Exige-se boa aparência

Não é engraçado o momento em que a gente percebe que é de outra época? Eu sei que o tempo passa para todos, mas também sei que não percebemos isso com facilidade. Existem aqueles momentos, sabe, como hoje, em que pesquisando sites de vagas, lembrei-me das primeiras vezes que procurei emprego. Percebi que estou velha.

No meu tempo, (notou como estou confortável usando a frase de gente velha?) procurávamos emprego nos classificados de segunda-feira, que eram publicados no jornal local. Entre os pré-requisitos para vagas diretamente ligadas a funções que lidavam com o público em geral, balconistas de padaria, atendente de consultório, e assim por diante, era comum a exigência de que a pessoa tivesse “boa aparência”.

Eu, ingênua que era, pensava que se tratava de algum cuidado especial com a própria aparência e por isso sempre caprichava no visual, roupas e sapatos limpos, cabelos bem penteados e presos, respostas na ponta da língua, pronta para a entrevista. Só que não. Faltava sempre, por ignorância minha, me preparar para a hostilidade do preconceito.

Quando já estava um pouco mais velha e tinha uns dezoito anos, descobri qual era de fato a mensagem por trás daquelas palavras impressas no jornal: “EXIGE-SE BOA APARÊNCIA”, e a partir de então até mesmo o meu modo de procurar por emprego teve que mudar.

Não foi uma descoberta rápida, ou feita ao acaso, foi resultado de muitas frustrações e sentimentos de impotência, uma sequência enorme de fracassos para escassos sucessos. Depois de passar por múltiplos processos de seleção, comecei a observar os detalhes, conversar com as pessoas, criar dispositivos para conquistar a vaga tão desejada. E nessa função, já havia notado que negros e pessoas de aparência humilde eram eliminados antes mesmo da primeira etapa. Até que um dia, uma senhora que procurava por balconista para sua loja de guarda-chuvas, por ter urgência em ocupar a vaga, me mandou começar no dia seguinte, mas disse com todas as palavras: “Não é o que eu estou procurando, mas PELO MENOS NÃO É PRETA”.

Loucura isso, né? Ou não. Visto que uma das poucas coisas a mudar de lá para cá é que agora a maioria das vagas é encontrada na internet. Mas, se prestarmos mais atenção, vemos que os pré-requisitos ainda estão lá. Eles variam, evoluem com o tempo, se tornam mais e mais absurdos, mas continuam tão explícitos como antes, ou até pior.

Pasmem! Esbarrei em vagas para babás e enfermeiras que exigiam bom porte físico, para dizer claramente, “que seja sarada ou esteja disposta a ficar.”, assim mesmo, a babá “tem que ser magra, para caber no carro”, e, claro, a velha “boa aparência” é ainda exigida em todos.

E eu não consigo me lembrar de quando o mundo ficou tão assustador. Será que sempre foi assim? Várias revoluções industriais já se passaram e a humanidade das pessoas não evolui? Uma coisa é certa, em pleno século XXI ainda temos que lidar com esses e outros absurdos, em um mercado de trabalho bizarramente seletivo, exigindo atributos que em nada compõem as competências necessárias para desenvolver o trabalho oferecido.

E, por incrível que pareça, hoje, o pré-requisito que me persegue é a idade.

07440cf

Célia Martins da Mota Fonseca

Jornalista, escritora, dona de casa, esposa e mãe ou apenas mais uma mulher tentando se equilibrar entre obrigações e paixões, com fome de viver e uma vontade imensa de dar certo.

 

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  [email protected] . 

 

Um comentário sobre “Exige-se boa aparência

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s