“Eu quis melhorar…”

Sou a típica nordestina, com todos os traços que um bom maranhense tem. Cara redonda, sorriso largo, cabelo crespo. Na adolescência, eu não gostava, me sentia feia. Hoje gosto do que vejo, parei de ser influenciada pelos preconceitos e passei a gostar da minha origem e características.

Nasci de uma gravidez indesejada e os efeitos disso são vistos até hoje. Abandono paterno e materno, mas tive avós que cuidaram de mim até os seis anos. Após isso, minha mãe tentou ser mãe, foi me buscar na casa dos meus avós e vim morar em Brasília. Começaram as agressões físicas por parte dela e do então marido, meu padrasto. Na época, era para corrigir a menina sem educação, precisavam dar limites, ele que me “dava comida” então tinha direito de “corrigir”, eu ouvia sempre da minha mãe. Aos 13 anos fui morar na casa de uma tia, minha mãe dizia que o casamento estava passando por problemas e eu tinha que ficar longe. Fiquei longe. Via minha mãe de vez em quando, tinha que me submeter ao regime autoritário de uma tia rígida, era da escola para a igreja, quase não tinha amigos. Mas eu vi vantagem nisso, ela nunca me bateu. O regime era rígido mas aquela tia ainda tinha algum respeito por mim.

Aos 16 anos minha tia decidiu “me devolver” para minha mãe, segundo ela eu estava na idade de namorar e ela não queria responsabilidade com adolescente. Me senti um objeto e ao mesmo tempo senti que minha mãe não me queria de volta, mas eu era menor e ela foi obrigada a me buscar. Voltei a morar com ela e com o marido. Começaram novamente as agressões por parte dos dois. Os motivos variavam, eram desde um tênis dele (padrasto) que não havia lavado até o café que ele queria na hora e eu não tinha feito. As agressões? Chutes, tapas no rosto, faca no pescoço, socos em qualquer parte do corpo que pegasse, entradas inesperadas no meu quarto sob o pretexto que não sabia que eu estava lá trocando de roupa, eram xingamentos. No mesmo dia em que ele fazia isso, no seguinte ele trazia chocolate, dizia que eu o irritava muito, mas que não ia fazer mais, porém, ele fazia. Minha mãe no meio de tudo isso? Brigava, xingava-o, mas não o largava. Eu dizia que iria denunciá-lo, ela pedia por todos os santos que eu não fizesse isso porque ela o amava. Eu desistia. Dos 16 aos 18 ele me bateu, me deixou roxa, nunca me violentou sexualmente, mas marcou toda a minha vida.

Na última agressão, eu tinha 18 anos, minha vó estava em casa passando férias e ele me chutou, me deu socos na frente dela por eu ter contado a minha mãe que ele não tinha feito o que ela havia pedido. Ele se descontrolou e me deixou machucada. Aquele dia, ao chegar do trabalho e me ver, minha mãe chorou. Senti que finalmente ela ia acabar com o casamento e denunciá- lo, mas, ao invés disso, ela disse que eu era maior de idade e devia seguir minha vida, pois ela iria salvar o casamento. Saí de casa e nunca mais voltei. Fui morar com amigas, trabalhei vendendo cartão de loja nas ruas de Brasília, limpei escritórios, trabalhei em shopping, paguei minha faculdade e me formei, nunca liguei para ela para pedir ajuda, trabalhei e consegui ser jornalista. Ela não foi na minha formatura, ninguém da família foi.

Comprei um apartamento para mim, ela nunca me visitou. Deixei para lá, continuei vivendo. Em meio a tudo isso, minha vida era acompanhada por pesadelos, crises de choros inesperadas, tristeza, medo de me relacionar emocionalmente, criei um mecanismo de defesa com base na grosseria, eu era estúpida com todos. A depressão não me deixava, mas eu não procurava ajuda. Fingia para mim mesma que eu era forte, que eu era feliz e que tudo o que vivi tinha que ficar no passado.

Em 2012, aos 25 anos, tive minha primeira crise de síndrome do pânico. Eu nunca tinha ouvido falar sobre isso, não sabia porque passava mal todas as vezes que precisava sair, não sabia o que era aquilo. Fui ao médico e ninguém me dizia o que eu tinha, mas eu continuava passando mal. Procurei um psicólogo e ouvi “Thayse, isso são sintomas de transtorno do pânico”.

Comecei a terapia. Como me achava forte demais, não levei a sério. Fiz terapia por uns meses e parei, estava melhor e achei que nunca mais isso ia aparecer. Em 2014 me mudei para São Paulo. Após alguns meses morando lá, voltei a ter crises, mas dessa vez em maior proporção e com um desgaste maior. A primeira semana de crise já me deixou em casa, inútil para tudo, procurei um psiquiatra e comecei o tratamento. Doloroso tratamento. Remédios com enormes efeitos colaterais, perda de peso, afastamento do trabalho e, para somar, eu estava em um namoro instável. Eu tinha um bom emprego e o perdi. Perdi minha saúde. Sentia medo até de ir ao banheiro sozinha. Eram crises diárias, a depressão veio junto. As pessoas julgavam, minha mãe continuou ausente. Tivemos tentativas de reaproximação, mas não deu certo, meu problema de saúde foi visto como falta de Deus porque não perdoei o marido dela. Nunca entenderam o quanto as agressões influenciaram o meu psicológico.

Os meses foram passando e os remédios foram fazendo efeito, fui melhorando, o namoro estranho acabou, as crises diminuíram e, hoje em dia, ainda faço tratamento com psicólogo e psiquiatra. Escrevo um blog sobre a doença e voltei à vida. Comecei a fazer yoga, descobri meu escape, minha mente foi voltando a funcionar, meu corpo respondendo ao tratamento, a yoga muito me ajudou. Vivi intensos dias do combo: yoga + terapia + remédios. Funcionou bem, fui melhorando. Eu queria muito melhorar. Tive amigos que me ajudaram, tive pessoas que se importaram. Vi que não podia nada sozinha, vi que existem, sim, pessoas de bom coração.

Posso não ter a melhor vida do mundo, mas tudo o que me aconteceu contribuiu para o que sou hoje. Tudo o que houve me deixou mais humana e com o senso de empatia maior. Acho que se nos colocássemos mais no lugar dos outros, ajudaríamos mais e o mundo seria melhor.

Não é difícil fazer isso, basta tentar. Não vale esperar algo ruim acontecer para se tornar melhor.

thayse lopes

Thayse Lopes

Jornalista por formação, fotógrafa por paixão. Descobri que é possível praticar boas ações todos os dias, descobri que meu papel no mundo é servir. Autora do blog www.tivesindromedopanico.com.br

8 comentários sobre ““Eu quis melhorar…”

  1. Este texto é bastante denso mas, de repente por este mesmo motivo, eu te agradeço por tê-lo escrito ao público. Você é muito corajosa e vem de muita superação. Jogar luz sobre isso tudo mostra muita coragem e bravura! Tenho certeza de que vai ajudar muita gente em situação similar a ver uma luz no fim do túnel (que não seja um outro trem na contramão). Abraço e sucesso!

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  2. Thayse,

    Obrigada pela sua coragem de trazer sua alma para este texto. Espero que sua partilha faça diferença em minha vida e na vida de tantos outros que precisam ser encorajados para um novo dia.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Thayse,

    Me emocionei ao ler seu texto e te agradeço muito por compartilhá-lo ..
    Achei suas palavras inspiradoras, e fiquei muito feliz de saber que você se reinventou e reencontrou na ioga a alegria de viver..A vida não é fácil mas graças a Deus sempre aparece uns anjinhos em forma de amigos para nos confortar né?
    Um beijo grande e parabéns pela força e humanidade!
    Ahh, achei seu cabelo lindoo…

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  4. Você está se superando a cada dia e isto é bom demais, pois nossa maior necessidade é amar e ser amado(a), fazer o que tem que ser feito, mas com a consciência de quem sabe o que quer teu exemplo motra teu caminhar, tua luta, teu desespero e tua vontade de crescer e compartilhar alegrias e agruras, o que a torna uma vencedora em potencial !! Somos todos frágeis até o momento que decidimos mudar e virar a mesa. tua mesa foi virada e está e fase de elevação pessoal, maravilha. Meus parabéns Thayse ! Guerreira de valor acima da média !! Nota 9,8 pra Você.

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