Conectadas, sim. Impessoais, não

Sabe aquele lugar afastado da civilização, onde não há sinal de celular? Cada vez mais, tem-se ouvido uma resposta assim: é para lá que eu vou! É de um lugar assim que eu preciso!

Se tantas pessoas hoje veem o próprio celular como um fardo, algo está errado. Uma das conclusões a que se pode chegar é que, provavelmente, estão fazendo mau uso dele. Quando o assunto vem à baila numa conversa, alguns mais conscientes acerca da tecnologia alegam que não. Na verdade, é uma equação muito simples, se você utiliza o celular com bom senso e moderação; entretanto, as pessoas com as quais você se comunica não têm a mesma percepção, eis o X da questão.

É fato que não se pode mudar as pessoas, sua natureza, maneira de agir. Pode-se influenciá-las, levá-las a refletir, aconselhar; porém, está a cargo de cada um suas próprias escolhas e atitudes. Sendo assim, não podemos mudar o comportamento do outro, mas podemos mudar como lidamos com as situações; ou seja, eu não posso evitar que alguém me envie uma mensagem às 23h30, mas posso escolher se respondo naquele horário ou deixo para a manhã seguinte.

Há algumas décadas, o bom senso e a boa educação diziam que não era apropriado telefonar após 22h. É óbvio que os tempos são outros e existem situações extremas. Exceções sempre existirão, mas, como o nome diz, não é a regra. Há um limite que pode e deve ser dado quanto à utilização do celular, a fim de que não se tenha a privacidade invadida, o tempo roubado. Este limite quem dá é cada um.

A comodidade, privacidade, praticidade e rapidez que os smartphones oferecem é indiscutível. Se utilizássemos a simbologia de uma balança, o lado positivo penderia mais, indubitavelmente. Os benefícios são incalculáveis, não há de se contestar. Com o avanço da internet sem fio e aplicativos eficientes, porta-se hoje um computador a tiracolo, que cabe numa mão. No entanto, sem a sonhada sabedoria para lidar com o apaixonante equipamento, é possível tornar-se refém.

Hoje assiste-se a propagandas financiadas pelos órgãos responsáveis, alertando sobre o uso de celular ao volante, o que tem trazido preocupações tais como o álcool. Sem falar da polêmica exposição nas redes sociais, ato livre e consciente, e a mais nova ansiedade gerada pelo uso contínuo do aparelho, sobretudo nos adolescentes, como menciona o psicólogo Daniel Goleman, em seu livro Foco.

Com o surgimento de aplicativos de mensagens instantâneas, o telefonema saiu de cena e ninguém lembrou de aplaudi-lo. Com esse tipo de aplicativo (o mais popular é esse mesmo que você pensou, com mais apelidos que seu animal de estimação.), somos cada vez mais procuradas, invadidas. Sim, invadidas, por que não? Afinas, somos incluídas nos mais diversos grupos, sem permissão, sem ao menos uma consulta.

Há os que se distraem com essa ocupação de responder a muitas mensagens diariamente, preenchem seu tempo; todavia, para muitos chega a ser mais uma habilidade a desenvolver: dar conta de responder a tantas mensagens, na velocidade com que os remetentes as esperam.

Lançar mão da tecnologia é imprescindível atualmente. Hão de concordar que é uma necessidade que se impôs, entretanto, é comum escutar hoje: a tecnologia nos aproximou ao passo que também nos afastou. Paradoxal, não é mesmo? E tão verdadeiro! Aproxima quem está longe, mas afasta quem está próximo. A sociedade tem se tornado impessoal. Pode ser acrescentado mais um significado para a sigla TI: Tecnologia da Impessoalidade.

Permitam-me ser romântica, a pessoalidade deve estar presente nos relacionamentos entre pessoas mais próximas. Nenhum emotion é capaz de substituir a voz, o olhar, o toque, o sorriso, nem traduzir o que um abraço e um beijo transmitem. Uma mensagem não deveria substituir um telefonema para parabenizar alguém, dar uma grande notícia, fazer um convite especial.

Fica a reflexão de J R R Tolkien, na voz de Gandalf: “Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado”.

Renata_saraivaRenata Saraiva é brasiliense, casada, com formação em Língua Portuguesa e Literatura. Comunicativa, curiosa, adora viajar. Amante da arte e da fotografia, mas a maior paixão: os livros. Católica, seguidora de Jesus Cristo, acredita que um mundo melhor e mais justo é possível.

4 comentários sobre “Conectadas, sim. Impessoais, não

  1. Que artigo maravilhoso!
    Era exatamente assim que me sentia: invadida! Mas adotei uma nova postura: as mensagens do aplicativo e as redes sociais não são prioritárias, afinal, se um assunto é urgente, o mais indicado é fazer uma ligação telefônica.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Obrigada, Fernanda e Vitor, por sua participação. É bom ver pessoas compartilhando ideias que nos fazem crescer, apontando novas reflexões. Li o artigo que você sugeriu, Vitor. Interessante a crítica que ele faz às redes sociais. Dá um bom texto. Você não se arrisca a escrever sobre isso, Vítor?
    Abraço,
    Renata.
    PS- Fê, beijo para você, querida!

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  3. OI Renata,
    tudo bem?
    Que texto atual e necessário! Se a gente não se policiar, vive em função da tecnologia!
    Eu escrevi uma vez sobre isso no portal da Canção Nova, porque acho que é um tema que a gente tem que martelar muito, ne…não podemos perder parte da vida preocupados com likes, compartilhamentos, emojis…
    Obrigada pela riqueza e docilidade em suas palavras! Me fizeram muito bem hoje!
    bj

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