Eu vejo amor nos presídios

Ok. O ambiente não é agradável, tampouco faz brilhar os olhos. Mas posso lhes garantir que apesar de todas as evidências contrárias, há amor nos presídios e penitenciárias. Pelo menos  nas unidades prisionais que já visitei em razão do meu trabalho como jornalista. Não foram muitas, contabilizo talvez umas doze unidades,mas nelas encontrei, para além da angústia do encarceramento, um sentimento que sobressai a todos os outros: o amor.

Não tenho uma visão romântica do mundo, mas consegui perceber em cada uma das minhas visitas que a nobreza do amor fala mais alto mesmo na superlotação e nas adversidades das prisões. Acho incrível como este sentimento é capaz de transformar o mundo e as pessoas. Mesmo no ambiente onde a maioria das pessoas não quer nem passar perto, existe cumplicidade e respeito.

É importante, neste primeiro momento, tentarmos esquecer (ou pelo menos deixar um pouco de lado) a imagem que todos temos de unidades prisionais: um local à margem de tudo e de todos, sujo, fétido, cinza, escuro e obscuro. Obviamente não são locais de paredes alvas, piso impecável e pessoas bem vestidas. Não… Não são…  Mas este é outro ponto que não vem ao caso neste momento.

Quero falar apenas do amor que brota dentro das celas e, especialmente entre as mulheres, foco deste texto. Aqui em Minas Gerais todos os presos recebem uniformes vermelhos ao entrar no sistema prisional e, durante todo o tempo de cumprimento de pena, esta será a única cor das suas vestimentas. Você, mulher, já se imaginou usando calças e blusas vermelhas diariamente por anos a fio?

Antes que eu receba centenas de comentários dizendo coisas do tipo: “É isso mesmo! Está com dó? Leva pra casa” quero deixar claro que sou a favor das punições e dos uniformes. Se as pessoas estão ali é porque cometeram um erro (possivelmente).

Mas neste trajeto do encarceramento a maioria das mulheres está ali por que ajudou seus parceiros a cometer crimes, principalmente no universo do tráfico de drogas. Depois de presas, grande parte é abandonada. Não recebe nem mesmo visita dos familiares. E, mesmo vestidas de vermelho e de chinelo, continuam preocupadas com a sua aparência: batom, cabelos e unhas.

E a solidão dos primeiros dias se esvai com o passar do tempo. Dentro das celas, as mulheres voltam a viver e cultivar sonhos. Falam dos filhos, da vida que tinham, das dificuldades, do amor não correspondido, das cartas não recebidas e da vontade enorme de ter feito tudo diferente. Ouvi muitos destes relatos. Alguns extremamente comoventes, como o de uma mãe que aos sessenta e poucos anos resolveu levar droga a pedido do filho preso e, por amor e desespero, escondeu o material ilícito nos chinelos. Foi presa por tráfico e está passando a melhor idade atrás das grades.

A maioria dessas mulheres foi presa por amor. E, na solidão da prisão, elas redescobrem que  com amor é possível vencer os anos difíceis. Existem ali amizades verdadeiras. No abandono, o amor da colega de cela é o sustentáculo para não cair em depressão.

Eu não falo do amor carnal, de sexo. Falo do amor fraternal. O carnal também acontece, não raro por sinal. Mas o amor fraterno é perceptível em cada encontro com histórias de vidas destas mulheres presas. Há um caso interessante. Uma moça jovem foi presa e a família lhe virou as costas por não aceitar o seu desvio de conduta.

Comovidos, os pais de outra presa passarram a visitá-la também, levando-lhe quitutes preferidos e ocupando um espaço vazio deixado pela ausência dos familiares.

Não nos cabe julgar cada caso. Nem atirar pedras, nem dizer que são santas. Basta apenas entender que dentro das celas a vida continua. Os sonhos não morrem. Pelo contrário, eles crescem e viram gigantes. Há mulheres que deram a volta por cima e encontraram no encarceramento amor, oportunidade, atenção e afeto. Elas estudam, trabalham e mostram que é possível virar a página.

Quando há amor, não há mal que dure para sempre.

Flavia Lima (1)

 Flávia Lima.

Mãe da Pietra. Jornalista. Filha de baianos, casada com um baiano, nascida em São Paulo e criada em Minas. Viajar é o que mais gosta de fazer. Acredita nas pessoas, no amor e em Deus.

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