Quero amar como Nerli

“Sobre um amor salvador que vejo desde minha infância do poço, da janela, da alma”

 

Regressei do fim de semana na casa de meu pai. Estando lá,  fui também à casa de sua tia Nerli, irmã da minha avó paterna Maria, lá no Goiás. Moram todos perto.Na casa, moram tia Nerli, seu esposo, o tio Cazuza e minha tia Eni, em estado vegetativo há exatos 14 anos. Catorze anos.Longos…

Feitas certamente de amor são as paredes daquela simples e acolhedora casa. No quintal, algumas árvores, pés de fruta, uma ou outra planta de chá, coisa de gente simples que cura gripe com chá de limão e alho. Terra varrida, coisas no lugar e, ao fundo, a casa onde minha bisavó morava.

Tem um poço artesiano na varanda, logo na entrada da casa (que estranhamente fica nos fundos). Perto da varanda, o quarto da minha tia Eni.

Engraçado a inversão da porta de entrada, talvez porque ali perto esteja esse quarto, o local mais importante do lar. Onde os afetos e as lágrimas são derramados. E porque não dizer da espera e do sofrimento. Deixe estar. Nem assim, faltam por lá espaço para uma família reunida apenas.

Sempre que vou lá, tomo um café, conversamos sobre a vida e, junto àquele poço da varanda, deixo minhas inquietudes e perguntas enviadas ao Deus que tudo vê. Acho que na varanda de Deus deve haver um poço como aquele, onde Ele coloca nossos sofrimentos e nossas ponderações humanas.

Com carinho ele guarda tudo ali, embrulha tudo com água e tempo.Água purifica o tempo também.

Minha tia Eni tem 58 anos e uma pele bonita e jovem.

Aos cuidados, protegida do sol e de amor, ela rejuvenesce a cada ano.

Sempre pergunto a ela: – Tia como faço para ter uma pele assim?

Ela não responde, não anda, não fala, não abre os olhos, não se move. Mas ela escuta a gente. Chega a sorrir e reage quando a incomodamos com nossas brincadeiras e nosso desconcerto.

É desmantelo vê-la inerte ali naquela cama. Sabe, eu não sei que nome isso tem.

Quando mais um dia do ano de 2001 começava, minha tia Eni havia saído para passear com os filhos (meus primos) e lhes deu presentes. Coisas de mãe. Suas roupas então deixadas dobradas no sofá para o trabalho do dia seguinte. E sua bolsa, afinal mulheres usam bolsas, onde colocam de um tudo lá dentro.

Eu nunca vi essa bolsa, tenho curiosidade. Qual batom ela usava? Quais eram seus segredos, o que guardava em sua carteira? Bilhetes talvez? Fotos 3X4? Essas coisas que fazem toda a gente.

Minha mãe conta que ele era vaidosa e usava brincos.

Depois desse dia, ela não usou mais a bolsa.

Tia Eni não acordou.

Um Acidente Vascular Cerebral (AVC) deixara sequelas.

Inerte.

Parada.

O tempo…

Há 14 anos minha tia Nerli renunciou ao trabalho e à vida fora dos portões da casa para acalentar a tia Eni. Eu não sei como foi a infância delas.

Minha avó, Maria, adotou dois dos três filhos de minha tia Eni, na época menores de idade. Rodrigo e Renato conheceram a orfandade que causa a espera do tempo. Rogério, o mais velho, também.

– Pai, será que um dia ela volta?

Eu pergunto isso sempre, em todas as visitas que faço. Às vezes, a pergunta também vem do nada. Não é porque cresci que deixei de brincar de fazer perguntas difíceis.

Olho o seu quarto e todo o cuidado que ali existe, uma penteadeira cheia de coisas. Óleos, cremes, gases, algodão, luvas, fraldas. Tudo tão limpo e jeitoso.

Ali tem alguns santos, fotos, muitas orações e lembranças.

Eu vejo Deus em cada canto.

Pesado mesmo é olhar a robustez dos tubos de oxigênio que a ajudam a respirar, aquilo parece instrumento de guerra. Tem também o soro e, preso ao corpo dela, o instrumento de traqueostomia. Agonia danada! Minha tia Nerli sabe mexer em tudo ali. Ela atua como médica, enfermeira, nutricionista, cuidadora, fisioterapeuta, amiga, irmã, uma espécie de mãe. Faz de um tudo.

Tia Nerli tem seus problemas de saúde, uma perna que nunca dá jeito. Mas, acho mesmo que os chás dela são engraçados. Ela tem remédio bom pra tudo! Tia Nerli me dá aula de amor cristão. Regozija-me com a liturgia do amor ao próximo. Com suas canseiras e teimosias, é anjo combatente. Nerli me ensina a ser gente, me ensina a ter compaixão.

Vejo naquela mulher força, não uma força pequena. Chega a ser sobrenatural. Ela e meu tio Cazuza  dedicaram a vida a cuidar da tia Eni; e, por isso, não foram aos casamentos, natais e festas da família. Acho que nunca passearam num domingo sem hora para voltar. São um casal feliz e unido por essa missão. Olho para cada ruga e para o cansaço dos dois e imagino o que é a acrobacia de vencer mais um dia. Dar banho, comida e deixar Eni confortável. Minha tia Eni tem pele boa a não é à toa minha gente. Deixe alguém deitado duas semanas apenas e verá que a pessoa terá feridas pelo corpo. Tia Eni não as têm. Há 14 anos, eles a arrumam na cama, na cadeira quando podiam (com os tubos de guerra não é mais possível), no banho. E a pele dela segue vistosa, bonita como a vida é. É bonita, mas bem que podia ser mais lá fora.

Sou grata aos meus tios. Eu não sei de onde vem tanta força. Acho que se dedicam muito a ouvir a Deus.

Ontem acompanhei o processo ruim que é fazer a sucção na garganta da tia Eni; aquilo é doloroso, mas necessário. Perguntei-me de novo, e de novo. Meu Deus até quando?

Achei por bem não pedir café, me despedi.  Fui embora. Minha tia Eni permaneceu mais um dia lá deitada, rodeada apenas do Amor Salvador de uma certa Nerli.

As perguntas não cessam, em oração eu peço. Quantas Nerlis nós temos no mundo? E as Enis vão sair lá fora um dia? Por que algumas pessoas passam por tudo isso? E por que minha tia Eni não usou sua bolsa no dia seguinte?

Eu não sei.

Gostaria de presentear tia Eni com protetor solar para que ela gastasse sua pele no sol um dia.

Mas, o que sei, é que a essa hora, a Nerli da minha história está cuidando de seu tesouro, certamente recita versos de canções, toma seus chás esquisitos, olhando de pertinho a pele branca… na cama, esperando a janela mudar um dia de lugar.

Lugar de fora e de longe.

Eu sinto.

Nerli possui asas.

“(..)Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:39 b)”

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Sou Sheila Souza, jornalista brasiliense, tenho 26 anos.Resolvi contar sobre uma história que tanto me emociona. A senhora do conto é minha tia Nerli, ela cuida de sua irmã Eni (em estado vegetativo há quinze anos). Nerli e Eni são irmãs de Maria (minha avó paterna).

15 comentários sobre “Quero amar como Nerli

  1. Sheila querida, seja bem vinda ao time Muitas Marias!
    A gente sabe que temos muitas mulheres incríveis, heroínas do cotidiano, e pra nós é uma alegria dar visibilidade a histórias como a de sua família!
    Feliz com a sua participação, muita saúde para sua família ! E muitas Nerlis para nosso mundo #diaDaGentileza

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  2. Sheila, adorei o texto. Sua escrita é impecável, me fez viajar na sua história, com tanta riqueza de detalhes, até me deu vontade de conhecer suas tias.

    Continue escrevendo e emocionando! Parabéns!

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