O vírus da Paralisia Social Generalizada não pode ser maior que o Brasil

Era mais uma daquelas conversas cotidianas, mais precisamente um dia depois de o Brasil ir mal em um jogo das eliminatórias para a Copa do Mundo. Entre uma prosa e outra, escuto: “Quer saber, quero mais é que o Brasil seja logo eliminado da Copa e que não tenhamos nenhuma medalha na Olímpiada”. Aí eu parei, pensei e disse: “Calma, porque os atletas não têm nada a ver com essa lama (referindo-me aos escândalos de corrupção). São pessoas que estão treinando duro para realizar o sonho de uma medalha olímpica, ainda mais numa competição realizada no próprio país.”

Esse comentário e tantos outros que a gente escuta aqui e ali me fizeram concluir que a nossa nação está doente e essa doença é, ao meu ver, mais grave do que a própria corrupção, por causar o que resolvi chamar de Paralisia Social Generalizada. Sabemos que, quando uma pessoa atravessa um problema grave, ela deve enfrentá-lo, mas sem se esquecer de que o mundo não gira em torno do problema. Ela precisa respirar outros ares, buscar novas alternativas, se reinventar. Ela precisa conhecer outras pessoas, conversar outros assuntos, esfriar a cabeça, sob pena de enlouquecer e não encontrar mais sentido na sua própria existência.

Estamos doentes e, embora a causa dessa doença seja diversa, existe um mecanismo social que funciona como o proliferador desse vírus, como a água parada onde se depositam as larvas do Aedes aegypti. E para explicar essa premissa, vou recorrer à Teoria do Agendamento ou Agenda-setting, elaborada por Maxwell McCombs e Donald Shaw, em 1972. Segundo essa teoria, a mídia determina a pauta para a opinião pública, quando destaca determinados temas e ignora ou ofusca outros tantos.

Em poucas palavras, a mídia determina as conversas do cotidiano, ou seja, em que ou em quem devemos pensar e sobre o que vamos falar. Enquanto escrevo esse artigo, recordo-me de um fato curioso ocorrido no ano passado. Minha filha mais velha chegou em casa com um bilhete da escola que tratava de uma excursão para o estado de São Paulo. Aí a filha do meio (na época com 5 anos) disse: “Deus me livre de ir para São Paulo”. “Por que Amandinha?”, perguntei. “Uai, mãe, porque lá não tem água, coitado daquele povo”. Quem não se lembra do exaustivo noticiário dos níveis de água do sistema Cantareira?

Não estou propondo aqui uma visão romântica da sociedade, negligenciando assuntos de relevância como os que estão em pauta, até porque é função da imprensa informar e essa é, inclusive, a minha formação. A grande questão é falar somente disso ou daquilo e a forma como se fala. Por exemplo: todos os dias aumentam os índices de desemprego. Aí vemos reportagens que dramatizam histórias que já são dramáticas por si só. É o jornalismo do espetáculo carregado de emoções assim como na dramaturgia. Por que não mostrar também as possibilidades? Contar histórias de pessoas e empresas que estão driblando as dificuldades e se reinventando.

Fala-se que o Brasil está vivendo a maior crise de sua história. Tenho minhas dúvidas, porque me lembro bem do período da inflação, dos meus pais fazendo verdadeira mágica para criar os quatro filhos, do dinheiro que foi levado da poupança. Será que não poderíamos saber, por meio dessa mesma mídia, o que as grandes potências fizeram para driblar a crise pela qual passaram na última década? Poxa vida! Nós somos uma nação forte, nós temos um povo criativo e acolhedor, nós temos tantas riquezas naturais, graças a Deus não sofremos males como o terrorismo e guerras civis como as que assolam tantos países da África e da Ásia. Contudo, ao ver o noticiário a sensação é de que estamos no pior lugar do mundo.

E essa avalanche de notícias sempre na mesma direção vai nos paralisando sem que nos demos conta. Eu sou uma microempresária, micro mesmo. Somos uma pequena equipe de quatro pessoas, uma delas é o meu marido e sócio. Se eu disser que estamos em nosso melhor momento e que a crise não afetou o nosso negócio estaria sendo, no mínimo, hipócrita. É claro que afetou e que não tem sido fácil fazer a mágica mensal para dar contar de pagar todas as contas. Mas o que podemos fazer? Só temos dois caminhos: ou nos reinventamos buscando retirar tudo que for possível desse momento ou morremos. E, felizmente, não temos o direito de morrer. Não podemos sequer cogitar essa ideia, até porque temos três filhos.

Vejo mães adiando o sonho da maternidade por causa do Zika, outras em pânico com medo de seus bebês pegarem H1N1, empresários que não investem, pais de família desesperados com as dívidas, um medo de sair de casa porque aumentaram os índices de violência e por onde você passa só se ouve falar de crise. Assim não dá. Não dá para seguir, para caminhar, para insistir. Muito pelo contrário, o caminho acaba sendo inverso: o de parar, o de desistir. Uma dose de otimismo sempre faz bem. Passar pela doença, pelo problema, pela crise é sofrível mesmo. Mas tudo passa. É assim a dinâmica da VIDA. E se não acreditarmos nisso, confesso que tudo perderia o sentido.

Dengue, Zika, microcefalia, Chikungunya, crise política, recurso que vai e que vem, lava jato, corrupção, crise econômica, desemprego, inflação, violência, impunidade, impeachment, pão com mortadela, coxinha e a volta da H1N1. Sobre o que temos conversado? O que tem ocupado os nossos pensamentos? Quais têm sido os nossos maiores medos? Muito provavelmente você vai encontrar respostas em pelo menos uma dessas palavras. Contudo, preciso lembrar que pessoas seguem morrendo de acidentes de trânsito ou de problemas cardíacos, a crise da água não se resolveu, as cracolândias de nossas cidades estão aí. Problemas sempre existiram e sempre vão existir. E o que faremos com eles?

Eu não tenho as respostas, creio que ninguém tem. Mas acreditem, eu sigo acreditando no meu país. Que tal se entrássemos no clima olímpico e sonhássemos com o podium, antes de a mídia começar a falar só de olimpíadas? Mas, para isso, teremos de treinar muito. Teremos de ensinar o coração bater mais forte, exercitar as pernas para darem um salto mais alto, treinar as mãos para fazerem a cesta, fortalecer os braços para remarem contra a maré… Se não vier a medalha, ainda que utópica, não há problema. O que vale, no fim das contas, é o caminho para se chegar até lá e o sonho que nos move para não desistir. O vírus da Paralisia Social Generalizada não pode ser maior do que o Brasil.

Ivna Sá para Muitas MariasIvna Sá
Casada, mãe de três crianças, autora e professora universitária, é fotógrafa de famílias há 10 anos, profissão que descobriu com o nascimento da primeira filha. Há dois anos se dedica ao universo feminino com a criação da marca Ivna Sá Para Mulheres. Além de fotografar mulheres de diversas idades, palestra sobre a mulher contemporânea numa abordagem social, antropológica e cristã. Ivna é uma das pioneiras do Ministério Universidades Renovadas no Brasil.

5 comentários sobre “O vírus da Paralisia Social Generalizada não pode ser maior que o Brasil

    1. Somos uma potência minha querida Veridiana Nilson…Um classe política corrupta presente em todos os partidos não pode nos roubar essa certeza. Não pode não vai!!!! Afinal, Deus é brasileiro!!! Risos

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  1. Com certeza Ivna, o que o povo brasileiro precisa é acreditar que é possível um mundo melhor e que cada cidadão é responsável por isso. O que não pode é paralisar e sentar à “beira do caminho pra ver a banda passar”. É preciso se reposicionar e encontrar novos caminhos. Parabéns pelo texto!

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