escolhas e procuremos, de fato, sermos propagadores da verdade. Diga não à mentira, diga não a fake news! Denuncie e não se cale, pois quem cala, consente.

 

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  [email protected].

3 comentários sobre “Fake news? Diga não às mentiras!

  1. Muito bom seu texto, Christie!
    E o que estamos vendo é um número crescente dessas notícias.
    O Papa Francisco é muito atualizado… Ano passado ele lançou o tema do Dia Mundial das Comunicações de 2018 e é justamente sobre fake news.
    Temos que deixar a preguiça de lado e checar a veracidade das informações.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Muito relevante e, infelizmente, atual isso tudo. A alegria deu lugar à raiva, ao discurso nervoso, inquieto e irritadiço. Muito obrigado por nos chamar a atenção a isso tudo. Ficaremos atentos! Beijo no seu coração.

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