Nenhum parto é fácil

Sim, fiz parto normal. Sim, foi meu segundo parto normal. Sim, foi humanizado. Sim, foi como sonhei. Sim, foi rápido. Sim, foi ainda mais rápido que o primeiro. Sim, não teve intervenção. Sim, não tomei anestesia. Sim, tive que correr pra ele não nascer no meio do caminho. Não, não foi fácil. Não, não, não. Não foi nada fácil. Mas, sim, é comum confundir trabalho de parto curto, rápido e bem sucedido com facilidade. O que é uma inverdade. Ou desconhecimento. Ou os dois. Ou não…

 

Entre “sins” e “nãos”, essas são algumas das perguntas feitas a mim desde que pari Lucas, há menos de 5 dias [14/9/18, Brasília]. Um misto de curiosidade e intimidade que marcam esse momento. Quem me conhece sabe o prazer que tenho de dividir, compartilhar. Experiências, dúvidas, medo e até culpas.

 

Existem mil vantagens em um trabalho de parto que evolui em poucas horas, e acho que a maior delas é não chegar a uma exaustão que resulte em uma conversão para uma cesariana. Porque não é fácil. Nem quando é rápido. No dia em que Lucas nasceu, fui informada, assim que cheguei à maternidade, que as três salas de parto normal e humanizada existentes estavam ocupadas. E que em uma delas havia uma gestante em trabalho de parto há mais de 20 horas. Logo depois do nascimento do Lucas, circulou pelos corredores que uma gestante pariu no elevador, pois não deu tempo de chegar até a sala de parto. Qual das duas situações é a melhor?!

 

Depende. Depende do que foi idealizado e das frustrações pela realidade diferente da expectativa de cada uma daquelas mulheres. Talvez a mãe que ficou em trabalho de parto há mais de 20 horas, e depois foi orientada a fazer uma cesariana, tenha aceitado melhor do que a mãe que pariu no elevador, por não ter conseguido seguir os passos do plano de parto detalhadamente pensado. Não tocou aquela música, não teve ambiente a meia luz, não foi calmo e tranquilo. Foi no elevador. Mas estou apenas supondo… entre o sim e o não.

 

Ou até um parto normal no centro cirúrgico, onde são realizadas as cesarianas, como o meu caso. Foi onde Lucas nasceu, em um parto completamente humanizado. Se eu queria na sala humanizada? Sim! Se o ambiente influenciou?! Não!! E as pessoas envolvidas? Sem dúvida alguma, elas sim foram determinantes!!! Como mágica, transformaram o espaço, respeitaram meu momento,  minha intimidade e minhas escolhas.

 

Não, não é fácil. E (acho), de verdade, que não sou parideira. Porque não foi o acaso, não sou uma sortuda, uma escolhida, quase predestinada a parir normal. Sim, sou uma privilegiada, mas por ter alcançado o parto que sonhei, independente de vaginal, cesariana, humanizado, natural, com intervenções, ou qualquer outro nome que se dê.

 

Mas não foi acaso, nem sorte. Exige decisão, preparo, dedicação, estudo, autoconhecimento, e infelizmente, na grande maioria dos casos, investimento, o que reduz a chance de pessoas que não podem arcar com serviços particulares. E também fazer e manter determinadas escolhas.

 

Nas minhas duas gestações, meu pré-natal envolveu reeducação alimentar, exercício físico, acompanhamento com enfermeira obstétrica, consultas periódicas com obstetra, fisioterapia, exames de rotina. Exagero?! Talvez… mas eu defendo que não!

 

Não posso deixar de valorizar e reconhecer o apoio e compreensão também dos amigos do trabalho. Sim, estou cercada de amigos. E do envolvimento do parceiro e da família em todo o processo, que respeitaram as minhas decisões. Todos eles, e cada um deles de modo particular, foram fundamentais! Aqui fica minha gratidão.

 

Se eu reconheço meus dois partos como fáceis ou atribuo o resultado à sorte, minimizo a atuação de cada pessoa envolvida no processo, e inclusive a minha dedicação e preparo ao longo de 40 e 38 semanas, respectivamente.

 

Todas essas pessoas pariram comigo, em especial meu parceiro, que apoiou e compreendeu cada caminho escolhido. Não foi fácil. Nem para ele. Meu pequeno de 1 ano e 7 meses também me ajudou, sabiamente, dormindo minutos antes de a mamãe sentir dores mais fortes, traduzidas em lágrimas, suor e gemidos. Não posso esquecer também da minha mãe e minha irmã, que com suas presenças me deram a segurança necessária para seguir com confiança. E do Lucas, claro! Ele, principalmente, tornou tudo possível!

 

É emocionante relembrar o envolvimento de cada um deles. No meio do caminho, leia-se pré-natal, até o parto, ainda tive o privilégio de conhecer pessoas perfeitas para completar o “dream team” do parto anterior: um anjo em forma de enfermeira obstétrica e uma mãe em forma de médica, sim, eu digo, uma mãe. Precisava de fisioterapia para me preparar melhor para o parto. Além de mãos mágicas, ganhei uma psicóloga e acredito que uma amiga, tamanha conexão e empatia entre nós. Queria uma fotógrafa para registrar o meu parto, mas ela foi além. Deu apoio, carinho, conforto. Queria eternizar o momento com uma profissional, mas ela agiu, também, como uma doula. Além do registro fotográfico, o olhar dela me carregou no colo em momentos decisivos.

 

É claro que tem custos, que vão além do orçamento disponível. Exige planejamento também em relação ao financeiro, o que é uma pena, como já mencionei. Mas além de profissionais super competentes, os que estiveram comigo são pessoas que AMAM e se DEDICAM ao que fazem. E se entregam à vida que escolheram. Seguram a sua mão, assopram palavras de apoio no seu ouvido, e a conduzem para que você siga até onde puder (ou quiser). Não tenho outro nome para isso, que não seja vocação, e não profissão. A verdade é que o que eles fazem e a forma como dispõem sua vida não tem preço. Eu os admiro.

 

Deixo um fraterno abraço para quem se sentir tocada(o) com as palavras, e que elas tragam reflexão. E, mães, não digam nunca que não conseguiram. Porque vocês conseguiram sim, inclusive superar e seguir adiante. Tem que ter muita coragem para bancar qualquer escolha, ou decisão tomada, que fuja do nosso controle. Mas reconheço que não é fácil e nem confortável falar isso, porque não sei o tamanho da sua dor, frustração ou superação. Não conheço sua história, mas a respeito. E também sei que não é fácil para você.

 

Eu sempre penso muito e releio inúmeras vezes o que escrevi, para evitar que alguma pessoa se sinta desrespeitada. Falar sobre um assunto delicado e íntimo como esse, não é fácil, como também não é fácil se expor e não é fácil estar do lado supostamente “fácil”.

 

Ao fim, não é fácil. Nem para mim, nem para você, ou seja, não é fácil para ninguém.


newborbnNany Taniguchi, 33 anos. Desde que decidiu ser mãe, a jornalista iniciou um processo de autoconhecimento. Como resultado surgem pílulas, textos, poesias, reflexões e desabafos sobre a maternidade. Estes surgem espontaneamente, como se as palavras tomassem forma e vida de modo independente. É a emoção e inspiração que conduzem seu processo de escrita.
Atualmente, assessora de Comunicação e pesquisadora na área da Comunicação em Saúde. Apaixonada pelo tema. Mãe do Arthur e do Lucas,frutos de uma relação baseada em companheirismo, amizade e amor. Editora do @pedefralda.

 

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  [email protected] .

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