Reflexões à espera de Helena

Grávidas e futuros pais do segundo semestre de 2015 não vêm curtindo todos os mágicos momentos de uma gravidez, como geralmente acontece. A sombra de um pequeno mosquito, o transmissor do Zika Vírus, amedronta Brasil afora.

Mesmo assim, mesmo tendo “envelhecido dez anos ou mais nesse último mês”, como canta a banda Engenheiros do Havaí, outras preocupações, certamente mais saudáveis, batem às portas de minha mente e do meu coração. Batizada de Helena, antes mesmo da certeza de seu sexo, a confirmação de que era uma menina correspondeu a minhas expectativas como pai. Queria muito uma menina.

O nascimento da minha sobrinha, uma inteligentíssima princesa, de quem tenho a honra de ser padrinho – uma das grandes emoções de minha vida –, me fez ficar ainda mais encantado com a ideia de ser pai de uma mocinha. Com o nascimento de um encantador príncipe quase três anos mais tarde, irmão de minha afilhada, fiquei aberto para as alegrias de ter um filho homem, mas ainda era mais inclinado a ter uma filha. Helena está a caminho, quase aí, quase chegando.

No intervalo de cada ultrassom e das comemorações de uma cabecinha que cresce e nos empresta tranquilidade, venho pensando muito sobre o que é ser pai de uma menina nos tempos que se avizinham. Há algum tempo, estava me julgando um péssimo pai por não estar me preparando para tal responsabilidade. Minha esposa, que escuta minhas angústias e automaticamente as transforma em missão, me presenteou com livros que não significaram minha redenção, pareciam óbvios.

Procurei fazer o curso para gestantes. Como único homem não acompanhado das aulas – minha esposa estava muito ocupada por aqueles dias –, fui tratado com machismo, e todas as vezes me perguntavam se minha esposa não iria participar. Não presenciei a mesma pergunta para mulheres desacompanhadas. Mesmo assim, gostei muito do curso e aprendi bastante.

Sou muito impressionável com as coisas. Diversas vezes, recebi por WhatsApp vídeos com menininhas fofinhas, fazendo graça. Comecei a refletir. Lutei comigo mesmo para não me sentir culpado por também ter as minhas expectativas quanto à minha filha. Não posso colocar em segundo plano o meu forte desejo de que ela seja levada, bagunceira e revolucionária. Minhas expectativas são tão ou mais legítimas quanto às expectativas de qualquer pessoa.

A vida me presentou com uma mãe forte e uma esposa alagoana arretada. Quero que minha filha seja mais valente que minha esposa. Será minha esposa com um plus. Não quero um anjinho, uma princesa, quero o desafio. Quero ser empurrado e desafiado por uma mulher forte, progressista, avassaladora e à frente do seu tempo. Quero uma filha rock in roll e não posso me envergonhar disso.

Nos debates sobre educação, sempre mantenho uma profunda tranquilidade. Algo me diz que o sucesso ao educar minha filha não virá de teorias, mas de olhares e intimidade. Minha filha confiará em mim, mesmo se o que tiver para me dizer seja algo que eu desaprove. Minha filha não receberá “nãos” à toa, mas receberá “nãos” importantes, reais, pés no chão, dialogados, olho no olho e um sorriso de cumplicidade no final.

Trabalharei para ser um pai amigo, assim como o meu é, apesar de que os pais quase nunca são os melhores amigos dos filhos. Os filhos não passam horas e horas com os pais no telefone (eu passo. Meus pais são massa!), mas podem ser grandes amigos. Isso eu serei.

Sobre como Helena será: tenho que conservar em mim o espírito livre e democrático de respeitar o que minha filha quiser ser, mesmo que seja uma delicada princesa.

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Rodrigo Pael Ardenghi é professor universitário, jornalista, mestre em Comunicação e Semiótica, casado, católico e corintiano fanático.

10 comentários sobre “Reflexões à espera de Helena

  1. Rodrigo Pael, certa vez estava em uma reunião de pais com uma pedagoga excepcional. Estava grávida da minha segunda filha e na reunião da primeira que começava a estudar naquele ano. Coração apertado demais e com todo aquele sentimento hormonal de uma gestante. Ao final da palestra, a palestrante colocou aquela música “Eu não sei parar de te olhar” da Ana Carolina e Seu Jorge. E dizia assim: se nós não pararmos para olhar os nossos filhos, o traficante, o pedófilo, o bandido vai olhar…Permita-se essa experiência cotidiana: olhe para o seu filho. Aí fiquei segurando o choro…Quando olhei para os lados, todos choravam: pais e mães. Essa é a síntese: o que ficará é a intimidade, o olhar…

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  2. Pael,
    chegou chegando em nosso Muitas Marias, e veio para ficar!
    Que muitos homens possam se sensibilizar com o seu texto, afinal, o homem não “ajuda”, ele participa junto desde a gestação.
    Olha, você pode ir contando todas as peripécias da sua Helena pra nós ein!
    Seja muito feliz, que Nossa Senhora de Guadalupe abençoe o parto e nascimento da sua filhinha, e dê a você e à alagoana muita paciência, sabedoria, e discernimento a cada escolha pra filha de vocês, porque pelo texto já dá pra saber que quando Helena puder , já vai escolher seu próprio caminho e ser apoiada por vocês.
    Um abraço grande, te admiro, obrigada por fazer parte de nosso time!

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