Meu pai me enganou: sobre como um homem trata uma mulher

É na adolescência e juventude que você começa a delimitar melhor as diferenças entre o que acontece em sua casa, no seio de sua família, e o que acontece na sociedade em geral. Foi na juventude que me tornei um espectador mais atento e reflexivo do que acontecia da porta para fora de minha casa e acreditava que o tratamento dispensado à minha mãe, como única mulher da casa, era normal e usual. Acreditava que era uma regra.

Foi com surpresa e perplexidade que compreendi que a voz sempre baixa, a divisão igualitária de trabalhos domésticos, a completa devoção que meu pai tem por minha mãe não eram padrões seguidos por todos. Pelo contrário, a ordem era subjugar as mulheres. O exemplo que meu pai é, dentre outros aspectos, no tratamento elegante e igualitário às mulheres é inegavelmente positivo, mas talvez ele devesse ter nos alertado de que não era regra na sociedade e nós, como homens, devêssemos nos posicionar pela defesa das diversas igualdades historicamente negadas às mulheres.

Cresci em um lar com uma mulher empodeirada e forte. Minha mãe é assim por natureza, mas contou com o incentivo do meu pai para terminar seus estudos, dirigir, trabalhar, mesmo imersos em uma realidade conservadora da década de 1970, no interior de Mato Grosso do Sul.

Se meu pai não formou militantes, abriu caminho para nos formarmos como tal por meio da sensibilidades que nos forçava a ter, ao enxergar as desigualdades do mundo.

Meu pai adora ler bibliografias. Esses tempos, estava lendo a do Trotsky e gostando muito. Seu encanto acabou quando chegaram os capítulos onde eram narrados seus inúmeros relacionamentos amorosos. Meu pai não gosta de homens mulherengos.

Meu pai é muito sutil e elegante, sempre fala baixo. Suas palavras são sussurros de sabedoria. Cada palavra tem seu imenso valor e peso. Talvez já tenha acontecido com meu irmão, não sei, mas meu pai já me chamou de forma privada para conversar quando julgou ter percebido qualquer tipo de alteração, indelicadeza, excesso, mesmo que mínimo, em diálogos meus com minha esposa. Sou um apoiador das causas feministas, mas a cultura machista é forte e, por vezes, por mais que lutemos contra, reproduzimos comportamentos reprováveis.

Há pouco tempo, eu, minha esposa e minha filha estávamos almoçando com um casal de amigos e seus filhos, quando notei uma de minhas recorrentes violências machistas. Minha esposa contava uma história quando, na ansiedade de expressar minha opinião, a interrompi. Ela, mulher forte e empodeirada que é, que me enche de orgulho, me interrompeu de volta, recobrou a palavra e continuou do ponto onde havia sido atrapalhada. Fiquei interiormente incomodado, mas racionalmente convencido de que ela estava correta e eu errado. Não é apenas a violência física e sexual contra uma mulher que deve nos chocar. Interromper a fala de uma mulher por achar que a sua opinião é mais importante, relevante e consolidada é machismo e é violência também.

Sou um apaixonado pai de uma menininha de dois anos e três meses chamada Helena. Para ser pai, comprei livros e fiz curso de gestante para aprender a cuidar de minha filha tão bem quanto minha esposa. Defendo que a maior parte de nossas respostas às mais diversas situações nasce na própria experiência. As teorias vêm depois e não antes. Na prática de ser pai de uma menininha, as teorias que construo reforçam a importância de nós homens nos enfileirarmos ao exército de mulheres que lutam contra as distorções sexistas. Sobre comportamento? Nesse mês dos pais, sigo o meu, ao reproduzir um comportamento de profundo respeito às mulheres.

 

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Rodrigo Pael Ardenghi é professor universitário, jornalista, mestre em Comunicação e Semiótica, casado, católico e corintiano fanático.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  [email protected].

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