Problema feminino?

Quando eu entrei no serviço público achei que seria tudo maravilhoso. Eu fui estudante profissional, batia ponto na biblioteca, dediquei-me por tanto tempo, criei uma expectativa que, infelizmente, não correspondeu à realidade que a mim foi apresentada.

Eu entrei empolgada, mas, logo de início, um balde de água gelada me foi derramado da cabeça aos pés. Fui trabalhar, inicialmente, em uma equipe de três pessoas, na qual o líder era um homem com uns vinte anos a mais do que eu. Até aí, tudo bem.

Na primeira semana, esse coordenador me chamou para ir à sede do órgão para pegar um documento e conhecer o ambiente. Assim que eu entrei no carro dele, ele me perguntou se eu tinha namorado e começou a relatar sua vida amorosa. Eu achei tudo muito estranho, mas tentei não levar aquilo muito a sério. Todavia, em toda oportunidade que tinha, falava do meu namorado para ele.

Com o passar dos meses, outras questões foram se apresentando, cada vez de forma mais desagradável. Surgiram muitas viagens a serviço, até que, em uma delas, fui obrigada a trabalhar com este coordenador e mais dois outros colegas de outro estado, por uma semana, no interior de São Paulo. Que semana terrível! No primeiro dia, pegamos o avião cedo em Brasília, fizemos conexão na capital paulista e chegamos no interior já correndo para iniciar os trabalhos. Encerradas as atividades daquele dia, sem almoço, sem lanche e eu quase desmaiando de fraqueza, falei com o coordenador que não dava para trabalharmos daquela forma, sem pararmos para nos alimentar. Conversamos cordialmente e acertamos que, a partir do dia seguinte, daríamos o intervalo de almoço.

O dia seguinte chegou e, foi aí, que eu senti o gosto amargo do machismo e misoginia que ele tanto indicava com suas atitudes, mas que eu me negava a enxergar. Um parêntese para dizer que, até aquele momento, eu vivia em um mundo em que ser mulher nunca tinha sido um problema para mim, não achava que o machismo fosse uma realidade tão viva em nossa sociedade, até que conheci esse sujeito e me vi em um ambiente de trabalho em que práticas misóginas eram corriqueiras e vistas com naturalidade.

Pois bem, chegou a hora do almoço e o empregado que estava reunido conosco perguntou ao coordenador se poderíamos estender a reunião matutina ao horário de almoço para que ele não fosse obrigado a retornar no período vespertino. Passados alguns anos, aquela resposta ainda ecoa viva em minha memória: “Sabe o que é? A nossa colega aqui tem um problema feminino, ela precisa se alimentar certinho, no horário”. Você não tem ideia do autocontrole que tive que ter para não o mandar ao inferno ali mesmo, na frente de todos. Eu lembrei do ditado que minha mãe me ensinou: “Quem tem vergonha, não faz vergonha aos outros”. Esperei que o empregado saísse da sala e disse: Fulano, se alimentar não é um problema feminino, é uma necessidade humana.

Dali em diante, colecionei casos como este. Infelizmente, contá-lo aos superiores não causou qualquer reação ou providência. E até o dia em que eu consegui mudar de local de trabalho, engoli a seco muitos sapos e desaforos.

Hoje eu sei que o grande problema feminino que enfrentamos é a falta de respeito e a resistência de uns homens, não todos, que ainda não entenderam que o mundo no qual a mulher é subespécie não tem mais espaço e que uma mulher que entende isso, será sempre uma pedra no caminho dos insensatos.

juliana moreira

Juliana Moreira é brasiliense de certidão e coração, casada, mãe de um menino, com formação e atuação profissional em direito, mas amante da literatura. Extrovertida e sorridente. Adora conhecer pessoas, viajar, comer bem e desfrutar a vida na companhia de sua família e de seus amigos. Apaixonada por livros. Tem a escrita como terapeuta preferida. Católica que tenta sempre se aproximar mais de Jesus Cristo e aprender dele o bom caminho. Idealizadora do @eumaeleitora

15 comentários sobre “Problema feminino?

  1. Infelizmente ainda temos muitos homens idiotas em cargos de chefia. A tão sonhada meritocracia, que é gritada a plenos pulmões pelos ricos, apadrinhados e pessoas influentes do nosso amado e escravagista Brasil, não passa de um distante sonho.

    Meritocracia é quando TODOS tem a chance de concorrer em pé de igualdade. Não existe igualdade no Brasil. Nem em trabalho, nem em salário, nem em oportunidades, nem em nada. Então quem bate no peito e fala isso, geralmente, é de uma minoria privilegiada que ainda não se deu conta dos seus privilégios.

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  2. Oi Victor. Infelizmente a realidade é bem diferente da expectativa, mas está nas mãos de cada um de nós ser diferente daquilo que desejamos combater. Obrigada pela leitura e comentário!

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    1. O que podemos fazer é sermos luz no meio da escuridão, fazermos o bem que desejamos receber. Como mãe de menino, eu tenho uma grande responsabilidade de criar um homem digno, que respeite o próximo e trate a todos com igual respeito!

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    2. Os homens são egoístas, e tem amor ao controle e à dominação. Eles estão acostumados a mandar e dominar. E com certeza tem muito medo das mulheres… porque não sabem que as mulheres de caráter e bom coração são as que vão liderar o nosso mundo para uma nova era de igualdade, de amor, e de nutrir a humanidade com o bem e com a justiça. Ao menos é o que eu vejo e é como eu penso. Amém!

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  3. É muito humilhante o que ainda temos que passar por ser mulher. Infelizmente temos que lidar com certos comentários e atitudes de homens ignorantes. Esperamos que homens que ocupam cargos superiores sejam exemplos e o que temos é sempre mais um machista sem noção. Parabéns pelo texto. Beijos Ju

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    1. Obrigada, Lu! Infelizmente, temos muitos desses por aí. Mas eu conheço homens incríveis e acredito que, com o nosso modo de viver,e proceder diferente, podemos iluminar os corações endurecidos! É um desafio, sem dúvida! Mas somos melhores do que isso!

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  4. Ju, uma pena que nos dias de hoje ainda tenhamos que enfrentar isso. Em muitos lugares, isso é a regra. Alguns órgãos ainda tem poucos cargos de chefia ocupados por mulheres… Você tem razão, como mãe de menino deve buscar um futuro diferente, assim como todas nós devemos influenciar alguém para o bem. Parabéns pelo texto!

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    1. É verdade! Nem sempre podemos largar um trabalho que nos faz infeliz ou sair de uma situação facilmente. Como consolo eu te digo que também não podia pedir demissão, mas coloquei os joelhos no chão e pedi a Deus que me tirasse daquela situação, daquele ambiente. Até que efetivamente eu conseguisse sair de lá, ainda enfrentei muitas dificuldades, mas acredito que todas eleas moldaram meu caráter e me ensinaram muito! Deus teve misericórdia de mim, Ele está sempre conosco!

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