Seis meses depois do parto, um outro parto

Seis meses depois, somos condicionadas a acreditar que estamos prontas para uma segunda separação. Mas o cordão que nos une é diferente daquele cortado no dia do nosso nascimento. Nosso, porque foram três nascimentos: o dele, o meu e o do companheiro.

Acordamos com aquela sensação de que é hora de retomar. Retomar a rotina, o trabalho, o que deixamos para trás temporariamente, enquanto protegíamos e lambíamos a nossa cria. Mas a gente sangra, pela segunda vez. E muito mais que no dia em que celebrávamos a chegada deles. A gente sangra por dentro, a gente sente dor, o peito jorra leite e a gente chora. Mas esse choro é escondido. Vestimos a melhor roupa, arrumamos o cabelo, disfarçamos as olheiras com uma bela maquiagem, colocamos um sorriso no rosto e… pronto. Será?!

O choro tem que ser disfarçado justamente porque fomos condicionadas a acreditar que estamos prontas seis meses depois. E que devemos comemorar. Mas os sinais estão aí: a voz embarga no desabafo, as lágrimas escorrem na despedida, pensamos em pretextos para evitar a distância, a culpa pesa nos ombros, a saudade aperta, o peito jorra leite. Muito leite. Essa dor é disfarçada porque ela é incompreendida e difícil de explicar. Os sinais mostram que esta é uma convenção imposta a nós. No cabalístico dia D, temos que estar prontas para retomar um passado que já não existe mais.

As manhãs não serão as mesmas, a rotina de trabalho e de casa também não. Nunca mais. Não há como voltar atrás. Não se quer voltar atrás. Eles podem estar separados fisicamente, mas esse é um cordão impossível de se romper. Enquanto um chora, o outro sente. Se sente fome, a gente sente. Se está triste, a gente sente. Será que, de fato, estamos prontos, APENAS seis meses depois?

A nós, é exigido a mudança de comportamento na mesma praticidade em que se aperta um botão. Da noite para o dia, gestante. Do dia para a noite, mãe (pai). Da noite para o dia, mulher (homem). Do dia para a noite, profissional. No puerpério, desejamos mentalmente dias de folga, momentos de descontração, atividades diferentes, sossego. E, quando supostamente esse dia chega, é exigido que estejamos prontos e gratos. Sem queixas, lamúrias, dúvidas. Não somos máquinas, não somos previsíveis. Somos mulheres, homens. Somos pais e mães. Somos de carne e osso. E sentimos. Tão ou mais que eles.

Os “se” martelam na cabeça o tempo todo. Se soubesse que seria assim, teria aproveitado mais. Teria reclamado menos. Teria feito mais…. Teria…

 Como somos imprevisíveis. Há pouco mais de um ano, seria outro texto, outro relato, COMPLETAMENTE diferente. Seria de comemoração, libertação, por ter a oportunidade de retomar projetos, sonhos, desejos. De alegria por voltar a se arrumar para sair, de alívio por conversar outros assuntos. Um ano e pouco depois, outra sensação. De um amor tão grande que dói no peito, de uma saudade inexplicável, de uma ligação tão forte e visceral, e de um choro (in)contido. Pelos dois. Demorou, mas agora percebi. Essa sim sou eu. Em algum momento, somos todos nós.

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Nayane Taniguchi tem 32 anos, é mulher, jornalista, esposa, dona de casa, mãe. Apaixonada pela família e pelos filhos. Ousa brincar, interagir com as palavras e comentar sobre a intensidade da vida real. A maternidade tem sido seu grande aprendizado e lição.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  [email protected]

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