Sobre os pequenos luxos que nos escravizam

Se você é rica e “bem nascida” como alguns dizem,  talvez não entenda o contexto dessa leitura, mas leia assim mesmo.

É muito bom a gente sonhar com alguma coisa e conseguir realizar, né? Pode ser a carteira de motorista, sair da casa dos pais, a independência financeira, o primeiro carro, uma roupa, bolsa, sapato, a nossa casinha, fazer aquela viagem, trocar de trabalho, enfim… Conquistar algo que se sonhou traz uma sensação boa, de dever cumprido, como se na cabeça soasse um motivador “parabéns,você conseguiu”.

Isso traz uma energia extra, pra novos e maiores saltos, e coragem para buscar os próximos desafios.

Mas até que ponto ficamos escravas  de nossas conquistas?

Tem um ditado que diz “quanto mais se tem, mais se quer”, e as pessoas também costumam dizer que à medida em que você cresce, ou no jargão popular, “sobe na vida”, suas prioridades mudam e você passa a querer – e estabelecer para seu cotidiano – novos padrões .

Então, se eu morava com meus pais, depois morei em república, em seguida fui morar sozinha pagando aluguel e agora tenho um apartamento próprio, já quero um maior.

Se, na infância,  usava roupa que era herança das primas mais velhas, depois consegui pagar um traje em loja de departamento, agora com meu belo salário posso andar  grifada.

E assim por diante, para restaurantes, viagens, cuidados estéticos, e toda a infinidade de bens e serviços que a sociedade capitalista nos convence a todo instante serem absolutamente necessários para a sobrevivência.

Não entendo que comprar coisas seja o problema, cada um sabe de si, de tudo que sofreu e sofre todo dia para ganhar seu suado dinheirinho, e é mesmo uma delícia adquirir algo sonhado, mas será que não vamos aos poucos nos condicionando a ser escravas de um consumismo  cada vez maior?

Recentemente cismei em comprar um apartamento maior pra mim e meu marido, encontrei um com ótimo preço, mais dois quartos (para quando, quem sabe, um dia, no futuro, vierem os bebês), sala com planejamento arquitetônico, uma cozinha enorme e até uma piscina e churrasqueira privativas. Meu esposo, porém,  discordou ao me lembrar das armadilhas que um apartamento maior pode trazer desnecessariamente: condomínio mais caro, novos e mais móveis, aumento de todas as taxas, uma pequena reforma, etc. E todas as renúncias que, possivelmente, faríamos na nossa rotina, com privação  de  coisas simples do dia a dia que gostamos de cultivar, para nos darmos um luxo possível – mas, nesse momento, desnecessário; já que moramos num apartamento ótimo e de bom tamanho pra nós.

Aumentar o padrão de vida não deve ser sinônimo de se acorrentar ao cheque especial, aos juros bancários, a dívidas a perder de vista. Em especial, ele me lembrou a quantidade de gente endividada e escrava do dinheiro porque criou pra si normas que corroem todo seu salário, sem sobrar nenhuma “gordurinha”, tal como trocar de carro todo ano, estudar nos locais mais caros, frequentar  o clube da elite. Já pensou ficar a maior parte do seu tempo num emprego chato só por medo de sair e diminuir o ” padrão”? Passar uma imagem de gastança para as amigas, mas à noite, sozinha em casa, chorar com tanta conta e mais conta pra pagar?

Se há esse risco, cuidado: será que você realmente tem condições de sustentar esse padrão que você estabeleceu para si?

Lembre-se: você escreve a sua história. Não é porque subiu de cargo que precisa passar a frequentar o salão mais chique da cidade, jogar golfe e viajar três vezes por ano a Paris (e depois passar aperto pra pagar).  E avalie se vale a pena trabalhar muitíssimas horas a mais para ganhar um pouco mais ao invés de passar mais tempo com a sua família.

O mundo em que vivemos se move em torno da criação de falsas necessidades, compramos coisas que não precisamos com um dinheiro que não temos (vide a possibilidade de comprar qualquer coisa em “suaves” prestações a perder de vista).

Não caia nas  armadilhas financeiras que  vão trazer angústia, noites mal dormidas, tristeza – e outro grande gasto com terapias, medicamentos e sabe-se lá o que mais.

E eu até gosto de comprar, adoro mercados e feirinhas, mas tenho aprendido a selecionar o que é meu desejo legítimo e o que é parte desse mundo consumista à minha volta. O essencial da vida não depende de muito dinheiro. Reflita se você realmente precisa de tudo que é gasto fixo no seu orçamento e, na dúvida, corte algumas coisas, substitua por algo mais barato. Você vai se surpreender em como gasta muito mais que o necessário!

O melhor da vida não tem preço, não se apegue àquilo que não é eterno e a qualquer momento pode ser tirado de você.

E lembre-se que quem gosta de você de verdade simplesmente gosta, independente do “padrão”. E essas pessoas são quem importa.

Aqui em casa a gente prioriza nosso recurso para viajar. Sempre tive comigo que as experiências em uma cultura diferente me melhorariam como ser humano, e são algo que ninguém poderia tirar. Em uma viagem, experimento a liberdade  que nenhuma roupa de grife, sapato, bolsa ou salão de beleza me traz.

E é o que te desejo hoje, uma vida mais livre!

Dedico esse texto ao meu esposo, meu parceiro de todas as viagens e sonhos.  A conversa sobre nosso lar  me inspirou a escrevê-lo, espero que  te inspire também.

7 comentários sobre “Sobre os pequenos luxos que nos escravizam

  1. Lindo texto e que me fez refletir sobre minhas conquistas e desejos, realmente a felicidade não tem preço, foi apresentado tão natural que me alegra sentir o q estou sentindo agora ……Obrigada.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Ótimo texto! Ótima reflexão! Muitos de nós já estamos escravos e nem nos damos conta disso.
    É preciso vigiar! E orar! Como diz o livro dos Provérbios:
    “Mais vale pouco com o temos do Senhor do que que grandes tesouros com inquietação .”Pr 15,16 e “Mais vale o bom nome do que muitas riquezas.” Pr 22, 1
    Beijos

    Curtido por 2 pessoas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s