As Donas da Rua

Contadora de histórias de mulheres invisíveis, poderíamos chamar assim Beatriz Grimaldi, idealizadora do projeto As Donas da Rua, o qual propõe dar voz a mulheres que vivem em situação de rua. Para conhecer mais sobre esse belíssimo trabalho, entrevistamos a Beatriz, que nos recebeu de coração aberto e nos confidenciou as alegrias e sofrimentos de tantas donas das ruas do Brasil.

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Antes de mais nada, quem é a Beatriz Grimaldi?
Sou os encontros que me aconteceram e os que estão por vir. Um tanto de curiosidade e um amor sem fim pela vida.

Como surgiu o projeto “As Donas da Rua”?
Desde a minha infância situações de exclusão são assunto nos meus pensamentos. A dos moradores de rua em especial. Fazer parte de uma sociedade apenas em suas carências e não ter os mínimos direitos de cidadão é inadmissível. Não falo apenas da condição de pobreza, mas do existir. As ruas estão cada vez mais abarrotadas de moradores. Já são mais de 16 mil na cidade de São Paulo. Esse número só aumenta e a sociedade cada vez mais quer distância dessa realidade. Talvez por medo ou por não querer sentir-se responsável. O projeto começou ao ouvir o pedido de socorro da Toinha, que mora na rua da minha casa. Diariamente ela é atormentada por indíviduos que sentem prazer ao gritar “Maria” ao passarem por ela. Sabendo que esse não é o seu nome fazem para provocá-la. Ela fica num desespero sem fim e começa a urrar. Os seus gritos foram as primeiras palavras do Blog. A vontade de dar voz a Toinha e a todas as outras que permanecem mudas, foi o que criou As Donas da Rua.

O que você deseja passar às pessoas com esse trabalho de escuta dessas mulheres?
O que as pessoas precisam saber é que há muita delicadeza na aproximação com os moradores de rua e isso está ao alcance de todos. A alegria desse momento com certeza é algo importante no dia a dia dessas pessoas, mas a questão é que ninguém quer se “sujar” no olhar ou no aperto de mão. Ouço tanta gente indignada com a minha aproximação física que eu me assusto mais com os conhecidos dos que com as moradoras.

criancas

Qual o cenário que você encontra na rua e que sentimento se desperta ao se ter contato com essas histórias?
As histórias são tristíssimas, mas o fato de elas poderem contá-las já causa algum alívio. Serem reconhecidas é muito valioso. Todos nós precisamos do olhar do outro. Drogas, álcool, abandono, violência, depressão, é esse o cenário da rua. Limites de sanidade sem cuidados. Acolho e denuncio como posso. O que puder mais, só a continuação do trabalho dirá. Já reencontrei algumas muheres com quem conversei, a situação delas não mudou, mas o fato de estarmos nos encontrando por uma segunda, terceira vez, aquece. Essa é a minha forma de acolhimento. Que desse projeto sairão ramificações, isto é certo. Ele é uma junção de relatos de um grupo de mulheres que não tem moradia no Brasil em 2016. Que também frágeis, sofrem na rua diferentes ameaças. Corpos femininos que se expõe e tentam se esconder. Temem a violência sexual, bala perdida, a esquizofrênia, as agresssões. Que buscam pares, buscam amar. Que se drogam e se enfeitam. Engravidam e não podem ser mães. É realmente muito preocupante e triste o lado de fora das moradias de São Paulo. Vamos sair por aí e isso vai se estendendo, cidades, estados e vários países. Esse é o nosso tempo.

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Com relação ao contato com essas mulheres, como você as aborda? Sente resistências por parte delas geralmente?
O começo do trabalho foi difícil, o tempo do entendimento. Passei por situações de medo até saber onde eu poderia ir sozinha, mas acredito que entendi como a rua funciona e onde posso estar. O fato de eu ser mulher nos coloca mais próximas. Divido com elas coisas da minha vida também, é uma conversa. Ofereço esse trabalho e elas me recebem e gostam muito. Quando isso não acontece obviamente me retiro. A maioria dessas pessoas não quer estar na situação de rua, mas o envolvimento com drogas é um nó difícil de desfazer-se. E esse é um motivo bem comum de estarem nas ruas. Elas pedem e querem ajuda, precisaríamos de um trabalho muito intenso de assistência social, que pudesse de fato dar acompanhamento. É um vício, e como vício ele é diário. Você não pode esperar coerência nem atitude positiva de um viciado. Por um lado sentem-se livres, sem horários e compromissos, mas sabem que se tornaram escravas dessa liberdade, é uma bola de neve. O apelo por médicos, assistentes sociais fica tragado no dia a dia. É triste, muito triste. Sem cura não tem força de vontade, não tem mudança, não tem carteira de identidade, não tem endereço, não tem emprego, não tem comida, não tem dignidade.

Esse projeto conta com a presença de mais pessoas ou é uma iniciativa estritamente pessoal?
É um projeto que faço sozinha. Em dezembro de 2015 inicei uma Caixa Postal para doações de toda a espécie. Pude montar vários kits com roupas, itens de higiene, alimentos e bijoux que distribuí para várias moradoras pela cidade. A caixa Postal continua ativa e as doações são bem vindas.

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Algo que fica evidente em sua escrita é que você não procura romantizar a situação dessas “donas” da rua; contudo, você consegue passar uma grande carga de sensibilidade e esperança. Como se dá esse processo de construção das histórias?
As histórias contadas são as vozes que eu ouço, os cheiros que sinto e o que fica de cada encontro. A esperança que passo é a que tenho. Vivemos excluindo e falando de inclusões. No decorrer desse projeto estou tendo a oportunidade de receber mensagens de pessoas que encontraram algumas das mulheres com quem conversei, lembraram seus rostos, seus nomes.Você poderia me perguntar “que diferença isso faz?”. A luta contra os preconceitos é de toda espécie. Insistentemente temos que provar nossa igualdade. Me dá motivação saber que alguns que estavam por trás de retrovisores dos carros, amontoados nas calçadas, passam a existir a esses outros que estão dentro dos carros, ou de sua próprias carcaças. Quem sabe nos vemos iguais e remodelamos nossas crenças.

Pensando em inúmeras “donas” das ruas de São Paulo com quem você tem contato, que história lhe marcou de modo especial?
A dona Eva, uma senhorinha com muita esperança nos seus setenta e poucos anos. Esperança que a assistente social irá cuidá-la, de que irá conseguir fazer seus documentos no Santa Cruz, de que o filho arrumará emprego, de que a nora que estava grávida e doente ficará boa. De que voltará para Santos e irá recuperar a casa que perdeu em um incêndio.

Durante todo esse tempo que você vem ouvindo esses relatos, qual a sua percepção sobre o senso de comunidade dos moradores de rua? A lei “cada um por si” é a regra?
Não, alguns vivem em grupos. Principalmente usuários de drogas, estão fisicamente perto. Já ouvi de algumas mulheres que é mais fácil arrumar uma pedra de crack do que um prato de comida. O grupo por vezes forma-se assim, a destruição é coletiva. Tem também uma grande quantidade de casais, alguns já tiveram casa e sairam por não aceitarem as regras familiares e outros que se conhecem na rua. Aguentar a rua sozinho é enlouquecedor.

Qual a grande lição que você leva depois de viver tantas experiências marcantes com “As Donas da Rua”?
É a de agradecimento.

Para quem se interessar pelo projeto, como pode conhecê-lo mais a fundo ou mesmo participar de alguma forma?
Fico muito feliz em conversar com quem me escreve. Meu email : biagrimaldi00@gmail.com, o novo site: asdonasdarua.com e a página do Face: As Donas da Rua.

*As imagens apresentadas nessa entrevista são de propriedade de Beatriz Grimaldi, retiradas do blog “As Donas da Rua”.

4 comentários sobre “As Donas da Rua

  1. Quanta coragem para lidar com um tema tão importante como este! Quero ter coragem de ser alguém melhor e, se possível, ajudar estas pessoas nas ruas… que de certa forma são nossas irmãs/ãos… afinal… não somos todos filhos de Deus?

    Curtido por 4 pessoas

  2. Pingback: As Donas da Rua
  3. Olha Bia,
    eu compartilhei esse texto na minha timeline na quarta-feira de cinzas, e me comprometi a olhar para essas pessoas nas ruas. Essas mulheres, que não tiveram a mesma oportunidade que nós, que temos uma casa, precisam ser olhadas, sem ser vitimizadas, e cuidadas, ajudadas.
    Muito bom conhecer o seu trabalho, que a sua experiência motive muita gente a fazer algo novo para essas pessoas, nem que seja um olhar e escuta fraternos.
    PArabéns que Deus abençoe!

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