Sobre a falta de noção nos casamentos

Quem não tem alguma história absurda sobre casamento, seja no seu, seja como um dos convidados? São tantos detalhes, tantos preparativos que daria pra fazer vários textos sobre esse tema. Neste primeiro da série,  vou me deter a um deles: as listas.

Quer um “trem” que tem mais listas do que casamento?

Tem a lista de convidados, por onde tudo começa. No mundo ideal, e na primeira versão, a lista dos que receberão aquele convite lindo tem 500 pessoas. Depois do choque de realidade com os preços de um casamento com festa hoje, você  retira os que não ligaram no seu aniversário , os que são amigos dos pais e não seus, os conhecidos que você não é obrigada, e a lista pode render uma grande ou pequena discussão com o noivo, com a sua família, com os sogros. E, de verdade, não conheço nenhuma história de casamento que não teve uma conversa do tipo “amor, vamos ter que cortar essas pessoas”, ou então “eu corto 20 e você 20”, ou,  no meu caso “mãe, não dá pra chamar todo mundo que você conhece”.

Vencida essa lista, após cortes e cortes,  chega a lista de tarefas (aliás, essa poderia ser a primeira, antes dos convidados). Orçar convite, visitar fornecedor, marcar na igreja, provar terno, escolher vestido, ter ou não ter daminhas, ver roupa das daminhas, prova de doces, de salgados, de frios, de quentes, entregar os convites em mãos, despachar os do correio, marcar com os músicos, com o dj, ufa, já cansei só de lembrar que a minha lista de tarefas semanais desde que fui pedida em casamento parecia que não acabava mais. E, a cada evento de noivas que você chega (SIM, porque o mercado de casamentos hoje, nas grandes cidades, realiza dezenas de eventos para que as noivas e suas famílias conheçam diferentes fornecedores), abre-se um mundo de possibilidades, com novos itens “essenciais”,  provinhas, modelos e apetrechos – quando era noiva, fui a exatos 18 eventos de fornecedores de casamentos em oito meses. Sim, fui uma noiva neurótica (e quem não foi, em alguma medida?). O céu é o limite se você não tiver a grana curta, ou alguém que banque tudo, dá até pra construir um castelo só pro dia do SIM. (obviamente não foi meu caso, uma das tarefas de nossa listinha era pagar parcela disso, quitar aquilo).

Mas, voltando às listas. Depois vem a lista do chá. Ou dos chás.  

Na época da minha mãe, que se casou na década de 80 do século passado (parece longe, né?),  era o chá de panela, cada amiga levava uma lembrancinha pra cozinha do futuro casal: um rodinho de pia, um escorredor de macarrão, uma travessa de vidro, panos de prato. As amigas e os amigos se reuniam, faziam umas brincadeiras  como adivinhar o presente ou pagar um mico escolhido pelos convidados (parece bobo,  mas faz parte e quando se é a noiva e o noivo, a gente gosta), todos comiam comidinhas simples, tinha vez que um levava um salgado, outro um refri ou cerveja e, depois, só viam os noivos de novo para festejar no dia do casamento.

Hoje a lista do  chá de panela permanece. Mas, em alguns casamentos, perdeu o caráter de confraternização e passou a ser “chá de presentes caros que os noivos querem ter em casa, mas não têm coragem de gastar com isso”. Então se organiza uma festa enoooorme,  com lista de presentes naquela loja caríssima, intimando a todos para, simbolicamente, dar uma travessa de inox que, pelo preço,  só falta ter wifi. E não necessariamente você entrega o presente, nem tem as brincadeirinhas mais, porque os convidados vão dar o presente em cotas ( sim, você paga, por exemplo, 300 reais num passeio de camelo em Dubai ou numa massagem para os pés com flores do campo da Guiné).

A lista do chá de panela pode ser mais refinada ainda, quando ele se transforma em  chá bar com participação dos amigos, num quase mini casamento com bolo, lembrancinha, música ao vivo e mais uma listinha para os presentes (online, claro).

Tem ainda o  Chá de lingerie – com as amigas da noiva, que contratam gogo boys, a tia que ensina como enrijecer a ppk (vulgo vagina)  para a lua de mel, a obrigatoriedade de se trazer uma lingerie (e das  boas, pois a lista de jogos de calcinha e sutiã – mais uma – está na loja de grife, amigas). E não pense em levar um jogo de calcinha e sutiã confortável porque, ao abrir os presentes, virá um show de quem deu a calcinha que vai ficar mais sexy, mais enfiada, mais provocante  etc e tal (como se a gente usasse esse tipo de lingerie todo dia e precisasse de uns 30 conjuntos fio dental de onça com renda, seda e transparência).

Calma que não se acabaram as listas! Tem a listinha  da  despedida de solteiro/a, que pode ser num bar, em vários bares (contratando van pra levar a galera de esquina em esquina), fechada num quarto de hotel/motel, numa viagem, numa boite, ou onde mais a criatividade mandar. É o momento  de se esbaldar, afinal, a noiva e o noivo oh-la-la sairão (em tese) pela última vez com seus amigos, depois tudo só com o marido e a esposa (há controvérsias, afinal, casamento não é prisão). Com essa lista virá  a lista de vexames que se faz o noivo ou noiva passar.

Enfim, enumerei algumas listinhas não porque seja contra as comemorações, considero digno, é justo,  divertido, já participei de momentos hilários com minhas amigas seja no meu casamento ou no delas, com cenas que muita gente censuraria dependendo do horário em que você lê este texto.

Mas essas listinhas não devem ser uma  imposição dos noivos, que precisam ter bom senso; afinal, cada um conhece a realidade dos amigos que têm. Ou pelo menos deveria conhecer.   

As pessoas já gastam com presente de casamento, e foi-se o tempo que nas listas -mais uma- havia presentes para AJUDAR o casal a começar a vida. O povo está mobiliando a casa colocando tudo do bom e do melhor em listas que pedem de edredom de 2500 reais a videogame de 4 mil. Conheço quem teve que bancar o chá de panela inteiro com as outras madrinhas e padrinhos para dezenas de convidados dos noivos.  Faz sentido?

Claro que quem quiser e puder vai presentear bem, mas me parece uma indelicadeza com os convidados que não podem, ou não querem se endividar para entrar nesse tanto de comoração e listas que não acabam mais.

E quando se é padrinho, ou madrinha, em nossa cultura tem-se  uma expectativa de que os melhores presentes serão os mais caros, e serão dados por essas pessoas. Tem gente que escolhe padrinho por causa de presente, é triste, mas é verdade. Padrinho de batismo também (mas esse é tema pra outro artigo).

Constrangida, já deixei de ir a casamento porque tive medo da lista. Eu não podia gastar tanto, e nenhum presente era acessível pra mim naquele momento. E eu não fui. Simples assim.

Hoje avalio que fui boba, deveria ter ido e comprado algo fora das listas e que coubesse no meu bolso, afinal, o  mais importante do casamento começa depois que a festa acaba.

E vocês,  também se sentem constrangidos em meio a tantas listas? Já passaram algum apuro?

 

17 comentários sobre “Sobre a falta de noção nos casamentos

  1. Olá Mariela, tudo na paz de Deus? Adorei o seu texto e concordo com muita coisa nele: abaixo a ditadura de presentes caros e de listas caras. CHEGA! Isso tem que parar! Uma palavra de Deus para nossos amiguinhos refletirem sobre o dinheiro: Timóteo 6:10. Abraço.

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  2. Mari, arrasou! hahaha Aguardando ansiosa a continuação dessa saga. Se eu fosse me casar hoje, e sempre falo isso para meu marido, minha lista de convidados cairia pela metade. Até a de padrinhos…
    Já vi noiva fazer uns 5 tipos de ‘chás’ para arrecadar presentes e depois trocá-los. Grotesco!
    O pior é o pós casamento. Penso que já já inventam um chá lua de mel (com lista) para ajudar pagar os gastos com a festa de casamento.

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    1. OI Simone,
      que bom que gostou!
      Essa do chá de lua de mel é tenebrosa… mas já existe, é o tal de cortar a gravata no meio da festa pra constranger os convidados no “quem dá mais”.
      Te convido a escrever a saga comigo, ora bolas! Sobre casamento, é muito assunto pra uma pessoa só descrever! Topa?

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  3. Ótimo texto ! Ri mmuito..Me lembrei do meu ,anos 80. A lista de padrinhos era grande na época. Tudo mais tranquilo….só o bastiterio me deu trabalho. (Comprovante de batismo)rsrsrs.Hoje,Tanta pompa e muitos separam logo….. Mais essência e menos aparência! !!

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  4. Pelo visto tive muita sorte na minha festa de casamento. Como moro na Inglaterra, os convidados sabiam que nao temos casa no Brasil e que nem tinha como trazer presentes grandes… Resultado, ganhamos de presente as coisas da festa. Um deu o bolo, o outro o salgados, a iluminaçao, as flores…. Foi ótimo!! Resolvi tudo da festa em 4 dias 😀, mas nao me casei na igreja. Bjos Mari, ótimo o seu texto.

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    1. OI Kelly,
      tudo bem?
      Que bom que gostou do texto!
      nossa que idéia legal, os convidados pagarem a festa! Eu tenho visto também as pessoas que, após o casamento, vão direto para uma churrascaria, um rodizio e cada um paga o seu!
      Que tal contar pra nós suas histórias na terra da rainha?
      Um abraço e paz

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  5. Mary,

    Amei demais esse texto 🙂
    Ri muito e quer saber? Concordo plenamente com você!
    Eu por exemplo casei só no civil..toda vez que começo a cotar a festa de casamento, desanimo com os valores super altos (prefiro investir na viagem de lua de mel..rsrsrsrs)…
    O objetivo maior deve ser a união do casal perante Deus, certo? E a festa (que nem é essencial) tem que ser uma consequência disso, não ao contrário..
    Continua escrevendo sobre esse tema? To curiosa sobre o que está por vir..
    Beijos,

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    1. Oi Tassi, que bom que gostou do texto!
      Pra quem vai fazer festa de casamento, o céu é o limite, é preciso bom senso senão, se gasta o que tem e o que não tem!
      Sim, vou escrever mais sobre outras situações da preparação para o casamento!
      Aguarde!!!!!!!
      Bj , paz e bem!

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  6. Amei o depoimento, na verdade eu penso que a essência dessa data tão importante, está acabando aos poucos, dando espaço para o mundo consumista e capitalista que virou essa data.

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