Uma Semana Maior Que Eu

Aprendi com minha avó paterna a chamar a Semana Santa de Semana Maior. Desde muito pequena, sempre ouvia esta expressão da parte dela, mas não compreendia muito bem. Com o passar do tempo fui compreendendo intelectualmente o que ela queria dizer, mas foi apenas aos 17 anos de idade, que comecei a experimentar o significado dessa expressão, SEMANA MAIOR, e desde então, cada ano tem sido uma experiência significativamente diferente! Para os cristãos, nessa Semana Maior, rememora-se a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo; eu, como católica, vivo esse momento através das celebrações da Igreja, mas também por meio das reflexões e experiências pessoais. E esses momentos – paixão, morte e ressurreição – fazem parte de nossas vidas; todos passamos por eles.

Como exemplo disso, me lembro da experiência que vivi em uma Semana Maior de 2012. Nessa época, meu pai – até então um homem muito saudável, que nunca estivera internado por qualquer enfermidade – sofreu um AVC isquêmico e passou vários dias hospitalizado. Na segunda-feira da Semana Maior, dois dias após a minha chegada de viagem, ele teve alta hospitalar e foi para minha casa. Ficamos todos imensamente felizes pelo fato de podermos passar a Páscoa todos juntos, em casa. O Calvário prosseguiu com a necessidade que tivemos de convencer meus pais que eles não poderiam mais retornar para a casa deles, no sítio onde residiam sozinhos, a duas horas de Maringá, onde resido, por conta do acompanhamento médico rigoroso que passaria a ter que adotar e todo o tratamento. Com muito custo eles se convenceram que era necessário ficarem conosco, ao menos por um bom tempo.

O AVC havia acometido a parte cognitiva do cérebro do meu pai e ele já não conseguia mais reconhecer letras, números ou cores por exemplo. Minha filha caçula, então com 10 anos, passou a gastar parte do seu tempo diário a fazer joguinhos e ensinar o vô a reaprender o que ele já não conhecia e muita coisa se passou nesse tempo. Na quarta-feira daquela mesma semana, entramos numa nova e dolorosa estação da nossa via crucis em nosso calvário. Naquela noite meu pai sofreu um novo episódio de AVC, muito mais severo, que tomou praticamente todo o seu cérebro e ele passou muitos dias em estado gravíssimo na UTI. Depois disso ele ainda permaneceu por muitos dias no hospital tratando uma pneumonia e quando teve alta, retornou para casa completamente acamado, sem poder andar, precisando de ajuda para se alimentar e tempos depois soubemos que também acometido por uma super bactéria que fez grandes estragos em sua saúde.

Ele acabou perdendo também a sua capacidade de julgamento, falava e fazia coisas sem se preocupar com nada, xingava as pessoas, tentava morder ou agredir quando estava sendo manipulado para os tratamentos e devido a tantas outras atitudes, fomos obrigados a contê-lo, mantendo suas mãos amarradas à cama. Isso para mim era extremamente doloroso. Certa vez perguntei se ele aceitaria tomar um suco e ele disse que sim. Preparei o suco com todo carinho e o levei para ele. Sentado na cadeira de rodas, ofereci o copo de suco para que ele tomasse no canudinho; ele, então, disse que queria segurar com sua própria mão. Coloquei o copo na sua mão e esperei que começasse a beber quando, repentinamente, ele arremeçou o suco que estava no copo contra mim, atingindo-o bem no meu rosto. Meu filho que estava ao lado segurou o braço dele e quis esbravejar, mas não permiti, explicando que não era contra mim que ele queria fazer aquilo, mas contra a situação que estava vivenciando. Foi muito doloroso para meu filho ver o seu avô sempre tão educado e respeitoso tendo uma atitude daquelas “desmotivadamente”.

Sua situação foi se agravando, sua saúde se debilitando, foram inúmeros retornos ao hospital e cada dia mais tudo ia se complicando. Foi, então, quando começaram a abrir as escaras (ferida ocasionada pelo longo tempo acamado). Cada vez que ele voltava dos internamentos elas estavam maiores, devido à super bactéria sua pele se tornara extremamente sensível e começava a abrir pequenas feridas por todo lado. Diariamente, após o banho, passávamos cuidando de cada um daqueles ferimentos e ele os suportava sem gritar, apenas pedindo baixinho que parássemos de mexer com ele, mas não podíamos. Aquilo era imensamente doloroso para mim, mas eu precisava fazer, pois minha mãe caía em prantos e não suportava ajudar, então ficávamos eu, meu esposo e meus filhos cuidando. Não foram poucas as vezes que eu fiz aquilo chorando, era como se ali estivesse Jesus e, naquele nosso calvário familiar, eu podia tocar e cuidar das suas chagas no corpo ferido do meu próprio Pai.

No dia 11 de março de 2013 nos deparamos com uma nova e inesperada estação da nossa via crucis, muito dolorosa, quando minha mãe, até então saudável e ajudando-nos a cuidar do meu pai, sofreu um enfarto fulminante e, naquela mesma madrugada, repentinamente, fez sua Páscoa definitiva. Como foi dolorosa essa estação para nós! Nessa fase meu pai já não mais reconhecia ninguém e nem pôde participar do seu sepultamento, mas com certeza sentiu a sua ausência física ao lado dele todos os dias, o dia todo. Os dias seguintes foram muito complicados, meu pai ficou muito agitado e, às vezes, custava para dormir. Rezávamos com ele, tentávamos tranquilizá-lo, mas ele se agitava bastante, então comecei a colocar algumas músicas para tentar acalmá-lo e notei que ele gostava de ouvir e se tranquilizava especialmente com a canção da Celina Borges “Nas asas do Senhor”. Exatamente 15 dias depois, no dia 25 de março de 2013, na segunda-feira da Semana Maior, às 15h15, quando eu acabava de rezar o Terço da Misericórdia em casa, ligaram do hospital informando que meu pai havia feito a sua Páscoa definitiva.
Nós o sepultamos no final da manhã do dia seguinte, todos entoando a canção “Nas asas do Senhor”, finalizando ali aquela nossa via crucis, daquela tão especial Semana Maior de nossas vidas.

Na noite da Vigília Pascal, no meio da celebração, com meu coração em luto pela passagem dos meus pais, meu coração quis se encher de tristeza dizendo ao Senhor que aquela era nossa primeira Páscoa sem eles, mas imediatamente ouvi em meu coração que não, que deveria me alegrar porque aquela era a Primeira Páscoa dos meus pais no lar eterno e que eu estava ali para celebrar a Ressurreição e a Vida e não o luto e a morte! Havíamos vencido aquele calvário e, como Maria, que havia passado por todo o sofrimento e a dor do calvário, estado aos pés da cruz de seu Filho crucificado, recebido seu corpo sem vida em seus braços e o sepultado, tinha a certeza que não estava tudo acabado ali. Ela conservava em seu coração a certeza da Vitória e a Esperança nas Promessas de Deus, também eu podia e devia acreditar nessa mesma Promessa e nessa mesma Vitória, a Vitória da Vida, a Esperança do reencontro. Assim meu coração se encheu de alegria e esperança e assim tenho vivido cada dia e celebrado a cada ano a Semana Maior.

Feliz Páscoa a todos e que a nossa Semana Maior se perpetue com frutos de amor para cada Maria que sofre suas dores hoje neste mundo, na certeza de que há esperança, vitórias e vida para cada uma de nós.

iere

Ierecê Jussara Correia Gilberto

Advogada por formação, Missionária por decisão, esposa, mãe de três filhos maravilhosos.

6 comentários sobre “Uma Semana Maior Que Eu

  1. Ierece seu testemunho, além de comovente, traz presente o calvário de Jesus. O que você passou com seus pais é respeitada a proporção, o que Maria passou com Jesus. Seu testemunho nos faz pensar sobre a vida, sobre nossa passagem e sobre a Páscoa que vamos ter, com nossos queridos e um dia a nossa. Obrigado por compartilhar sua história de vida, testemunho de fé e amor. Um gde abraço do Antonio e da Sonia

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  2. Obrigado pelo seu testemunho Ierecê! Seu testemunho nos leva há um mergulho em Deus que para chegarmos a Páscoa definitiva, temos que passar pela Paixão e Morte, e nesse Amor tremendo de Deus por nós termos a força necessária para continuar, quando cair, levantar e principalmente amar. Um forte abraço! Miguel

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  3. Nossa Ierece muito lindo seu depoimento…
    Viveu na prática a verdadeira Missão…
    Essa semana ouvi a música “Nas asas do Senhor” repetidamente… Ela também me faz calma….
    Feliz Páscoa pra você e toda sua família!!
    Ele vive!

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  4. Linda e comovente história!
    Eu também Vivi uma história muito parecida com a sua, também com os meus pais e realmente senti novamente tudo isso que vc expressou em suas palavras.
    Obrigada por me fazer relembrar tudo isto e refletir neste momento estas palavras.
    Feliz páscoa!

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  5. olá,
    achei emocionante o seu testemunho. Eu também vivi dois momentos que foram marcantes na Páscoa: em 2003 o meu irmão esteve adoentado com depressão, Graças a Deus fez tratamento e ficou ótimo; em 2006 o meu pai sofreu um infarto permanecendo internado na UTI na semana Santa, Graças a Deus após 15 dias saiu do hospital com 2 stents. Todos os anos eu agradeço pela vida e saude da minha família.

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