Estou ficando velha, sim, e daí?

Era um daqueles dias de cão, por volta das 23h. As crianças já estavam dormindo e, finalmente, estava tudo pronto para começar o dia seguinte. Fui escovar os dentes antes de dormir e, ao pegar a toalha para enxugar o rosto, fixei os olhos no espelho, virei a cabeça para cima, depois para baixo e, de repente, a ficha caiu: estou ficando velha. A pele do pescoço estava mais flácida, as linhas de expressão mais fortes e os cabelos brancos rebeldes apontando de todo lado. Foi quando o inconveniente do espelho me disse: “É, Ivna, a idade chega pra todo mundo. Você já está com 40 anos!”.

A vontade que eu tive era dizer para aquele espelho: estou ficando velha, sim, e daí? Mas não dei conta de dizer. Na verdade, fiquei um pouco em crise e isso me assustou, porque até então achava que era muito bem resolvida nesse sentido. O envelhecer é lindo, ressalta a sabedoria acumulada de anos e uma leveza para ver a vida com outros olhos. Mas, por que, então, eu estava tão incomodada com as rugas e a flacidez no pescoço? Sim, porque os cabelos brancos são mais fáceis de resolver. Basta retocar as mechas ou ir a uma farmácia, comprar uma tinta para engrossar ainda mais a rentabilidade da indústria cosmética sempre em curva ascendente. E, diga-se de passagem, crescimento ascendente graças a nós, mulheres, que adoramos aqueles potinhos mágicos que prometem “rejuvenescimento em trinta dias”. Quanta mentira!!! E como nós gostamos de ser enganadas…

O fato é que desde aquela noite venho dedicando tempo para estudar e refletir sobre o tema do envelhecimento feminino. Que a miserável condição humana não suporta o envelhecimento é fato: idoso lembra doença, dependência, cansaço, infertilidade, inutilidade (lembre-sempre de que, na era do consumo, nós valemos o que nós produzimos e o que nós compramos). Idoso/idosa lembra FIM. Essa condição, a que todos nós inevitavelmente chegaremos, não escolhe gênero, raça, cor. Simplesmente chega e nós queremos adiá-la sempre mais. Mas, o que mais me incomoda, é que, para a mulher, ela chega muito antes. Não que ela envelheça mais que o homem, muito pelo contrário: por se cuidar mais e se prevenir, ela tem mais expectativa de vida.

Contudo, o envelhecimento não é um direito que foi dado à mulher. Ela não tem o direito de envelhecer, porque uma vez velha, ela perde o seu “valor”. Esse fato está tão enraizado na nossa cultura que entendemos como algo natural. Um homem de 40 anos é um partidão. A mulher é uma coroa. Os cabelos brancos no homem são charme, na mulher é velhice. O sobrepeso no homem é porque ele está fortinho. Na mulher, é porque ela está gorda. Aí vem a pergunta: quem definiu esses parâmetros? São os homens que nos exigiram tanta “juventude” (leia-se pele vistosa, barriguinha no lugar, seios firmes, cabelos hidratados, bunda empinada e durinha e todo o arsenal que vem junto com a moda e as tendências) ou somos nós mulheres que exigimos de nós mesmas e das outras essa juventude tirânica e opressora? Reparem como somos críticas conosco e com as mulheres em geral. “Amiga, você viu como fulana tá acabada? Gente, ela tá uma baleia de gorda! Meu Deus, estou imensa. Pesava 60 kg agora estou com 62kg. Vestia 36, agora visto 38 (risos)”. Imagine quantas vezes eu ouvi isso como fotógrafa de família e de mulheres? E o pior, vestindo 46/44. Pensava comigo: será que ela está me chamando de gorda?

O fato é que somos cruéis demais com nós mesmas. E esse buraco em nossa alma de algum modo a gente passa para as nossas filhas, que vão passar para as nossas netas. No fundo, no fundo, a grande maioria das mulheres sofre um pouco de “gerontofobia” que se caracteriza pela rejeição à velhice e, consequentemente, aos que estão passando por ela. Cabe a nós, somente a nós, tentar inverter esse curso da história. Não se trata de deixar de pintar os cabelos, de usar os potinhos mágicos, de vez ou outra deixar uma grana alta no salão e dizer para nós mesmas: eu mereço! Isso tudo faz parte da nossa essência, do nosso ser feminino. A questão que se coloca é a exigência irracional a que muitas de nós nos submetemos. Algo de muito errado deve haver em uma sociedade onde o seio com silicone tem mais valor do que o seio que amamenta, onde a barriga sarada de uma celebridade é mais bela do que a barriga que gerou uma vida, onde o rosto cheio de botox e tratamentos estéticos tem mais valor do que as rugas e flacidez de um rosto marcado pelo tempo, pela história e pela vida com seus sabores e dissabores.

Confesso que, em toda poesia sobre o envelhecimento, há também o receio da não aceitação. Mas quando esse fantasma insiste em aparecer, eu sempre volto à imagem da vida como um quebra-cabeça. Quando nascemos, recebemos um quebra-cabeça com indefinida quantidade de peças. Cada ano vivido é uma peça que se encaixa e o número total de peças só descobrimos na hora da morte. E não há sensação melhor do que ter a imagem se montando com mais clareza, o que só vai acontecer na maioridade e na melhor idade. A gente já não quebra mais tanto a cabeça para encaixar uma peça e chega a um determinado momento em que elas parecem se encaixar sozinhas. Essa experiência eu chamo de LEVEZA.

Outro dia fotografei uma linda mulher. O quebra-cabeça já tinha 100 peças e, de forma impressionante, não lhe faltava a verdadeira juventude, entendida aqui como “alegria de viver”. É essa juventude que eu quero perseguir até que a última peça se encaixe e eu possa contemplar a imagem que se formou com a minha vida e a minha história. E, ainda que o mosaico das peças dificulte a visualização da imagem, sei que é lá na eternidade, onde não veremos mais de forma confusa e, sim, face a face (I Cor 13, 12), que a verdadeira e real beleza da Ivna será revelada!

Ivna Sá para Muitas MariasIvna Sá
Casada, mãe de três crianças, autora e professora universitária, é fotógrafa de famílias há 10 anos, profissão que descobriu com o nascimento da primeira filha. Há dois anos se dedica ao universo feminino com a criação da marca Ivna Sá Para Mulheres. Além de fotografar mulheres de diversas idades, palestra sobre a mulher contemporânea numa abordagem social, antropológica e cristã. Ivna é uma das pioneiras do Ministério Universidades Renovadas no Brasil.

9 comentários sobre “Estou ficando velha, sim, e daí?

  1. Com a idade vem sim um pouco do tempo: o corpo cai e as gengivas sobrem (como alguem já falou um dia. Não lembro quem). Mas vem a calmaria e a maturidade pra curtir as coisas a dois. “Se o amor há de passar, que ele passe bem devagar. Ao longo de nossa vida inteira”. Post para Mariana. (Voce sabe quem é!) ❤

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    1. Envelhecer ainda é a única maneira que se descobriu de viver muito tempo; e é por isso que é tão belo. Mais feliz somos ainda quando temos alguém que, assim como nós, quer envelhecer ao lado do outro para viver o amor até o final dessa vida. ❤

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  2. Meu quebra-cabeça já tem 50 peças. E a cada peça que completo, sinto como se tivesse dando upgrade na minha vida. Cada dia estou me aperfeiçoando mais, sem medo de ser feliz!

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  3. Olá Ivna parabéns pelo texto! E, como homem posso te dizer o que vale mais é a juventude que a mulher carrega internamente que faz com que suas rugas se tornem sex.

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  4. Belo texto, Ivna. Um bom alerta ante a ditadura da beleza e da jovialidade eterna tão vigente nos dias atuais. Penso que o mais importante é não nos esquecermos de que Deus tem planos para nós, apesar de nosso natural envelhecimento. Para isso, basta lembrarmos das histórias de Abrrão e Sara ou Zacarias e Isabel. Assim, apesar das rugas, muitas Graças ainda poderão nos alcançar… Obrigado pela reflexão.

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  5. Ivna, envelhecemos ou caminhamos para a eternidade desde o dia em que nascemos, a poesia do viver consiste em acolher isso com um beleza escondida a cada instante. É difícil, sem dúvida! Na ditadura da jovialidade em que vivemos é fácil demais sucumbir a essa visão tirana, reforçada pela beleza irreal de celebridades. Sigamos juntas! Sua rugas marcam não apenas seus dias, mas inúmeras e belas histórias e é muito bom fazer parte delas!

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