Porque saí do Brasil e porque quero, um dia, voltar

Em tempos de crise é muito comum escutarmos conterrâneos gritando aos sete ventos, tuitando, postando no facebook e no instagram sua vontade de “pegar a viola, botar na sacola e ir viajar”.  Viajar, nesse caso, só pra não perder a rima, mas esse termo poderia ser, tranquilamente, trocado pelo verbo mudar, sumir do Brasil, ir morar fora, falar tchau e não (nunca) mais voltar.

Nunca mais voltar para esse país de corruptos, onde o dinheiro não dá pra nada, onde não há respeito coletivo e onde a violência assola as ruas. Esses são alguns dos argumentos que tenho ouvido ao longo dos anos e que têm se tornado frequente nos últimos meses.

Concordo parcialmente com todos eles, mas mesmo assim quero voltar e sabe por quê?

Entendo que a estabilidade financeira, a satisfação pelos serviços públicos que funcionam, a sensação de segurança, o acesso mais fácil aos bens de consumo e a tranquilidade que o morar no exterior trazem são fatores que pesam MUITO na vida de cada um e na escolha por onde se quer morar, mas existem coisas que não tenho aqui.

Quando digo aqui, me refiro aos Estados Unidos, mais precisamente ao estado do Texas. Mudamos para cá há quase quatro anos. Na época meu marido recebeu uma proposta irrecusável, promoção, possibilidade de fazer a sua carreira decolar e uma série de benefícios sedutores. Rezamos, estudamos, analisamos a proposta e aqui estamos.  

Para muitas pessoas, viver no exterior e, principalmente, nos Estados Unidos, envolve um sonho, uma fantasiosa ideia de que, quem aqui vive, não quer mais voltar, afinal, quem trocaria um passe livre no paraíso pelo purgatório brasileiro?

Aqui a inflação é baixa, existe punição para corrupção, as escolas públicas são de qualidade (embora ao contrário do que muitos pensam não são gratuitas), a segurança funciona, a saúde é de primeiro mundo (particular, caríssima e elitizada), os impostos (altíssimos) são empregados onde devem ser e se há desvio de verbas é algo muito raro e até desconhecido, mas, ainda que aqui se possa desfrutar de tudo isso, eu quero, um dia, voltar.

E quero, um dia, voltar, pois aqui não  tenho a possibilidade de permitir que os avós vejam meu filho crescer, não tenho o colo da minha mãe, nem o seu almoço no domingo, não tenho meus amigos perto quando a saudade bate e eu preciso de um abraço e não de um emoticon no whatsapp.

Skype resolve muita coisa, mas não transmite o cheiro do café da vó sendo passado na hora. A televisão e a internet mostram muitos vídeos, mas não transmitem a alegria e a tensão da família toda reunida para assistir a uma final de campeonato brasileiro entre Corinthians e Palmeiras. Aqui não tem o assovio do sorveteiro, o cheiro de pipoca sendo estalada à porta da igreja, aqui não tem minhas raízes e aqui não está o meu coração.

Meus amigos brasileiros, tanto os que ainda moram no Brasil quanto os que dividem comigo o título de expatriados, me acham louca, pois consideram que o fato de poder sair de casa sem ter que olhar para todos os lados na rua temendo um trombadinha em plena luz do dia é mais importante que tudo aquilo que eu já descrevi pra vocês, mas eu continuo querendo voltar.

Não posso negar que ganhamos muito em qualidade de vida, se essa qualidade de vida for definida estritamente pelo acesso a um conjunto de bens e serviços.  Porém, para mim, qualidade de vida é algo que vai além, e que inclui: família, amigos, comunidade e convivência. E, vendo as coisas dessa forma, considero que perdemos muito.

Acredito que chegará um momento em que a segunda definição de qualidade de vida falará mais alto, que finalmente conseguiremos “pegar a viola, botar na sacola e ir viajar”. Até lá nos resta confiar na máxima que nos mantém aqui nos momentos de crise e quando as saudades apertam: “Para onde Deus nos leva ignoramos. Sabemos somente que Ele nos leva” (Edith Stein)

4 comentários sobre “Porque saí do Brasil e porque quero, um dia, voltar

  1. Eu fiquei quatro anos fora do Brasil… sei exatamente qual é esta sensação. Mas sinceramente, hoje, acho que teria coragem de sair de novo. Com uma filha de quatro anos, tenho muito receio do que ela encontrará aqui no Brasil no futuro. Acho que hoje prefiro sentir a saudade do cheiro de café do que saber que minha família sairá de casa sem a certeza de que nada de ruim lhe acontecerá: assalto, sequestro, estupro, furto… São tantas coisas ruins que as boas não estão superando…

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  2. Veri, adorei seu texto. Muito bem exposto. Vantagens e desvantagens.
    Quer estar perto da família e sentir falta disso mostra como estas relações são fortes e determinantes.
    Acredito que o sacrifício sempre vale, mas também avredito que ele traz a recompensa desejada. Afinal uma cristã sempre, e acima de tudo, acredita que o Pai é o melhor provedor dirante toda a nossa caminhada. Bjs

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    1. Maria Lúcia, seja bem vinda! Só se tem saudades daquilo que é bom, não é mesmo?
      Obrigada por nos visitar, volte sempre e compartilhe suas ricas experiências conosco!
      Um beijo!

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