Sobre relacionamentos que nos roubam de nós

Diante de tanto sofrimento que vemos nas relações afetivas, de enganos, de desvalorização do outro e de si mesmo, tenho me questionado ultimamente sobre uma temática que, para mim, apesar de distante da minha realidade, não está longe do meu convívio.

Tenho acompanhado a vida de algumas jovens, conhecidas e não tão conhecidas assim, e me deparado com uma geração de mulheres bem-sucedidas profissionalmente, com carreiras e currículos notáveis e, ao mesmo tempo, extremamente carentes, perdidas em relacionamentos vazios, superficiais e unilaterais. Mulheres com dependências afetivas e obcecadas em alcançar aquilo que é descartável e passageiro.

Há algumas semanas, para minha surpresa, me deparei com uma mulher linda, bem-sucedida, profissional modelo, mãe solteira e extremamente carinhosa, presente e amorosa; mas uma mulher cheia de dores, vazios, medos e refém de um homem que a mantinha como saco de pancada puramente por ciúmes, opressão e, talvez, com uma necessidade de ser mandatário ou dono dela. Em seu relato ela me disse:

“Quando eu conheci o fulano, à primeira vista me encantei, um verdadeiro príncipe, lindo, educado, cuidadoso, atencioso, companheiro, um homem que qualquer mulher gostaria de ter ao seu lado. Com o passar dos meses, ele me envolveu, seduziu e já queria se casar comigo. Em poucos meses, eu já estava envolvida e noiva, nunca fui atrás para saber o motivo do término do seu relacionamento anterior. Nós nos casamos, mas eu me casei com outro homem. Aquele príncipe se revelou um monstro, me roubou, usou meu nome, me bateu e roubou a minha dignidade, minha paz, meus sonhos, minha beleza, meu coração e feriu a minha alma. Depois de sete meses, literalmente apanhando, não sei de onde eu tive forças e o coloquei para fora da minha casa – mas não da minha vida.”

Ouvi tudo aquilo e, em meu coração só pedia para ter a melhor palavra para aquela que podia ser eu ou você. Fiquei me lembrando das palavras que ouvi outrora de uma monja carmelita sobre matrimônio: “Na união dos dois, o homem e a mulher são convidados, desde o princípio, não só a existir um ao lado do outro ou juntos, mas também a existir mutuamente um para o outro”.
Olhei nos olhos daquela mulher, abracei-a por um longo tempo e me propus a ajudá-la. Na hora, minha vontade era de colocá-la no carro e levá-la até uma Delegacia da Mulher no intuito de denunciá-lo, aproveitando que hoje temos a nosso favor a Lei Maria da Penha – que, diga-se de passagem, foi inspirada em uma cearense guerreira. Propus a ela que pensasse sobre essa realidade. Não sei se por medo, confusão de ideias e sentimentos ela não quis ir.

Aquela mulher deixou em mim um desejo de ajudar a mulheres que, assim como ela, têm suas dores, vazios existenciais, medos e, por que não dizer, falta de Amor. Sim, Amor. Na nossa busca incessante de sermos felizes a qualquer custo esquecemos que o Amor, por amor, já nos livrou da morte, nos dando vida em abundância e vida eterna.

São João Paulo II, no seu papado, escreveu em 1998 uma encíclica que se chama “MULIERIS DIGNITATEM”, sobre a dignidade de ser mulher em um mundo que, muitas vezes, não dá o devido valor a nós. Em um trecho, ele diz: “O homem é uma pessoa, em igual medida o homem e a mulher: os dois, na verdade, foram criados à imagem e semelhança do Deus pessoal. O que torna o homem semelhante a Deus é o fato de — diferentemente de todo o mundo das criaturas viventes, incluídos os entes dotados de sentidos— ser também racional. Graças a esta propriedade o homem e a mulher podem “dominar” as outras criaturas do mundo visível (cf. Gên 1, 28). Logo cada homem, com efeito, é à imagem de Deus enquanto criatura racional e livre, capaz de conhecê-lo e de amá-lo.” Ou seja, somos semelhantes a Deus, tanto homem como mulher. Somos diferentes em questões físicas, biológicas, mas iguais em direito e merecedores de respeito.

Minha cara, sabe aquilo que seu coração tanto anseia e você nem sabe o que é? Aquele desejo incontrolável de ser feliz, de amar, ser amado, de ser livre? Pois é, para conhecê-lo e alcançá-lo é preciso percorrer um caminho de autoconhecimento que, no meu ponto de vista, inclui oração, busca interior, um acompanhamento pessoal – seja ele profissional ou não –, o conhecimento de si e, para mim, o mais importante: a intimidade com Deus. Entender que nascemos do Amor, por Amor e para o Amor, e voltaremos para Ele; só temos que saber bem ordenar o tempo que viveremos essa graça que é a nossa vida.

Não se permita ser tratada como lixo e nem guardar o lixo de ninguém. Já vivemos tantos desafios, problemas, incertezas, medos em nosso dia a dia… submeter-se a algo que lhe trará mais dores do que flores em seu caminho não será benéfico a você e nem aos seus. Pense em tudo o que pode conquistar ainda, quantos sonhos, vontades e desejos a serem realizados. Não deixe que ninguém lhe mate em vida. Quem ama cuida e se a pessoa que está com você não lhe valoriza e nem lhe dá o devido respeito, não perca seu tempo! Você é especial e deve ser tratada dessa forma, de modo especial.

Deus nos abençoe e nos dê a graça de percebermos o que e quem nos rouba de nós mesmos.

Um cheiro na alma

 

FullSizeRenderJuliana Gurgel                    

Uma Filha amada de Deus, cearense com uma veia paulistana, casada, turismóloga, sonhadora, realista, em processo contínuo de construção. Voluntária em projetos da Igreja Católica e envolvida com os movimentos de Jovens Empresários, empresária, produtora de eventos por amor e vocação, apaixonada pela vida e louca por viver cada dia próxima dos que ama e ajudando nos detalhes a fazer um mundo melhor.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias

3 comentários sobre “Sobre relacionamentos que nos roubam de nós

  1. Oi Ju,
    seu texto me lembrou um livro excelente sobre o tema, Quem me roubou de mim, do padre Fábio de Melo. Recomendo a leitura, ele vai esclarecendo à luz de teóricos do comportamento como e por que nós muitas vezes nos contentamos com relacionamentos abusivos, que nos roubam nossa essência.
    Obrigada por compartilhar sua experiência conosco!
    Abraço e paz

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