A ditadura da felicidade

Nos últimos tempos vejo uma necessidade tremenda de ser feliz. Ok! Nada contra ser feliz, pelo contrário, estou totalmente de acordo – e quem não está, não é? Contudo, a grande questão é que o ‘ser feliz’ vem dentro de uma caixa grande, embrulhada num papel dourado com um enorme laço vermelho; e, olhe só, fica lá em cima da estante da sala onde nós não podemos alcançar.

E a gente busca cadeira, arrasta mesa, faz escadinha e nada… o pacote da ‘felicidade delivery’ que vemos com o nosso vizinho é inalcançável. A gente tenta, tenta e não sai da cabeça que, se conseguirmos pegar ‘aquela caixa’, tudo estará resolvido. Será?

Felicidade, onde você mora? Por que é tão fujona? Escapa pelos vãos dos dedos e, sem perceber, estamos nós de novo, correndo atrás da caixinha dourada. Enquanto corremos atrás dela, a vida passa como um rio, não volta – e quanto mais corremos, mais tempo perdemos. Se felicidade é algo real, deveria ter alguma forma definida, mas percebemos que, para cada pessoa, ela tem um sentido diferente, uma cor, um gosto, um cheiro e até um nome.

O que muitos não sabem é que a alegria autêntica não está na conquista do objetivo final, na linha de chegada, ela está ao longo do caminho, no seu percurso, nas pequenas coisas: no calor das três da tarde, minimizado com um copo de água fresca servido com carinho, na partilha do pão quando se tinha tão pouco, no belo entardecer observado com alguém ao lado, na caminhada de volta pra casa.

Ser feliz não é pra amanhã ou pra quando seu tão sonhado ‘carro, casa, casamento’ chegar. E se não chegar? Você se contentaria em saber que viveu em ‘vão’? E a mão que você poderia ter estendido? E o sorriso que você poderia ter arrancado? E o ombro que você poderia ter oferecido?

Somos bombardeados com visões sobre a felicidade que, de fato, não condizem com o seu real significado. Basta olharmos as publicações de nossos amigos nas redes sociais e notarmos que há uma grande necessidade de parecerem felizes e realizados – e não para si, mas para os outros. E por que não dizer que nós também acabamos fazendo o mesmo? A mídia, por conseguinte, não contribui muito e o que vemos em revistas, sites, programas de TV, entrevistas com artistas é uma deturpação da verdadeira felicidade – contabiliza-se o quanto alguém é feliz pela fama que conseguiu, pelo salário estratosférico que ganha, por estar dentro dos padrões sociais de beleza.

Diante de tudo isso, torna-se fácil tirar o nosso foco da real felicidade, que nada pode destruir, e nos voltarmos para a felicidade irreal, construída de aparências. Então, o que, de fato é importante? O que devemos primar nesta caminhada para que ela não seja em vão? A resposta não está no futuro; está no presente: viver bem o agora! Só conseguiremos ser felizes de verdade, se formos felizes hoje com o que temos, com o que somos e com quem nós estamos.

Não sei se você está sozinha, bem ou mal acompanhada, com família ou amigos. Não sei se você tem fé ou perdeu a sua nas curvas da vida. Também não sei quem você é, mas de uma coisa eu sei – aliás, tenho certeza – você tem sonhos, lindos sonhos! Sonhos que passam pelo teste do tempo, do trabalho, da espera. A boa notícia: eles são construídos no seu hoje! É hoje que você planta o que você deseja colher, é hoje que você prepara a terra, arranca o que é ‘joio’, sulca o chão, o suor rola, as lágrimas também. E é assim, ser feliz é isso, viver a cada dia, plantando e colhendo coisas boas e ruins. Afinal, buscamos a felicidade, porém não somos perfeitos; levamos conosco o nosso ontem, mas somos senhores de nosso amanhã!

Pelo direito de sorrir, mas também o de chorar. Pelo direito de mostrar meus sucessos, mas também meus fracassos e ver neles beleza. Diante da falsa ideia de realização que nos impõem, da ditadura de que devemos mostrar incessantemente aos outros nossos sucessos e conquistas, dos selfies sorridentes e com o coração dilacerado, diante da competição da felicidade irreal de modo presencial ou virtual, não se esqueça de ser apenas humano.

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Cristina Coutinho

Paranaense, formada em Administração e graduanda em Psicologia, na ciência encontra a essência e reconhece que, quanto mais aceita quem é, avança. Ama música, poesia e saudade; todas a levam em direção ao céu. Acredita no poder da palavra escrita e da linguagem verbal, ou não. Entende que a vida flui de dentro pra fora e, por isso, o amor deve ser sua maior necessidade diária.

4 comentários sobre “A ditadura da felicidade

  1. Oi Dona moça. Tudo bem? Muito legal o seu texto. Lembra muito um texto do Fernando Pessoa que o Paulo Autran declama. Chama-se “Poema em Linha Reta”. Fala justamente disso. 😉

    Sobre o Rio… tem uma frase muito linda que eu gosto muito que é: “Não apresse o rio. Ele corre sozinho.” (Barry Stevens)

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada Vitor! Lisonjeada pelo comentário. Grande Fernando Pessoa. E de fato, é preciso deixar o rio (a vida) fluir rumo ao grande mar. Isto é Gestalt Terapia, minha paixão 😀

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  2. Lindo texto. Obrigada por compartilhar conosco sua linha de pensamento, esta que nos faz refletir sobre a minha, a sua, a nossa felicidade.
    Temos o péssimo hábito de ficarmos comparando nossas vidas com as outras vidas ao nosso redor. E com isso perdemos o foco do que realmente é importante.
    Felicidade pra mim é, ter uma família saudável, comida na mesa, mais do que um teto, um lar, um emprego, amigos leais.
    Sucesso que a mídia desconhe, e por isso não é divulgado pela mesma, dando a impressão de que nós não somos capazes de sermos felizes com o realmente é importante.

    Parabéns pelo seu trabalho. Sinto me honrada de conhecê lá pessoalmente. Grande abraço.

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    1. Oi Lilian, eu que fico imensamente grata por poder compartilhar com pessoas como você de um mesmo ideal de vida e valores. Por certo, as verdadeiras riquezas não podem ser compradas, como os amigos, a família.
      Também sou grata a Deus por conhecê-la, uma pessoa doce de alma limpa. 🙂

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