A experiência do luto

Nunca estamos preparados para o luto, não importa o quanto tenhamos consciência de que ele estará presente em algum momento da nossa jornada. Tenho vivenciado esse processo há um pouco mais de um ano e posso dizer a você que a perda de algumas pessoas são mais impactantes que a de outras, pelo que algumas delas significam em nossos relacionamentos e na construção de nós mesmos. Gostaria de partilhar com você, caro leitor, os desafios desse momento pessoal. Talvez você não tenha vivenciado alguma dessas experiências – ou nenhuma delas. Eu não tinha e, quando fui percebendo todos esses elementos novos dentro de mim, tive que procurar novas estratégias e reconhecer: sou humana.

Fui uma criança criada com os avós e eles representaram para mim tudo o que entendo sobre amor e matrimônio. Como em toda família e casal, havia necessidades, desentendimentos, trabalho árduo, preocupações, diferença de gênios… mas havia companheirismo, empatia, confiança, valores, honestidade, força de vontade…

A morte do meu avô me pegou como um ladrão. Meu sentimento foi da perda daquele que representava a figura masculina e tudo o que creio dever estar associado a essa figura na vida da sociedade, da família e da mulher. Embora tenha me causado dor, tirei, de algum lugar, forças e muita fé – fé na vida eterna. Ao olhar para minha avó e ter ido morar com ela, após o falecimento do meu avô, transferi para ela todos os sonhos que havia construído. Ao lembrar que tinha grande desejo de ter meu avô entrando comigo na igreja, no dia do meu casamento, desviava o foco do meu pensamento e dizia “ao menos tenho minha avó”.

Vivi com ela alguns anos, acompanhei toda sua recaída pela perda do meu avô, pude tê-la com um amor todo maternal – um amor que cuida e que se interessa -, pude ver toda a delicadeza da mulher que havia escondida atrás daquela pessoa de gênio forte.

A vida prega peças na gente. O tempo passou, minhas idealizações não se concretizaram, minha avó adoeceu e partiu. Nesse momento, me senti como adormecida, o choro ficou preso dentro de mim e não consegui externar todo o sofrimento; no velório, tinha a sensação de estar na cena de um filme ruim; não tive palavras de consolo para meus familiares e não tinha palavras de fé que conduzissem a minha perda para as realidades eternas – que são sempre de descanso.

Caro leitor, quero pontuar alguns desafios que se nos apresentam ao perdermos alguém muito singular para nós; o primeiro é: a organização da nossa vida muda – seja a rotina, o lar, as responsabilidades, as relações.

Quando minha avó faleceu, fui morar sozinha. Fui porque eu quis. A princípio isso foi muito difícil para mim, pois tive que ir desconstruindo todos os meus preconceitos a respeito do tema, todos os meus receios, e tive que ir substituindo velhos padrões por novas formas de encarar essa nova realidade.

Caso decida morar só, pense bem e com maturidade a respeito. Ao sair de casa pela primeira vez, certifique-se que fará, dentro do que depende de você, todo o possível para que essa partida ocorra da melhor forma para todos e em paz. Os primeiros meses serão de transição. Seja empático, responsável e independente!

Talvez, com a perda dessa pessoa, você não tenha ido morar só e ainda tenha pessoas do seio familiar com as quais você convive. Alguns aspectos do lar irão sofrer alterações. Ainda assim, será tempo de ser empático, responsável e independente!

Morando sozinha, deparei-me com o segundo desafio diante da perda de uma pessoa com tamanho significado: o sentimento de desamparo. Minha avó representava para mim a figura da matriarca. Tudo podia ir mal, mas, no final, eu estaria na casa da minha avó, sob o olhar de alguém que me amava, se importava e cuidava de mim de alguma forma, enfim: não me sentia sozinha!

Claro que, embora o luto, não estamos totalmente sozinhos, porém em algumas pessoas depositamos o “amparo”. De fato, nos sentimos certamente amparados. E, quando essa figura se extingue, parece que nos quebraram as pernas. Voltamos a ser, em alguns aspectos, como crianças: nos sentimentos frágeis, ficamos com uma saúde sensível, questionamos tudo e fazemos birras internas. Temos um profundo sentimento de vazio, que até a religiosidade tem dificuldade de amenizar.

Se você está se sentindo assim, saiba que você não é o único, e saiba que você não deve se envergonhar. Você é humano. Se em algum momento, você se questionou, acalme o seu coração e não interprete isso como rebeldia. Pode ser que seja, se você estacionar aí, mas pode ser um trampolim que te levará a reconhecer a grande dádiva que você recebeu em ter convivido com essa pessoa que você perdeu. Veja que privilégio! Quantas coisas ela te ensinou! Quantas vezes ela te amou! Sentir esse vazio é natural! Mas, agora você é adulto e dará passos com suas próprias pernas. Você terá questionamentos, mas deverá selecionar os que fazem sentido daqueles que só vão te desviar do caminho. Essa parte do processo de luto leva tempo, muito tempo, e quando os dias estiverem mais desafiadores, lembre: que dádiva eu tive em ter essa pessoa contribuindo para que eu fosse boa parte do que sou e para que eu tivesse muitas boas referências!

Outro desafio que surge com a perda de uma pessoa a quem amamos muito refere-se à realização dos nossos sonhos. Já disse que tinha o desejo de ter meu avô em meu casamento e, posteriormente, substituí essa imagem pela presença da minha avó. Quando perdi minha avó, pareceu-me que havia desaparecido toda a representação da minha ancestralidade, da minha origem, no cenário que eu imaginei para o meu futuro casamento. Essa é uma falta muito grande, mas quero ajudá-lo a enxergar o que eu enxerguei: o real valor das experiências. Percebi o quanto criamos condições para a realização dos nossos sonhos e, consequentemente, para a concretização da nossa jornada pessoal. Ter meus avós seria lindo e único! Mas os meus sonhos representam, na verdade, todo um universo particular. Eles contribuíram com todo o necessário para que eu me tornasse quem me tornei e para que chegasse longe, nos meus bons objetivos de vida. Não contarei com a presença deles em momentos especiais de minha vida, porém reconhecerei o quanto há deles em mim, serei mais seletiva e serena, tentarei tornar as coisas mais simples e me voltarei para aspectos realmente relevantes na realização dos meus sonhos.

Então, caminhamos para o último desafio que gostaria de pontuar: cuide de você! Com a perda da minha avó, com tudo que citei acima, somada a outras situações, meu corpo começou a dar sinais. Passei a ter insônia, estresse, dores de cabeça etc com maior frequência. O que posso te dizer, caro leitor, é que nunca esperamos por isso! Quando o corpo fala, tendemos a negar, amordaçar e até nos envergonhar. É natural. Perceba os seus sinais e, então, tome um banho demorado, passe um hidratante cheiroso, côe um café… tudo isso que está acontecendo pode estar tentando levar você a se perceber. Há vida em você! Perceba-se amado, como você o foi por essa pessoa que você perdeu, tenha amor por você mesmo e cuide de si. Perceba-se humano, necessitado de cuidado – dê atenção aos detalhes de si mesmo – necessitado de paciência – cada pessoa tem um tempo, inclusive você.

Em todo o processo de superação do luto haverá altos e baixos. Com o tempo, tudo vai se tornando mais tranquilo, embora a saudade não deixe de existir. Vamos colocando nosso coração e emoções em ordem e tudo vai tomando seu rumo. Espero tê-lo ajudado, pela partilha de minha experiência pessoal, a encarar com maior serenidade e confiança um momento tão delicado como esse. Não tenho todas as respostas para os questionamentos que se apresentam no interior de nós mesmos, sei que a fé ajuda muito, pois nos faz enxergar o que realmente importa. Talvez você tenha vivido todos esses aspectos, ou apenas um deles. Caso você nunca tenha passado por isso e, um dia, seja surpreendido por essas sensações, não se puna; é uma boa oportunidade de reconhecer-se humano e crescer em alguns aspectos. Desejo que você saiba – assim como o foi essa pessoa que partiu – também você é singular, único, irrepetível e significativo!

Nívea Maria, devota de Nossa Senhora de Guadalupe e São José, passarinho como Santa Teresinha, amante das palavras impressas como São Maximiliano, criativa, curiosa, apaixonada por livros, crítica, detalhista, vive “inventando moda”, tem traçado novas trajetórias, se surpreendido com o mundo que carrega dentro de si mesma e costuma ser inteira em tudo o que faz.

 

 

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  [email protected].

6 comentários sobre “A experiência do luto

  1. Ai que texto incrível!
    Vou imprimir uma dúzia deles, distribuir alguns e guardar um pra mim, que quando tiver que passar por isso, reler mil vezes!
    Obrigada!
    Bjos,

    Curtir

  2. Olha um texto muito bom eu que sou leitora de um dos maiores escritores dos tempos modernos.Augusto Curi ,lendo o seu texto achei uma semelhança ,vá enfrente menina você te futuro.Serás um brilhante escritora.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s