Duas faces de uma moeda

Quando eu tinha aproximadamente dez anos, ouvi pela primeira vez meu pai mencionar a dualidade entre o ser e o ter. Lembro como se fosse hoje. Estávamos na sala de estar eu, ele e dois irmãos. Com sua fala mansa e sábia, ele nos explicava que o homem deve ser mais valorizado pelo que é e não pelo que tem. Usava nossos próprios exemplos infantis para nos instruir, alertando que não devemos levar em conta o que as pessoas possuem materialmente e sim seus valores, traduzidos por suas ações.
Ser e ter, faces de uma mesma moeda. Hoje percebo como os ensinamentos do meu pai são atuais. Será que os pais de nosso tempo também ensinam isso aos filhos? Que uma roupa, um carro, um objeto cobiçado e uma viagem não dizem de fato quem você é. O que diz quem é você são as suas atitudes, suas crenças e seus conhecimentos.
Há um dito popular que diz “Por fora bela viola, por dentro, pão bolorento.” Até a Bíblia fala dos sepulcros caiados, ou seja, pessoas preocupadas com a imagem e a aparência, porém com o interior vazio. Quantos valorizam a bela capa, enquanto as páginas do livro estão em branco.
Há mais ou menos duas décadas, houve um termo que foi muito empregado no Brasil: emergente. Era aplicado a países, negócios e pessoas. No caso das pessoas, era usado para designar quem enriqueceu rapidamente pelos próprios esforços e oportunidades, ou seja, não nasceu rico. Começaram a desfilar em nossa sociedade pessoas que tinham dinheiro e não tinham educação.
Pode-se nomear como bem quiser: educação, cultura, valores. A verdade é que respeito, bom senso, educação, solidariedade não se compram, se aprendem. Um pacote de férias pode ser comprado, mas a maneira de se comportar no avião ou no hotel não está inclusa. O carro zero pode ser comprado, mas a forma de dirigir com responsabilidade e prudência no trânsito não vem como acessório. O smartphone mais cobiçado pode ser comprado, mas não a gentileza ao responder às mensagens recebidas.
Segurar a porta para quem entra, não jogar lixo no chão, não gritar no ambiente de trabalho, pedir licença, dizer por favor e obrigado, pedir desculpa ao esbarrar em alguém, esperar as pessoas saírem do elevador antes de entrar, aguardar o lugar na fila…Todos esses exemplos são atos que não se vinculam ao saldo bancário, aos bens ou ao salário, pois não dizem respeito ao dinheiro e sim à educação. Isso tudo tem a ver com o ser e não com o ter.
Sempre ouvi na infância: O saber não ocupa lugar. E o mais importante, meus pais diziam que o que sabemos nunca nos será tirado. Com certeza, quanto mais adquirimos conhecimento, mais nossa mente se dilata. Graças a Deus, não somos feitos como a memória dos computadores, os chips, as nuvens, que são limitados em seu armazenamento. A nós, o Criador deu uma infinita possiblidade de acumularmos conhecimento e partilharmos uns com os outros. Além do mais,
não só os bons modos e o conhecimento definem quem você é, mas o fato de fazer o bem, usar de misericórdia e solidariedade também fazem parte do seu caráter.
É interessante como num velório ou sepultamento ouvimos coisas sobre a pessoa falecida, que dizem respeito ao que ela era ou realizou. Normalmente coisas boas. Com raras exceções, o dinheiro não é assunto em tal momento. Reflito como, no fim das contas, não é sobre o que se tem ou se adquiriu que seremos lembrados. A maior herança que os pais podem deixar aos filhos é seu legado e não seus bens. De certa forma, diante da morte, o ser humano percebe: o que importa é quem somos, não o que temos.

Renata_saraivaRenata Saraiva é brasiliense, casada, com formação em Língua Portuguesa e Literatura. Comunicativa, curiosa, adora arte, fotografia e viagens, mas a maior paixão: os livros. Católica, seguidora de Jesus Cristo, divide o tempo entre a profissão e a missão de servir a Deus. Acredita que um mundo melhor e mais justo é possível.

 

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