O perdão na perspectiva da Jungle Marathon

Amar é sempre ser vulnerável. Ame qualquer coisa, e seu coração certamente vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, você não deve entregá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva-o cuidadosamente em seus hobbies e pequenos luxos, evite qualquer envolvimento, guarde-o na segurança do esquife de seu egoísmo. Mas nesse esquife – seguro, sombrio, sem movimento, sem ar – ele vai mudar. Ele não vai se partir – vai se tornar indestrutível, impenetrável, irredimível. A alternativa à tragédia, ou pelo menos ao risco de uma tragédia, é a condenação. O único lugar além do Céu onde se pode estar perfeitamente a salvo de todos os riscos e perturbações do amor é o inferno. (C. S. Lewis)

Certa vez, vi uma reportagem a respeito de atletas que desafiavam seus limites numa prova de corrida no meio da Mata Amazônica (a Jungle Marathon). Ao longo de todo o percurso, tudo era desafiador: o clima, os insetos, os arranhões inevitáveis e outras feridas mais graves, a convivência entre os competidores, a superação de cada obstáculo, a história de vida de cada um, os motivos e trajetórias pessoais que os levaram até ali, a valorização da família e da vida na linha de chegada.

Muitos já devem ter passado por alguma situação desastrosa. Pare um minuto e tente se recordar de um convite que você não recebeu; de uma notícia, a qual você foi a última pessoa a saber; de um assunto pessoal que você só teve consciência por uma pessoa distante, e não por meio daquela que deveria ter conversado com você; das mensagens enviadas e ignoradas; dos segredos inesperados; das piadas sobre seus sonhos; das omissões ou da falta de verdade; do desdém diante dos outros; dos olhares de descrença; da exposição da sua intimidade; da especulação ou do desprezo; da falta de compromisso, moral e respeito, etc. Lembrou? E, se você tivesse mais alguns minutos, essa lista se tornaria cada vez mais quilométrica. Mas não queremos que nossa corrida em meio à selva seja, a princípio, tão longa. Isso mesmo! Estou lhe convidando a correr comigo em meio à nossa “selva” pessoal, na qual, muitos de nós temos que atravessar num processo de perdão.

Entendemos que os atletas costumam passar por um período de treino antes de encarar um desafio como esse. Provavelmente, já tenham passado por provas mais simples, não menos desafiadoras, e que foram aumentando o tamanho e a dificuldade com o passar do tempo. Lembre-se daquele coleguinha da escola que você perdoou por causa de um empurrão sem querer na hora do recreio; daquele primo sacana que lhe pregou uma peça; daquele desentendimento adolescente que você teve, mas que retomou a amizade depois de um tempo; daquela data esquecida… enfim, mal nascemos e já temos que perdoar! É a ecografia invasiva, o tapinha do médico na maternidade, a dor da vacina, o ciúme do irmãozinho, a falta de leite da mãe. O ser humano é, por si, pecador, mas é igualmente chamado a perdoar em inúmeras circunstâncias.

Um ponto importante ligado ao perdão – que o possibilita ou impede – é a intensidade do nosso ressentimento. É natural que, em alguns momentos estejamos mais sensíveis; vivemos determinada situação e, por um bom tempo, não só nos lembramos, mas nos ressentimos daquilo, com riqueza de detalhes, com palpitações até. Imagine-se no início do seu treino para a grande prova. Nesse momento você vai correr os primeiros quilômetros na rua ou numa esteira. Certamente sentirá cansaço físico, canelite, dor de lado. Diante desses desconfortos, algumas pessoas, mais do que outras, têm a tendência de julgarem-se incapazes para o desafio e entregar os pontos.

Observe bem, ao pensar naquela circunstância ou pessoa que feriu o seu coração, a sensação de ressentimento é muito semelhante ao de uma câimbra generalizada. E você não quer desistir da sua Jungle Marathon, não é mesmo? Então, vai persistir na corrida e, quando pensar naquela circunstância indelicada, vai trazer à mente os aspectos positivos, sejam eles prováveis razões que fizeram determinada pessoa agir daquela forma, ou as outras tantas situações em que ela foi tão amável e incompatível com esse momento que o marcou negativamente. Embora você opte por não manter o contato com essa pessoa, o que é compreensível, levará consigo pensamentos reconfortantes e realistas. Fazer o exercício de pensar positivamente não significa assumir o papel de advogado de defesa e colocar um crachá com a palavra “culpado” no próprio pescoço. O fato é que as pessoas não são apenas más, as pessoas são boas e más também; o ser humano é falho, mas é capaz de grandes obras dignas de reconhecimento. Fazer esse exercício é esforçar-se por trazer essa memória para a área da mansidão e não do ressentimento; é deixar o coração calmo para enxergar que todo o possível foi feito; é ter a consciência tranquila de quem procura ficar com o que é bom.

Depois de um tempo, os resultados desse exercício serão alcançados: os desconfortos vão sendo amenizados, a respiração melhora e, inclusive, a frequência cardíaca. Chegou a hora de fazer a inscrição para a prova, de assumir isso em sua vida; chegou o momento de aceitar que esse fato fez parte da sua trajetória. Talvez você já consiga rir um pouco da situação ou ser grato por algumas contribuições, afinal, a canelite te fez descobrir o seu ritmo confortável de corrida, a dor de lado te fez melhorar a respiração e educar-se para a hora exata da alimentação com base nos treinos, o cansaço físico liberou muitas boas substâncias e hormônios no seu corpinho.

Agora, você está escolhendo a roupa mais adequada para a corrida e vai perceber que não é possível carregar toda essa bagagem pesada na sua memória ao longo da prova e que, apesar de você estar dando atenção a determinados fatos ruins pelos quais você passou, a verdade é que você já encarou muita coisa na vida e sobreviveu a elas. É você que opta por todos os itens que levará consigo ao longo do percurso. Mas não dá para levar aquele empurrãozinho do colega nas costas! Essa é, com certeza, uma decisão difícil! Tendemos a querer nos proteger contra todo e qualquer imprevisto, levando os mais variados objetos conosco, por isso, o primeiro grande obstáculo que você tem a sua frente, antes de entrar na mata, é aquele muro de proteção que você mesmo construiu.

É preciso muita coragem para aceitar e para lidar bem com o fato de que o amor manifesto na amizade, nos relacionamentos amorosos e familiares – a caridade – nos deixa muitas vezes vulneráveis – e isso não é problema nenhum! A vulnerabilidade não significa fraqueza, mas abertura aos riscos, às vivências próprias da vida. Claro que a moral traz consigo, de maneira ao menos implícita, o compromisso e a lealdade diante do amor de outrem, e comumente não encontramos essa postura diante de nós. No entanto, se você mesmo não desconstruir esse muro de proteção – sozinho ou com ajuda – as chances de não percorrer a Jungle Marathon é grande, e, concomitante, não oferecerá aos outros participantes da prova as suas contribuições.

Inscrição feita, itens dispensáveis deixados de lado, muro desconstruído, eis que você está diante da exuberante Mata Amazônica e sabe que a prova não consiste unicamente em competir contra os outros, mas em vencer suas próprias possibilidades, sendo flexível e sábio diante de todos os obstáculos que aparecerão à sua frente. Algumas vezes o clima não será muito favorável – você sentirá fadiga, suor intenso, ora o corpo ficará mais frágil, ora mais rijo, tremores, dificuldades para se movimentar, necessidade de atividade para o corpo manter-se aquecido. O clima é um fator que não depende exclusivamente de você. Você está ali na situação e as coisas acontecem; temos reações naturais e instintivas, e você só pode reagir de alguma forma ao clima que se formou, mas nem sempre determiná-lo de antemão. Tal como o clima, os acontecimentos de nossa vida e as decisões das pessoas são inevitáveis; precisamos aprender a conviver com tudo isso, compreendendo ou não o que causou essas situações.

Outro fator com o qual irá se deparar são os insetos e animais selvagens – uns inofensivos, outros o são apenas na aparência e, ainda, os que não são inofensivos, nem na aparência, nem na realidade. Esses animais estão por toda a parte, nas árvores, nas águas, no solo, camuflados, visíveis, silenciosos, barulhentos – dentro dos outros, mas, especialmente, dentro de você. Ao longo de todo o percurso, por si e pelas outras pessoas envolvidas, você deverá estar atento aos insetos e animais, às suas manifestações e riscos, e tomar a postura correta para evitá-los, a distância suficiente para observá-los e o remédio ideal para curar as enfermidades que alguns deles podem causar. Esses insetos e animais simbolizam nossas diferenças de gênio, nossos valores (ou falta deles), nossos possíveis vícios e humores.

Você está correndo, tropeçando, sendo engolido pela lama, pulando troncos, afundando em pântanos, correndo em clareiras inesperadas, parando um pouco para respirar, olhando para o alto e vendo a imensidão da vegetação, tentando imaginar quantos anos se passaram até que a mata chegasse àquela proporção, prosseguindo com todas as suas forças, tentando não perder a direção da corrida, e tudo o que possa fazer não é capaz de evitar arranhões. O corpo começa a manifestar sintomas e você precisa examinar bem cada hematoma, cada reação alérgica, cada corte, e descobrir a raiz da dor para tratá-la adequadamente. Precisa descobrir a verdadeira causa das suas feridas interiores. Para animá-lo, digo: você está mais perto da linha de chegada do que estava quando entrou na mata fechada.

Ao longo do caminho, lidando com todas as interferências – clima, animais, enfermidades, características do ambiente – você tem a oportunidade de receber a contribuição de outros participantes e, por um instante, esquecer-se de si – afinal, se você for pensar apenas em si mesmo nesse momento, sentará no tronco, chorará eternamente e não alcançará a cura da ferida ou o final da prova. Sabe que, nessa posição, se tornará presa fácil para picadas ou ataques dos animais. Descobre que uns participantes conhecem um pouco sobre primeiros socorros; outros dominam alguma técnica medicinal com as plantas da mata; uns partilham da sua dor, comovem-se e tentam aliviá-la oferecendo apoio; outros animam-no a dar continuidade ao seu percurso; uns partilham com você situações semelhantes às quais passaram. Você descobre que cada ser humano tem percorrido sua Jungle Marathon de forma singular e que também possuem desencantos a superar, porém, carregam consigo, milhares de outros encantos, memórias, aprendizados, cicatrizes de outras maratonas e um condicionamento físico invejável, resultado de um coração disposto a encarar a mata e percorrer a prova.

Você sabe que muitos estão torcendo por você, que no final da corrida estará aliviado, que você é um grande vencedor, que é corajoso, determinado. Ao longo da prova você pode perceber que algumas coisas são inevitáveis, a outras você pode reagir bem e contorná-las ao seu favor, você passa a ser mais atento, minucioso, empático, resiliente. Descobre que precisa de pouca bagagem para provas como essas, e chega à linha de chegada como um grande ser humano, abraça os seus, ressignifica as relações e avança sua trajetória.

O perdão é, realmente, muito difícil em algumas circunstâncias. Precisamos de tempo, de espaço, de silêncio. Mas a verdade é que, como na Jungle Marathon, você precisa encarar obstáculos internos e externos para, no fim, alcançar o alívio, a realização pessoal, e dar novos rumos aos relacionamentos e às experiências de vida. Perceba que a falta de condicionamento físico e a situações de dificuldade para perdoar oferecem sensações bem parecidas – câimbras, cansaço físico, desânimo, tremores, afeta os batimentos cardíacos – e os aspectos que levam à resistência ao perdão são semelhantes àqueles que nos fariam evitar provas como estas – a autocomiseração, a insegurança, a falta de preparo físico e mental – e o fato de nos conformarmos com isso – a autojustificação, a crença de que deveríamos ser capazes de mudar fatores que não dependem de nós, as cicatrizes antigas e o medo de novas feridas, a incapacidade para distinguir itens indispensáveis daqueles pouco relevantes. Quando olhamos para todos os obstáculos da prova não somos capazes sequer de sair detrás do muro de proteção que construímos depois do nosso último desencanto.

Caso você tenha alguma história, a qual tem olhado com certo ressentimento, e deseja trazer a lembrança dessa situação ou pessoa para a área da mansidão, sugiro que releia esse texto, faça uma boa caminhada – ou quem sabe uma trilha –, destrua os obstáculos que você construiu – ou pensou em construir –, selecione minuciosamente cada item que levará consigo durante o seu percurso, entre na sua selva interior, aceite o que não depende de você, observe com atenção cada contratempo, examine e aplique o remédio adequado a cada ferida, ouça a história e contribuição de outras pessoas, alcance a linha de chegada e ressignifique seus afetos.

Nívea Maria Ferreira Fernandes, devota de Nossa Senhora de Guadalupe e São José, passarinho como Santa Teresinha, amante das palavras impressas como São Maximiliano, criativa, curiosa, apaixonada por livros, crítica, detalhista, vive “inventando moda”, tem traçado novas trajetórias, se surpreendido com o mundo que carrega dentro de si mesma e costuma ser inteira em tudo o que faz.

 

 

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.

4 comentários sobre “O perdão na perspectiva da Jungle Marathon

  1. Muito bom!!
    Esse texto me fez viajar para o Interior da minha alma. Percorrer caminho marcados pela dor de muitas feridas!!
    Nívea, você tem o dom de nós fazer ver além do sofrimento..
    .
    Maravilhoso !!
    Um grande abraço!!
    Esislene.

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