De Minas a Paris: o coração não precisa se dividir

Essas semanas, eu me percebi decepcionada com as redes sociais. Não que já não estivesse há tempos. Veículo de muitas vaidades e excesso de opiniões, esquecemos de que a propagação do que é bom e salutar se perde, não gera comentários ou “likes”.

Por acaso, fico imaginando quem inseriu fronteiras políticas no mundo… o homem? Sim, claro, o mesmo homem que difunde o ódio e partidarismos que não agregam ou edificam. Há tempos não assisto à TV aberta, não me agrega saber as parcialidades que são noticiadas.

Conheci de perto o Rio Doce, fiz o mestrado e doutorado naqueles habitats e sempre fui apaixonada por aquela paisagem. Apesar da degradação já presente naquelas áreas e a total negligência do poder público e da sociedade – que não se preocupam com as mineradoras e empreendimentos iniciados pelo Brasil sem nenhum cuidado, sem planos de emergência e sem zelo com o ambiente e as pessoas – já participei de diversas reuniões públicas e a sociedade nunca indicou participação em massa para a discussão. É perceptível quantas tragédias anunciadas circulam pelo país.

Ódio e intolerância nascem da ausência de solidariedade com relação a dores que são universais e cujas fronteiras foram criadas e geradas pelo homem. Se a mídia brasileira deu mais ênfase a tragédias externas ao país, o coração não precisa se dividir. Ao contrário, ele pode se dilatar e, dilatado, irradiar o que é próprio da natureza humana: amor e compaixão.

Tragédias rendem matérias, publicidade para poucos, independente de onde ocorrem. Há poucos anos, mais de uma centena de jovens morreu, vítimas da total negligência humana em uma casa de shows em Santa Maria – RS. Ninguém mais parece se lembrar. E é por isso que diversas casas continuam sem segurança alguma. Muitos são assim, sempre à espera de uma nova tragédia para se manifestarem.

Não existem dores maiores ou menores; existe a dor. Não consigo ter a dimensão do sofrimento de pais que perdem seus filhos – seja num banho de lama ou de sangue –, mas sei que discutir qual dor é maior, só porque ocorreu próxima a mim, não me convém; pois não me edificará e nem edificará a ninguém. Se hoje temos extremistas é porque os mesmos consideram suas dores e lutas mais relevantes do que aquelas associadas à humanidade, irrestrita em relação a tempo e espaço.

Imagino, no presente momento, as multidões de muçulmanos no mundo que sofrem com o “pré-conceito”; jovens que, por apresentarem uma orientação sexual diferente do esperado pela sociedade, são espancados e expulsos de locais públicos; mulheres exploradas… acaso isso não é trágico?

Sim, é trágico. Digamos “não” aos comentários “foi vontade de Deus”, pois Ele nada tem a ver com a negligência humana e o ódio que alguns propagam. Deus não se deixa vencer em bondade, pois é o próprio Bem. E, hoje, tenho certeza – pela fé que me edifica – que o Coração d’Ele chora pelas vítimas, mas creio que chora, também, pela maior tragédia humana da atualidade: a total ausência de compaixão cotidiana do ser humano.

Trágica a situação do Rio Doce e das famílias vitimadas, a tragédia anunciada e o mar de lama dispersado pelas águas do próprio rio, a negligência da empresa e do ser humano. Trágica, também, a situação das vítimas em Paris e de outras tantas vítimas de terroristas que agem pelo mundo difundindo terror, morte e estupro coletivo de mulheres.

Não poderemos vencer o terror gerado por extremistas se não vencermos a cegueira do nosso egoísmo. Se hoje o terrorismo recruta jovens do mundo inteiro para suas frentes é porque algo está errado no mundo e no modo como discutimos os problemas; as intolerâncias nascem do cotidiano e não de grandes feitos ou palavras.

A quem coloriu seus perfis, independente da lama ou das cores de uma bandeira, meu respeito e minha total tolerância. Aos pais que perderam seus filhos e aos filhos que perderam seus pais – em Minas Gerais, Espírito Santo, Paris e em todo o mundo – meu desejo de que a dor não os tenha feito perder a fé na humanidade, pois o Amor se dobra para nunca se romper ou ceder.

lu-001Luciana Gomes Barbosa
Doutora em Ecologia pela UFMG, vive em João Pessoa onde atua como Professora Adjunta da Universidade Federal da Paraíba. Católica, devota e admiradora da obra do grande João Paulo II, encontra no equilíbrio entre a Fé e a Razão forças para perseguir a Vontade do Coração de Deus, vivendo suas demoras e encontrando na formação humana dos seus estudantes combustível para a reconstrução da Civilização do Amor.

Um comentário sobre “De Minas a Paris: o coração não precisa se dividir

  1. Gratidão pelas palavras, foram tocadas profundamente no que venho realizando na minha vida, muito transformado e reafirma ainda mais minha fé……..precisa sair desses sufocamento que a mídia me colocava e me posicionava, tenho esse mesmo pensamento humano e num mundo de pessoas capaz de muda-la. Deus possa te oferecer o grande que venha nos oferecer com as palavras.

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