Informação, aborto e saúde … de quem?

Recentemente, uma famosa militante feminista brasileira foi mãe de um menino, e fez um relato emocionado nas redes sociais, dizendo-se arrependida de ter abortado seu primeiro filho. Segundo ela, sentiu-se abandonada e desamparada após o aborto, sem noção das possíveis complicações físicas e psicológicas; sobre as quais não teria sido previamente informada pelas apoiadoras da causa.

Ao ler  o relato dela, refleti que, realmente, há pouca informação sobre as consequências do aborto para a saúde da mulher. Uns compram a briga a favor, outros contra, mas há poucos espaços  que descrevam os possíveis problemas de saúde após esse procedimento.

Afinal,  liberar o aborto no Brasil é a solução para a saúde de quem?

Para o  Estado se retiraria  o ‘peso’ de se investir em políticas públicas de educação, informação e comunicação em saúde.  Assim, poderia  se  ocupar com outras coisas  que julgar ‘mais importantes’. Mas… isso não é papel do governo? Sempre será mais fácil culpabilizar e responsabilizar a mulher, ao invés de se investir  em políticas de educação sexual para para homens e mulheres – que hoje, se resumem a distribuir preservativo e anticoncepcional.

Se há vários métodos para se evitar a fecundação, por que não promover mais o acesso da população à informação para a tomada de decisão de se espaçar a gravidez  antes da concepção? E incluir nos programas de prevenção os métodos naturais, que não oferecem qualquer intervenção medicamentosa e são seguros, se corretamente praticados.

SIM penso nas mulheres, e nas sequelas psicológicas pós-aborto, como a culpa, as crises de arrependimento, as possíveis  reações psicóticas, a possibilidade de depressão, as crises de choro, o medo, a solidão, e problemas de autoestima. Fisicamente, um aborto traz riscos de perfuração do útero, hemorragias, inflamação do endométrio (parede do útero), a obstrução das trompas, a histerectomia (necessidade de se extrair o útero), infecção uterina,  infertilidade e até a morte.

Nem todas as mulheres serão mães,  mas o discurso de mais autonomia da mulher, meu corpo minhas regras, que geralmente vem recheado de ataques a quem o questiona, sem embasamento científico (ou com estatísticas destorcidas), desqualificando os contras, e sem apresentar  os riscos de quem se submete ao procedimento,  interessa a quem? Após o aborto, pode haver, inclusive, sequelas que impeçam qualquer gravidez futura, por exemplo. Afinal, um Estado e um discurso que fomenta mulheres autônomas poderia investir em políticas para que nós, homens e mulheres, sejamos conscientes de nossa fertilidade. A gente aprende sobre ciclo reprodutivo na pré-adolescência, na escola, em meio à decoreba, depois esquece, e passa a agir como se fossemos férteis 24 horas por dia, quando na verdade,  conceber é das coisas mais fáceis e mais difíceis que há,  mas não é algo onipresente (digo que é fácil porque só precisa de um encontro homem-mulher; e mais difícil porque esse encontro deve ser em um dia específico por mês, num período de poucas horas, que é quando a mulher está fértil).

Se nem  todas as mulheres nasceram para ser mães, todas PRECISAM ser informadas sobre sua saúde, e sobre os riscos de se submeter a um aborto.

Li essa semana a notícia da gestante que precisava fazer uma cirurgia, mas havia o risco de morte (devido à gestação) e  os médicos aconselharam que ela abortasse. Ela não quis, e junto com a equipe de saúde, optou por uma cirurgia diferente (e inédita no mundo),  feita por vídeo para que a equipe captasse as imagens de dentro do corpo dela e se orientasse, de maneira menos invasiva. A notícia foi destaque no jornal O Globo, ilustrada pela foto da jovem com seu bebê, com seis meses de vida, e a experiência de transplante de uma válvula mitral, segundo o jornal, será publicada num congresso científico ainda esse mês. Fiquei admirada com a decisão da jovem, e o cuidado da equipe médica em buscar uma solução viável considerando o menor impacto possível na sua saúde e na saúde daquele que ela carregava no ventre. Pode parecer que seria mais fácil abortar, mas será que todos precisam ( e querem) optar pelo que “parece”mais fácil?

Precisamos apresentar mais informação para homens e  mulheres, por favor!

Em tempo, nenhuma mulher que abortou precisa ser humilhada ou marginalizada. As mulheres precisam é de informação.

Pra reflexão, uma música escrita de amiga pra amiga, quando esta pensou em abortar.

E, para mim, não dá pra definir onde a vida começa. A ciência não comprovou isso, e nenhum legislador pode definir sobre o tema de maneira arbitrária. Eu acredito que a minha vida ( e minha saúde) começou na relação sexual entre meu pai e minha mãe.

A sua também,  não?

9 comentários sobre “Informação, aborto e saúde … de quem?

  1. Mari, muito coerente seu texto.
    Atacar a consequência talvez seja a decisão tardia.
    O lema “meu corpo, minhas regras” não domina a fisiologia humana.
    Quando se corrompe a natureza, de alguma forma, ela requer compensação. Consequências físicas e psicológicas arrebatam sim o corpo da mulher e, por vezes, trazem consequências piores que gerar, parir, amamentar e formar um ser humano.
    Há situação bem adversas, como já li em processos criminais onde a jovem engravidou após um estupro.
    Confesso que fiquei extremamente consternada com a situação quando li o relato, mas fiquei imaginando… Quais sériam as formas de apoiar essa jovem e como receber essa criança no mundo?
    Difícil, né? Sobretudo para as mulheres que tem o sonho da maternidade latente.
    Mas, mesmo assim, veio no meu coração uma necessidade de acolher e amar aquelas vidas…afinal, ninguém escolhe a forma como será gerado, mas escolhe a forma como irá encarar a vida diante das adversidades.
    Temos sempre dois caminhos, nem sempre o mais curto é o menos danoso.
    Só para finalizar, fiquei extremamente emocionada com a música..
    Obrigada, por abordar esse tema de maneira tão edificante.
    Sejamos senhoras das nossas escolhas, mas sem deixar de lado a missão nobre da nossa natureza, que são para poucas…
    Beijos 😘

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    1. Oi Cyntia! Que bom que você entendeu a proposta do texto. Em especial, me tocou muito sua reflexão de que ninguém escolhe a forma como foi gerado, mas a forma como irá encarar a vida diante das adversidades.
      Eu amei essa música, sempre que ouço choro – talvez já seja o desejo da maternidade pulsando por aqui!
      Um beijo e obrigada por participar do nosso Muitas Marias

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  2. Muito bom seu texto Mariella. Gostei demais: coerente, lúcido, informativo. Precisamos sim de informação de qualidade. No vídeo que publiquei hoje no meu canal eu conto a história de uma mulher que descobriu que estava grávida após um câncer de mama e poderia ter abortado. Não o fez. Gerou a vida do Theo. Uma história muito forte. Depois veja lá…para mim uma forma de dizer não a essa cultura de morte.
    Abraço
    Ivna Sá

    Curtido por 1 pessoa

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