Uma voz contra o assédio feminino

Era manhã e ela estava caminhando pela rua, como qualquer pessoa comum poderia fazer. Mas ela era uma garota de 17 anos e estava sozinha. A típica cena, vivenciada por muitas mulheres – e por que não dizer por todas? – aconteceu: ele a chamou de gostosa e disse que queria levá-la pra casa. Ele era bem mais velho que ela; tinha uns 50 anos. Ela não o respondeu, não o xingou, com medo de sofrer uma agressão ainda maior.

Foi assim que Catharina Doria, cansada de sofrer esse tipo de assédio, teve a ideia de criar um app que denunciasse os abusos sofridos pelas mulheres. Surgiu, então, o “Sai Pra Lá” – um aplicativo que tem ajudado a dar voz a mulheres em toda a extensão do país. Em cinco dias desde sua criação, o app registrou 373 assédios físicos, 451 indefinidos, 832 sonoros e 2480 verbais.

Para conhecer um pouco mais sobre o aplicativo que mais repercutiu nas últimas semanas, conversamos com Catharina – uma garota normal, com as ocupações e deveres comuns de alguém de sua idade, mas que decidiu agir de modo transformador, possibilitando a outras garotas e mulheres denunciar o assédio cotidiano e invisível. Deu até vontade de dar um abraço e dizer “muito obrigada!”.

Muitas Marias: O Sai Pra Lá é um aplicativo criado por uma cidadã, e não alguém da esfera governamental. Visto que o problema do assédio em relação à mulher é algo muito presente em nossa sociedade e, infelizmente, não vemos muitas políticas de combate a ele, como você se sente abrindo essa nova possibilidade de ajudar a denunciar esses assédios.

Catharina Doria: Me sinto triste e feliz. Feliz por ter conseguido encontrar um meio de dar voz às mulheres que sofrem assédio e têm medo de responder, podendo, então, dar força a elas. As mensagens de agradecimento e o retorno que o aplicativo recebeu só me mostram que estou no caminho certo. Por outro lado, fico triste em saber que não foi um órgão responsável pela nossa segurança que teve essa ideia. Pôxa, eu não sou política, nem ao menos concluí o Ensino Médio e, mesmo assim, tive a iniciativa e a coloquei em prática.

Muitas Marias: Como ele funciona?

Catharina Doria: Então, você tem que clicar em “Fui Assediada!”, adicionar o endereço (o número é pela altura da rua), cidade e, para finalizar, o tipo de assédio e o que aconteceu. Fizemos da maneira mais simples para permitir que todas pudessem utilizar. Nome e e-mail não são obrigatórios. São apenas para o meu banco de dados.

Muitas Marias: Você imaginava que ele poderia gerar toda essa repercussão?

Catharina Doria: Nunca na minha vida! Pelo menos não tão rápido. Quando chegamos a 100 likes na página, saí para comemorar com a minha irmã e fomos comer batata-frita.

Muitas Marias: Nesse pouco tempo de aplicativo, você já se deparou com alguma história que lhe marcou?

Catharina Doria: Muitas histórias de mulheres que foram assediadas pelos próprios parentes. Muitas histórias pesadas mesmo.

Muitas Marias: Algo mudou em você após a criação do Sai Pra Lá – como a sua visão sobre algo, por exemplo?

Catharina Doria: Bem, eu sabia que o assédio era algo que existia. Sabia que seriam muitos, mas não tantos! Fiquei chocada com os números que recebemos tão rapidamente.

Muitas Marias: Devido à grande aceitação, a plataforma do aplicativo não está conseguindo suportar todas as usuárias. Você, então, resolveu fazer uma campanha para torná-la mais robusta. Como tem sido a resposta das pessoas?

Catharina Doria: Já alcançamos 112% da meta! Foi um sucesso total e estou muito feliz com isso.

Muitas Marias: Pensando em melhorias, tem algo que você deseja fazer para o aplicativo além de aumentar a sua capacidade de armazenamento de dados?

Catharina Doria: Queremos adicionar as linhas de metrô e trem, já que muitos assédios ocorrem nesses locais. Também melhorar as marcações, permitindo que todas consigam ver o horário do ocorrido e o que ocorreu de fato.

Muitas Marias: Você está numa fase muita intensa com seus estudos, provas e vestibulares. Hoje, com tudo isso que tem ocorrido, como está sua visão sobre seu futuro profissional? Muitas pessoas lhe chamam de empreendedora – e, de fato, é –, mas quais são os seus projetos com relação ao que fazer após o Ensino Médio?

Catharina Doria: Bem, não sei bem o que quero para o meu futuro. Como sempre digo: tudo o que tenho certeza é que quero ajudar as pessoas.

Muitas Marias: Por fim, qual seu recado para as mulheres que enfrentam o assédio do dia a dia.

Catharina Doria: Muito obrigada pelo carinho. Meu recado para as mulheres é que devemos nos manter unidas. Com um assédio registrado, não conseguiríamos levar o app adiante. O mesmo ocorre com a nossa voz. Se uma fizer barulho, ninguém escuta, mas se todas nos unirmos, com certeza, vamos chamar atenção!

3 comentários sobre “Uma voz contra o assédio feminino

  1. É por isso que eu gosto tanto de tecnologia! Podemos mudar vidas e unir pessoas através dela. Estamos mudando nossa realidade para um mundo um pouco mais humano. Parabéns pela ótima matéria e pela criadora do aplicativo. Filmalmente estamos “parando de falar e começando a fazer”. Sucesso pras Marias e para Catharina Doria! 😉

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