O ipê amarelo e o tempo de dizer adeus

Sentada na varanda de uma casa simples, com janelas de madeira coloridas de azul, descoradas pelo sol, sofreu com a ação do tempo; mas tem em si, uma nostalgia, um aconchego daquelas manhãs frescas de primavera, onde se pode ouvir ao fundo o barulho de algumas xícaras que se tocam, um cheiro de café que ganha espaço e vida pelas frestas da madeira… e as flores! Ah, as flores! Cresceram entrelaçadas pela parte externa, deixando cair alguns galhos floridos que contornam  o enquadre daquela velha varanda de madeira, suas vigas contam uma história e dali onde posso ver aquele pé de ipê, sozinho no meio daquela grama verdinha do outro lado da rua.

Olho para o pé de ipê. Ele que passa por todas as estações; nesta época, está florido. Observo uma de suas inúmeras flores, balança, parece brincar, me inspira e tomo um novo fôlego, mas a força do vento a desprende – mais que isso,  talvez seja ela que tenha se jogado nos braços do vento, pequenina flor de ipê que dança no ar, parece que ganha asas, penso eu: pobre flor, desprendeu-se e quem poderá devolvê-la. Por acaso não sabe ela que está próximo seu fim?

Mas minhas preocupações em nada a afligem, ela dança.

Logo alguns metros adiante ela pousa no chão. A dança acabou. Aos poucos, outras inúmeras a seguem… logo o sol passa pelas folhagens, incide sobre ela sua luz e, aos poucos, a leveza da sua “roupa de renda amarela” começa a se encolher. Parece que o sol consegue absorver toda sua luz, toda sua beleza, como um último ato de entrega, livre e leve.

Penso eu: que triste fim. Mas será?

Que triunfal foi sua dança, singela, sem público e sem necessidade de aplausos. Ela dançou, brilhou, ganhou asas… voou. Não importando por quem ali estava. Ela, singular, brilhou como sua obra de arte última; como se, para aquele único momento apenas, tivesse existido.

Ela dançou.

Refleti que, quando as pessoas que amamos partem, elas cumprem seu ritual. A vida começa ao nascer e, neste mesmo instante, começa a acabar. Mistério esse que não entendemos e que, para alguns, acontece como um botão que não chega a se abrir; para outros, no auge e, ainda outros, que dão todo seu brilho, suas cores e apenas se lançam para seu ultimo voo, com ainda mais singeleza e beleza.

Não nos preparamos para o voo do outro, pensamos vagamente sobre o nosso. Estamos chegando e partindo todos os dias. Às vezes, somos vistos; às vezes, vemos. Mas todos partimos e esta também era a sina da flor do ipê amarelo: cumprir seu papel – independente do tempo – e voar, voar para os braços da eternidade, lançando-se na leveza de quem sabe que, talvez, seu último ato, como o primeiro, a definiriam como singular.

Flor de ipê que dança no ar, que se lança nos braços da eternidade, que consegue ser leve.

Que consegue partir, deixando no ar a certeza de que não importa quem viu seu voo, mas para onde seu voo a levou. Lançou-se sem medo. Desta velha casa, que contemplou toda história, há um mistério, um diálogo de silêncio e confidências. Pé de ipê conseguiu parir flores e ali se mantém, com raízes profundas, vendo-as partir. As vigas desta varanda conseguem abrigar vidas, mas ao preço da sua própria.

Pés de ipês e vigas da varanda e suas finalidades muitas. Em comum, apenas o amor por gerar, cuidar e saber deixar voar, deixar-se voar… o saber desprender-se ao sabor do vento da eternidade. Deixo-me ser envolvida pela magia do pensamento; e nos braços da saudade, eu descanso a cabeça. É preciso aprender a deixar partir.

Vendo a flor de ipê, eu aprendi que o voo, curto ou não, cedo ou tarde, tem sua beleza, sua leveza. Que a viga a sustentar um dia, teve suas raízes profundas e, que mesmo ali, não deixou de cumprir sua missão. Entre voos dançantes, entre vigas a sustentar, presos a terra ou soltos no ar, sabem que não nasceram para ser eternos aqui, mas eternos no coração daqueles que souberam olhar para além do momento e para além da aparência efêmera e passageira – e eternizaram no coração a certeza que o amor é um laço que se estende daqui até a eternidade.

Descubro que a saudade é uma flor de ipê que saiu para dançar, que nas vigas de sustentação tem um abrigo seguro para dias de ventos ruidosos. Que todos, um dia, seremos vigas, seremos flores… flores de ipê amarelo.

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Cristina Coutinho
Paranaense, formada em Administração e graduanda em Psicologia, na ciência encontra a essência e reconhece que, quanto mais aceita quem é, avança. Ama música, poesia e saudade; todas a levam em direção ao céu. Acredita no poder da palavra escrita e da linguagem verbal, ou não. Entende que a vida flui de dentro pra fora e, por isso, o amor deve ser sua maior necessidade diária.

4 comentários sobre “O ipê amarelo e o tempo de dizer adeus

    1. Obrigada por todo o apoio, Victor! 🙂
      Convidamos você, também, a escrever alguma de suas belas crônicas ou algum texto refletindo sobre a mulher nos dias de hoje. 😉

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  1. Olá Cris,
    bem vinda ao time Muitas Marias!
    Deu saudade de minhas avós, de meu avó, das tias e tios que já se foram, da Ana Cláudia um anjinho que foi pro céu tão cedo … e deu saudade também de Brasília, a cidade com os ipês mais lindos que existem!
    Que a gente saiba ser essa flor de ipê.
    😉

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