Espelho, espelho meu…

Já dizia o imortal Machado de Assis: “Há pessoas elegantes e pessoas enfeitadas.” A elegância não se compra na butique, não se adquire nas prateleiras dos grandes magazines, muito menos é sinônimo de roupa de grife.

Em nosso mundo globalizado e consumista, muitas pessoas, no afã de estabelecer-se no mercado de trabalho com uma boa aparência ou de ostentar um visual atraente, acabam tornando-se escravas da moda.

A moda modela a cultura e faz parte do cotidiano das pessoas, mesmo que sutilmente. Ela rege o modo como a humanidade se comporta em sociedade. Isso mesmo, ela dita as regras, moldando desde a forma de se vestir, o corte de cabelo, a maquiagem, bem como a maneira de receber amigos em casa.

Mesmo que não se dê conta, a pessoa é impulsionada por essa força invisível que a domina, ainda mais nós, mulheres. Não há como fugir disso, ficar imune, ou até, eu diria, alienada. A vaidade, desde que não excessiva, é saudável e faz parte do universo feminino, portanto, acompanhar a tendência, procurar estar bem vestida e se preocupar com a aparência é tão natural para a maioria das mulheres quanto se alimentar. No entanto, a moda pode escravizar se não se tem um olhar crítico. A criticidade deve pairar sobre o que é vendido e também sobre si mesma.

Quantas vezes já testemunhamos consumidoras vorazes irem ao encontro da peça que estava na vitrine, do modelito ostentado na capa de revista, recém-saído das passarelas de Milão, ou do vestido usado pela amiga na última festa. Ao se deparar com o espelho, percebem que o efeito não é o esperado. Pensamentos surgem numa velocidade semelhante à da luz: “Eu preciso emagrecer urgente! Sempre fica melhor nela do que em mim. Por que Deus fez o meu corpo deste jeito? Este espelho é diferente do meu. É o ângulo. Talvez seja a luz. Deve ser o corte desta loja!” E o turbilhão de pensamentos ganha asas e vai embora. Infelizmente, certas vezes, leva a autoestima junto. Divãs de psicanalistas são testemunhas desses dramas.

Após o confronto com o espelho, algumas saem desanimadas e de mãos vazias. Outras, entretanto, na tentativa de se superar, ou por uma força impulsiva incontrolável, decidem sair com a sacola cheia, embora não se sintam totalmente satisfeitas. Talvez o que as mova seja a vontade de estar dentro do padrão estabelecido por ora pela cultura. Eis aí a armadilha! É preciso cuidado para não morder a isca!

O que se deve ter em mente é que portar um modelo ou uma peça apenas porque está nas revistas e todas estão usando, talvez não seja um bom caminho, afinal, usar o que não valoriza seu tipo físico ou não combina com seu estilo é violentar-se. É preciso abandonar conceitos enraizados de que estar atraente é usar roupa curta, justa, decotada e estar bem vestida é usar roupa cara. Quantas vezes nos deparamos com pessoas que, por falta de orientação, criticidade e, levadas pela ditadura do modismo, acabam por alimentar a baixa autoestima ou expõem ainda mais o que consideram “defeitos”, por lançar mão de um corte inadequado, um modelo inapropriado.

A elegância é, acima de tudo, vestir-se de acordo com sua personalidade, seu biotipo e seu estilo de vida, sem estar necessariamente valendo-se da tendência da estação. Elegância pode ser entendida por muitos como “algo que vem de berço”, como diziam nossas avós. De fato, é uma característica nata em algumas pessoas; entretanto, pode ser aprendida. A elegância vai além de uma roupa fina e bonita, é traduzida na maneira como se anda, no sentar-se, no falar com as pessoas, na postura e nos gestos, sempre com feminilidade.

Quem sabe não seja hora de fazer as pazes com o espelho?

Renata_saraivaRenata Saraiva é brasiliense, casada, com formação em Língua Portuguesa e Literatura. Comunicativa, curiosa, adora viajar. Amante da arte e da fotografia, mas a maior paixão: os livros. Católica, seguidora de Jesus Cristo, acredita que um mundo melhor e mais justo é possível.

5 comentários sobre “Espelho, espelho meu…

  1. Compartilhei esse texto por motivo de: TODAS AS PESSOAS DEVEM LER, RELER, LER DENOVO e colocar em prática sua reflexão.
    Nós fomos condicionadas a seguir um padrão de beleza ditado pela mídia tradicional e também pelas novas mídias ( agora com os digital influencers então… a gente nem consegue distinguir o que é mensagem dando um conselho e o que é mensagem comercial nos perfis das redes sociais) .
    Renata, seja muito bem vinda ao time Muitas Marias, ansiosa pelo seu próximo texto!
    Paz e bem

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  2. Maravilhoso! Elegância é vestir-se de acordo com sua personalidade! um dia minha sobrinha de 5 anos falou? ‘nossa tia que feia que você está’, eu estava usando uma linda blusa azul indiana com borboletas e flores, aí respondi que nem tudo o que é diferente do que ela gosta é feio… percebi que é preciso educar para respeitar as diferentes escolhas e a interindividualidade de cada um.

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