E o Oscar vai para…

Desde que engravidei, me assustei em perceber como, de uma hora para
outra, várias pessoas se tornaram especialistas em: nutrição na
gravidez, parto, cuidados com o bebê, aleitamento materno, sono do
bebê e aí por diante.

É incrível como todos tem um palpite, uma ideia, uma lógica, uma
explicação sobre tudo! Antes de me abraçarem e cumprimentarem a
pergunta era: foi parto normal? Tomou anestesia? Está amamentando? Ele
já está dormindo no quarto dele? Você usa fraldas de pano ou
descartáveis? Está fazendo papinha com alimentos orgânicos?

Socorro! Deixem-me ser mãe do meu filho! Deixem-me erra! Deixem-me
descobrir o mundo novo que se abre diante dos meus olhos!

Descobrir esse mundo novo, nem sempre é fácil. Existe o medo do novo,
a quantidade imensa de informações, a sensação de que se está fazendo
tudo errado, os hormônios e ainda o peso que cada vez mais os
“especialistas” dão para as questões.

Senti esse peso quando comecei a busca “normal” em sites, blogs,
revistas e material informativo sobre as dúvidas mais “bobas”. Nessa
busca, tenho me assustado com o peso das palavras: se você decide
realizar uma cesárea é menos mãe do que a mulher que optou por um
parto normal, se você amamenta será muito mais mãe do que aquela que
optou ou teve de optar pela alimentação artificial e por aí vai.

O que observo é que as opiniões, necessárias e muitas vezes até
valiosas, devem ser dadas quando a mãe solicitar ou quando você
oferecer e a outra interlocutora aceitar, visto que, ao dispararmos
nossas opiniões corremos o risco de ser desagradáveis, invasivas e até
cruéis, já que, além da mágica que envolve todos os momentos, a partir
da concepção de um filho, existem muitas histórias que muitas vezes
não conhecemos.

Um exemplo simples acontece quando falamos para uma mãe que prepara a
mamadeira com fórmula artificial para seu filho: “não acredito que
você não está amamentando no peito! Você sabia que o leite materno é
um alimento completo e deve ser a única fonte de amamentação da
criança até os seis meses de idade? Eu tinha tanto leite que até doava
para o banco de leite!” O que não sabemos é que talvez aquela mãe
tenha tentado semanas a fio amamentar, que ela tomou todos os remédios
caseiros que o médico receitou, visitou uma consultora de lactação
várias vezes e chorou noites a fio vendo seu filho chorar de fome e
escutando latejar na mente a fala do médico: seu filho está
desidratando!

Precisamos entender que, embora a virtualidade das relações nos façam
acreditar na ideia de que somos íntimos de uma série de pessoas, isso
não é verdade! E quando se trata das decisões que o outro toma,
precisamos saber respeitar, mesmo quando consideramos aquela situação
um absurdo. É preciso respirar fundo, contar até dez e falar das
flores, do governo e até do rato que roeu a roupa do rei de Roma, mas
não podemos sair disparando as nossas “verdades e certezas”!

Acredito que essa sensibilidade de olhar o outro não seja algo que se
adquire da noite para o dia, na verdade tenho certeza! Antes de ser
mãe, eu falei muita bobeira, dei muita opinião na papinha alheia e
achei que comigo seria diferente. Não foi!

Sempre achei um absurdo as mães que mantinham seus bebês sem sapatos,
tente colocar qualquer sapato nos pés do meu filho e ele os retira
numa maestria inigualável! Pobre das mães que conviveram com meu olhar
torto e com a minha pergunta: onde estão os sapatos dessa criança?

Me lembro que um dia estávamos almoçando com um casal de amigos e seu
bebê, e minha amiga, abriu a bolsa retirou um pote de papinha
industrializada e começou a alimentar o filho. Meu olhar de reprovação
não foi suficiente e eu tive de perguntar: papinha industrializada?
Como você tem coragem? E ela, sem graça, me respondeu: “não! É só o
potinho, fica mais fácil para transportar!”

E se fosse papinha industrializada o que é que eu tinha com isso?

Dois anos depois, após várias tentativas frustradas de alimentar meu
filho, comprei um potinho de papinha industrializada para ver a
textura e incrédula tentei fazer com que ele experimentasse, adivinha?
Comeu tudo!

Hoje, aprendi a fazer as papinhas, encontrei a textura ideal e a
combinação dos alimentos que meu filho prefere, mas e se não tivesse
encontrado ou por algum motivo tivesse que dar esse tipo de
alimentação com mais frequência para meu filho, eu seria menos mãe?

Não, eu não seria!

Diante de tudo isso, o Oscar vai pra você, que defende com unhas e
dentes suas verdades, mas que sabe respeitar a vontade e a verdade do
outro. E também pra você, mulher e mãe, que tem suas verdades e sofre
por muitas vezes, nadar contra a maré, e faz isso com braçadas firmes,
pois sabe, que está só tentando fazer o melhor para seu filho.

20 comentários sobre “E o Oscar vai para…

  1. Eu compartilharia esse texto na minha primeira gravidez. Mas estou na segunda e, sinceramente, deixa o povo falar. Ser mãe é também exercitar a paciência. Essa intromissão toda é porque nos expomos demais. Eu tenho sentido isso agora no segundo filho. Decidi que não ia me expor como na gravidez do primeiro e, como resultado, tenho ouvido bem menos. Se as pessoas se metem ou não nas nossas vidas, isso depende um pouco de nós também.

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    1. Veronica, não concordo em relação a exposição mas, obrigada pela dica! Vou observar as situações por esse novo ângulo que você apresentou. Fico feliz em saber que com o segundo filho, tudo melhora. Volte sempre para contribuir nas discussões, sua experiência vale muito.

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      1. Pessoas intrometidas sempre existirão, independentemente de exposição ou não. Mas percebi, pela minha experiência, que dependia um pouco de mim. E tb acho que tem a ver com a era da comunicação. Todo mundo quer dizer algo hoje em dia. Cabe a nós filtrar o que de fato é importante é educar as pessoas com caridade quando as mesmas forem inconvenientes.

        Curtido por 1 pessoa

    2. Oi Verônica, tudo bem?
      Que tal você escrever pra gente sobre essa sua mudança de atitude com a segunda gravidez? Eu já li que as mulheres passam muitos perrengues com o primeiro, mas depois realmente deixam a vida mais leve.
      Te convido à leitura dos demais posts do nosso projeto Muitas Marias, e sinta-se à vontade para enviar o seu relato e seus pontos de vista para contato@muitasmarias.com .
      Cada mulher é única e com certeza tem uma vida repleta de histórias que merecem ser compartilhadas, para ajudar outras mulheres .
      Um abraço e paz
      Mari

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  2. Costumo dizer que nos tornamos mães, logo quando lemos POSITIVO no resultado do exame.
    Obviamente vamos sofrer muito com a opinião alheia, mas nos vamos aprendendo com nossa ” cria”, no tempo deles, do jeitinho deles. E o amor e o cuidado, são” customizados”,afinal cada filho é um ser único, com suas particularidades….personalidade…desde a gestação! Quem ja passou

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  3. Pela segunda gravidez…me compreende quando me refiro a essas intensas diferenças. Quando de primeira viagem somos muito mais permissivas, por isso ouvimos demais. Depois vamos, naturalmente, alimentando nosso espírito leoa e, necessariamente, passamos a ouvir apenas nosso instinto, nosso amor.
    Somos todas merecedoras desse título. Cada mãe eh uma história. Cada filho uma caixa de surpresa….apaixonante!!!!!

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    1. Camila, obrigada por sua contribuição! Vejo que a cada dia, me sinto mais segura das minhas decisões. É claro que, a cada dia surge uma novidade, um desafio mas como você mencionou, nosso instinto vai se afinando e é lindo ver isso nas pequenas coisas!
      Volte sempre! Escreva para nós e compartilhe suas experiências! Parabéns pelo seu Oscar! E vamos em frente que em poucos minutos nossos pequenos nos apresentarão um novo roteiro!

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  4. Oi Veri!
    Olhando o Fred, eu acho que o que vc escreveu é bem verdade!…
    Eu entro para o clube das que, sem ter nenhum filho, luto com as mães que conheço para que amamentem, evitem a cesariana…e o rosário todo..rs… só não tenho neura com papinha..rsrsrs

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    1. Carol, olá! Não há nada de errado em defender nossas verdades, só é preciso ter cuidado com as verdades do outro! Obrigada por ler o texto e por sua contribuição! Volte sempre!!!!

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  5. Amei o texto…vivi diversas situações semelhantes as citadas durante a gravidez e o primeiro ano de vida do meu filho…até que tive que escolher entre adoecer ou espantar toda e qualquer interferência…claro que escolhi a segunda opção. Daí em diante fui sentindo uma força tão grande dentro de mim, um instinto materno capaz de superar medos. Além disso, aprendi a me policiar para não cometer as mesmas indiscrições com as amigas grávidas, o que tem contribuído muito para relações saudáveis.
    Parabéns pela sensibilidade impressa no texto.

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    1. Alexandra, costumo dizer que até mais difícil do que ouvir e aguentar as abelhudas é cuidar para não se tornar uma! É um exercício bem difícil mas necessário! Obrigada por ler o texto, escreva para nós contando sua experiência e partilhando das alegrias e desafios da maternidade! Um beijo!

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  6. Parabéns pela excelente reflexão Veridiana, afinal de contas: “Cada 1 sabe a dor e a delícia de ser o que é ” e não necessita das verdades e certezas alheias para realizar suas construções particulares.

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  7. Mãe moderna, mãe intensa e dedica em valores que serão lembrados por toda eternidade, como nos cobramos todos os dias, seja como mãe, esposa e profissional, e me faz perceber o talento que temos com cada fase da vida,. Adoreiiiiiiiiii o texto e me percebi em alguns dos seus momentos. Gratidão por dividir suas intensa vida e transformação do seu Eu.

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    1. Flávia, seja bem vinda! Só quem passa por essas situações sabe como elas doem na carne! Tudo é tão intenso! Tem sido um aprendizado pra mim e tenho que confessar que tem dias que simplesmente não dá! Hoje mesmo, os dentinhos apontaram semana passada e eu tive de acudir meu bebê o dia todo. Resultado: sete da noite e ainda estou de pijamas! A grande luta é pra que isso seja uma exceção e não uma regra! Volte sempre!!!!

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