Sobre dor e crescimento – uma simples caminhada

Nunca compreendi direito aquelas frases feitas que tentam justificar a dor e o sofrimento. Aquelas do tipo “O que não mata, te fortalece.” ou “Você sempre pode tirar uma lição de algo ruim.” etc. Mas, recentemente, uma experiência pessoal me fez vivenciar essa teorização popular e pensar que talvez haja verdade nestas máximas. Um singelo e incompreendido ditado pode conter uma boa dose de sabedoria.

 

Sabe uma daquelas segundas-feiras inspiradoras em que a gente acorda disposta a mudar o mundo, a iniciar, de novo, uma dieta ou a colocar em prática um plano há muito adiado? Pois é. Foi num desses dias em que resolvi começar a caminhar. Sim. Foi uma simples caminhada e não um projeto ambicioso para “acabar com a fome” ou coisas do tipo. Mas, acreditem ou não, acordar duas horas antes para fazer um exercício físico exigiu um esforço incomum.

 

Minha caminhada matinal, não rotineira, e, não posso mentir, muitas vezes iniciada e interrompida, e raramente feita com disciplina, foi capaz de me trazer entendimento sobre dor, sofrimento, cura, recomeço…

 

Logo nos primeiros minutos, a euforia, o entusiasmo e a empolgação de começar algo novo foram logo cedendo espaço para o mau humor. “Por que fui levantar da minha confortável cama tão cedo?”. “Por que não caminhar na esteira no final do dia?”. Perguntas que minha mente fazia incessantemente.

Como é possível ser sabotada pela própria mente? Às vezes, pensar demais atrapalha. Foi por isso que iniciei a caminhada. Não pensei direito. Simplesmente acordei, coloquei o tênis e fui. Ah, se arrependimento matasse!

Pensar que o trajeto era curto e que logo acabaria, e mais, que poderia ser encurtado, me ajudava a prosseguir com meu intento. Isso sem contar na vergonha que teria ao admitir depois que havia desistido. O orgulho venceu a preguiça.

Mas, o pior ainda não havia passado. Se você acha que a parte mais difícil é começar, é porque nunca teve que encarar uma subida. E uma subida sem fim. Nesse momento, todo o ânimo e a vergonha já se dissiparam, e se houvesse alguma fórmula mágica para eu encurtar o percurso, de volta, inclusive, ou se aparecesse uma boa alma conhecida para me dar uma carona, eu certamente desistiria.

A fome, a sede, a falta de ar, a dor nas pernas, tudo parecia conspirar contra mim. Sem falar que a minha cabeça não parava de repetir que eu não precisava daquilo. Toda a minha inteligência era usada para justificar minha preguiça e conceder ar de nobreza à vontade de desistir. Afinal, para que ceder à ditadura da beleza e a busca desenfreada por um corpo perfeito? Mas, no fundo eu sabia que não se tratava disso ou, pelo menos, não somente. Não se trata de correr em busca de um corpo perfeito ou apenas perder uns quilinhos. O ponto aqui é disciplina e superação de limites. É o não desistir na primeira dificuldade. Não se impor limites. Ser capaz de realizar coisas novas. É aquela velha e boa saída da zona de conforto. De tentar algo novo. Fazer o que não está acostumado. Tornar a vida um pouquinho mais difícil. Sim!! É isso mesmo. Dificultar a vida! E para quê? Por que voluntariamente se impor algo assim, desafiador e difícil? Oras, só há uma razão: crescimento.

É a mesma lógica da musculação. Aquele processo de lesionar os músculos para que se regenerem crescidos e mais fortes. A lógica é exatamente a mesma. Lesão e regeneração.  Doença e cura. Dor e crescimento. Destruição e construção.

Ao término da jornada, não sem sofrimento, já em casa, após um banho reconfortante e um cafezinho quente, uma sensação de alívio tomou conta do meu ser. Dever cumprido. Serotonina atuando em meu corpo. E foi aí que a ficha caiu. Essa sensação não foi voluntariamente produzida. Foi conquistada às duras penas. A dor foi necessária. E as frases então fizeram todo o sentido. De fato, eu não morri e me sentia mais forte, e realmente consegui algum proveito de algo aparentemente ruim. Que loucura! Eu só queria sair do sedentarismo…

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Thielly Dias de Alencar Pithan e Silva.

Casada. Juíza de Direito. Católica. Amante de poesia. Sonhadora. Idealista. Acredita que a educação pode transformar qualquer realidade e que sonhar vale a pena apesar das adversidades.  

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