Ele disse que me amava e eu acreditei

Eu nunca tinha ouvido falar sobre Gaslighting e nem sabia o que era isso, apesar de já ter vivido em alguns relacionamentos. Uma pesquisa rápida e descobri que é uma forma de abuso psicológico. Sim, eu vivi e sofri esses abusos “dele”. Sim, ele já fez com que eu duvidasse da minha sanidade, ele já fez eu achar que estava errada quando estava completamente correta, ele já menosprezou meus talentos, já me elogiou e ao mesmo tempo me denegriu em questão de minutos, já fez eu acreditar que não tinha mais valor, já distorceu minhas palavras só para eu ter que me desculpar.

Ele nunca me bateu, nunca tocou em nenhum fio de cabelo meu, nunca me deixou machucada fisicamente, nunca encostou um dedo em meu corpo com o intuito de me machucar, nunca sangrei por causa dele, nunca senti o peso das mãos ou dos pés dele sobre meu corpo. Ele nunca me bateu fisicamente mas tenho tantas marcas na mente, tenho tantas cicatrizes psicológicas, tenho tantos medos que ele me causou assim como toda a dignidade que ele arrancou de mim.

Eu queria sair, ele não se importava, até apoiava. Não reclamava disso, mas reclamava das minhas roupas, dizia que eu era brega. Ele ria das minhas roupas, dizia que eram estranhas. Ele criticava minha religião. Eu dizia que queria conhecer muitos países, ele ria e dizia que eu tinha que trabalhar muito ainda. Nunca acreditava em mim. Sabotava meus sonhos com palavras sutis. Eu não sei porque dava importância para suas palavras, mas aquilo era a forma de amor que eu conhecia.

Ele quebrava copos, cadeiras, fechaduras, celulares e gritava quando estava bravo. Ele dizia que me amava. Ele nunca me bateu. Ele falava que eu era linda. Ele achava que eu tinha que aprender a ser dona de casa. Ele falava que certos comportamentos meus eram de mulher louca e que eu não prestava. Eu sempre fui muito ambiciosa e trabalhei muito. Por causa disso, ele disse que eu ia conseguir todas as coisas materiais que desejava, mas ia ficar sozinha porque nenhum homem ia me querer. Quando brigava comigo, ele dizia que era por isso que minha mãe havia me abandonado, porque eu era insuportável mesmo sabendo que esse era o assunto que mais me magoava. Ele chorava depois de me ofender e pedia perdão e eu o perdoava.

Ele dizia que eu não entendia muito bem da minha área profissional sendo que eu havia estudado anos para isso. Eu ficava me questionando se ele não tinha mesmo razão. No final, achava que ele estava certo. Ele fez com que achasse que uma das minhas melhores amigas tinha se cansado de mim: “amizades acabam, amor”. Ele dizia que amigos de verdade se importavam e que os meus eram só “da boca para fora”. Mas como ele sabia disso se nem amigos ele tinha? Mas eu acreditei porque ele dizia que me amava. Ele dizia que todos os homens só queriam sexo comigo, somente ele era diferente porque me amava. Foi meu aniversário e ele ignorou o fato justamente por achar que só por ele estar comigo já era motivo para eu estar feliz.

Ele achava que depressão era frescura e uma desculpa para os “erros que eu cometia”. Ele fazia questão de me chamar de louca em toda briga e sempre que possível. Isso me deixava muito mal! Ele nunca me bateu, mas tinha um ciúme doentio por mim, me humilhava na frente dos amigos. Dizia que eu era uma vadia e que eu dava liberdade para todo mundo. Ele não me deixava fazer faculdade à noite para poder trabalhar durante o dia. A faculdade tinha que ser de dia e eu não podia trabalhar fora. Ele fazia questão de sempre dizer que me sustentava. Ele nunca me bateu fisicamente, mas ele me arrancava a dignidade diariamente. Ele dizia que queria construir uma família comigo, mas que para isso eu teria que mudar minha postura.

Ele nunca me chamou para o natal com a família dele. Ele ocultava de mim as festas na casa dos amigos dele, fazia isso para que eu não fosse e ficasse em casa. Dizia que eu era uma mulher e que gostar de desenhos, mangás e vídeo game era coisa de criança e que mulher de verdade não era ligada a essas besteiras. Parei de mostrar que gostava para que ele não reclamasse. Quando terminamos fiquei com depressão, tendo crises de ansiedade e ele dizia que eu fazia isso para chamar sua atenção, que eu não tinha nada, que era “frescura” minha e essa a minha forma de mantê-lo ao meu lado! Ele fazia questão de me chamar de louca em todas as brigas, dizia que eu era bipolar como a minha mãe e isso me deixava muito mal!

“Ele” são vários: “ele” é seu vizinho, é seu pai, é seu namorado, é seu marido, é seu irmão, é seu amigo, é seu conhecido. “Ele” pode ser qualquer pessoa, seja homem ou mulher.

*Esse texto foi baseado em vários relatos com que tive contato.

thayse lopes

Thayse Lopes

Jornalista por formação, fotógrafa por paixão. Descobri que é possível praticar boas ações todos os dias, descobri que meu papel no mundo é servir. Autora do blog www.tivesindromedopanico.com.br

5 comentários sobre “Ele disse que me amava e eu acreditei

  1. Thayse,
    Que muitas mulheres tenham coragem de buscar sua liberdade, seja psicologia, física ou intelectual.
    Sejamos livres na alegria de Se Mulher.

    Obrigada por esse texto tão profundo!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Muito obrigado pelo seu relato Thayse! Tenho certeza de que muitas outras mulheres (e, de repente, até mesmo homens) devem sofrer este tipo de abuso. Com o seu texto — e corajoso relato — é mais fácil de perceber este risco nestas situações que, aparentemente, não são danosas. Abraço!

    Curtido por 2 pessoas

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