E se eu não precisar provar que sou feliz?

Há uma palavra em inglês que, desde que eu a conheci, nunca mais saiu de meu vocabulário quando quero me referir a uma atitude prepotente e exibida: “show-off”. Sabe aquele amigo que coloca na rede social cada conquista sua, revelando o quão incrível e perfeito é a cada dia? Show-off! E aquele colega de trabalho que vai de pessoa em pessoa da equipe para mostrar quão incomparáveis são suas ideias? Pois é, show-off!

Vamos ser sinceros: a necessidade de aprovação mata a nossa liberdade e nos torna prisioneiros dos outros. Acredite em mim, passei grande parte de minha vida em busca de aprovação das pessoas até entender que essa busca não valia de nada; era uma perda de tempo.

Quando eu era criança e adolescente, me lembro de ser considerada a “ovelha branca” da família. Era sempre mencionada como a garota exemplar, com adjetivos bastante satisfatórios para o meu ego. Mas, para além de tudo o que diziam de mim, existia, na verdade, algo que me motivava a ser a garota “quase perfeita” para essas pessoas: a necessidade de aprovação. 

A vida, com todos aqueles adjetivos, vendo o que esperavam de mim, tornou-se uma batalha silenciosa, onde eu precisaria me destacar em relação aos demais. A minha grande libertação ocorreu quando eu assumi que tinha essa limitação e isso só aconteceu quando fui morar fora do Brasil – longe daqueles que contavam com a ovelha branca. Pude, então, ser livre de todas as expectativas e me encontrar. Pude ver em mim a mulher decidida que estava gritando há anos para ser descoberta. E descobri, também, que não era a única que havia sido prisioneira da aprovação alheia. 

Notei que todas as pessoas com quem havia tido contato passavam pela mesma situação, em menor ou maior grau em determinada área de sua vida. Elas sentiam a necessidade de serem reconhecidas, elogiadas, admiradas. A diferença estava em apenas uma coisa: havia aqueles que assumiam essa limitação e queriam mudar, os que assumiam a limitação e não tinham interesse em lutar contra esse sentimento e os que não tinham consciência real sobre o que viviam.

Contudo, para vencer a limitação de ser aceita e não criticada, acabei tomando um caminho um tanto quanto radical, a visão que as pessoas tinham sobre mim como a garota boazinha começou a me incomodar e iniciei um processo reverso: se percebesse que eu iria fazer algo para me autoafirmar, ainda que fosse uma simples foto em uma rede social, parava, refletia e dizia “não preciso disso”. Se eu via que estava sendo a “boazinha” só para não entrar em conflito com alguém e não perder a amizade, logo dizia o que realmente pensava. Ah, o equilíbrio, nosso maior desafio! Mas sinto que foi um ótimo exercício. 

A grande verdade é que nenhum de nós escapa dessa terrível “bactéria” emocional; muitas vezes, invisível aos nossos olhos. De uma forma ou outra, precisamos nos sentir reconhecidos; a grande questão é não nos tornarmos escravos desse sentimento. Que bom é receber um elogio! Mas, e se não o recebermos, seremos menos felizes? Quantas pessoas que você conhece são escravas das aparências? E, muitas vezes, a necessidade de aparentar aos demais sucesso, felicidade e realização é apenas para que ela mesma acredite que é feliz – quando o que ocorre é o contrário. 

Para quem diz que não há como mudar, eu posso dizer com veemência: isso só é possível se reconhecermos nossas limitações e nos dispusermos ao exercício de eliminá-las a cada dia, de pouquinho em pouquinho, até perceber que é hora de trabalhar com outras questões, pois essa já vencemos em grande parte.

Eu me lembro de uma passagem bíblica em que Jesus retorna para a sua terra natal e, quando começa a pregar na sinagoga, as pessoas olham para ele e, vendo sua origem humilde, não acreditam no que ele fala e o humilham. O que Jesus dá como resposta é incrível! Ao invés de discutir e querer provar que estava certo, ele vai embora. Ele, simplesmente, vai embora! Vai para longe das pessoas que estavam tentando levá-lo a se autoafirmar, a provar aos outros quem era. E quantas vezes somos instigados, por meio de telefonemas, mensagens do whatsapp, em casa ou no trabalho a provar que somos quem somos – ou que somos quem não somos?

Um exercício simples para saber se estamos ou não vivendo em busca de autoafirmação perante as pessoas: quando for postar no Facebook aquela foto ou mensagem que mostra o seu sucesso, pergunte-se “estou fazendo isso para compartilhar a minha felicidade ou para provar que sou feliz”?

Não há nada mais libertador do que apenas ser. Viva a vida low-profile! E, pensando naquele exemplo de Jesus, fico com ele – ter a força de não alimentar quem espera que eu seja dependente da sua aprovação e a alegria de saber que não mais preciso provar para ninguém que eu sou feliz. 

12 comentários sobre “E se eu não precisar provar que sou feliz?

  1. Parabéns pelo texto Christie!
    Quantas vezes não somos imaturos em nossas atitudes e ressentimos por falta de aprovação?! E quantas outras, superfaturamos um fato pela bajulação daqueles que nos cercam com excesso de elogios e falta de sinceridade?! Assertivo e objetivo seu texto.., obrigada!

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  2. Chris!
    Seu texto foi direto ao ponto. Muito bom e agregou.
    Como diria aquela música do Legião Urbana:
    (…)Quando o que eu mais queria
    Era provar pra todo o mundo
    Que eu não precisava
    Provar nada pra ninguém…
    Quando descobrimos este caminho, árduo e compensador, recobramos as forças para sermos quem nascemos pra ser, na essência.
    Amei o texto ❤
    um beijo

    Cris

    Curtido por 1 pessoa

  3. Arrasou no texto Chris..
    Me lembrou daquele texto do Fernando Pessoa
    “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”…
    Ótima reflexão!
    Bjo,

    Curtido por 1 pessoa

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