Tributo a uma mãe

Sabe aqueles encontros nada por acaso que acontecem na vida da gente? Assim foi o meu encontro com a Daniela, a mãe/mulher/esposa que conheci no ano passado. Ela viu no facebook um comentário de uma amiga a respeito de uma foto de criança feita por mim e resolveu mandar uma mensagem inbox para saber se eu fazia um book para ela marcar os seus 40 anos. Ela mal podia imaginar que eu fotografava mulheres e que sou apaixonada em contar histórias recheadas de vida, amor, sonhos e superação!

Marcamos um encontro antes do ensaio e aquela conversa durou muito mais do que o tempo previsto. Não era para menos. Daniela rasgou seu coração diante de mim, contando-me os detalhes de uma história de muita dor e, essencialmente, de amor. Fiquei tão envolvida e tão tocada com a sua força que disse a ela: um dia eu vou escrever a sua história para que todas as mães possam sentir o que eu senti ao ouvir você. E esse dia chegou! Neste Dia das Mães, poderia homenagear muitas mulheres que são merecedoras e dignas dessa homenagem, mas peço licença inclusive para a minha mãe, para fazer um tributo à Daniela, a mamãe do Dudu.

Daniela casou-se e, como grande parte das mulheres, desejou ter filhos. Depois de muitas tentativas sem sucesso, resolveu fazer inseminação, o que resultou em uma gravidez de trigêmeos. Contudo, com dois meses e meio da gestação perdeu os três bebês. Após o trauma, decidiu adotar uma criança. Quando o processo estava quase acertado, ocorreu um problema que inviabilizou a adoção. Mas a melhor notícia ainda estava por vir, já que naquele ano engravidaria do seu filho, Carlos Eduardo. O Dudu nasceu no dia 19 de novembro do ano 2000.

Menino forte, saudável e que amava os esportes. Aos 12 anos de idade, fazia hipismo, judô e natação. E foi justamente nesta idade, mais precisamente no dia das mães de 2012, que, voltando da casa de sua ex-sogra onde fora buscar o filho, Dudu pergunta à mãe se ela iria doar os órgãos dela quando morresse. Ela desconversou, mas ele insistiu na conversa e disse: “Mãe, quando eu morrer quero doar todos os meus órgãos.” Qual mãe renderia um assunto desses? E os dias se passaram…

Vez ou outra Dudu reclamava de umas dores de cabeça. Havia suspeita de ser o uso dos óculos ou de uma enxaqueca. Bastava medicar com analgésico e a dor passava. No dia 17 de julho, chegou a levar o filho ao hospital. Foi medicado como de costume, dessa vez também com um remédio para enjôo, devido à náusea decorrente da dor de cabeça. Dudu dormiu como um anjo e, no dia seguinte, enquanto brincava com uma amiga, por volta das 14 horas, sentiu fincadas fortes na cabeça. Desesperada, a mãe correu do trabalho para a casa, tentando chamar a ambulância, até que às 15 horas ele deu entrada em um hospital mais próximo de sua casa e, já ali, teve notícias de que o caso era muito grave. Na mesma noite Carlos Eduardo foi transferido para outro Hospital, fez uma ressonância que constatou um Acidente Vascular Cerebral. Se sobrevivesse, muito provavelmente teria sérias sequelas como perda de visão, fala e mobilidade.

Em meio àquele turbilhão de fatos e sentimentos, Daniela foi medicada para que desse conta de passar por aquela noite. Na manhã seguinte, ela e o ex-marido foram chamados pela equipe médica. Ali estavam pediatra, neurologista, cirurgião, psicólogo, assistente social e, assim, ela recebia a notícia que deixaria em sua vida o buraco mais profundo e dolorido que um ser humano pode experimentar: “Seu filho teve morte cerebral. Não há mais nada a ser feito”. Sem dar conta sequer de assimilar o fato, Daniela reportou-se apenas ao pedido do filho no dia das mães e disse: “acionem o MG Transplantes porque ele vai doar todos os órgãos compatíveis.” Nessa hora, o pai de Dudu se surpreendeu com a fala de Daniela, porque naquele mesmo dia das mães, ele havia feito o mesmo pedido para o pai, sem que ambos soubessem.

Ocorre, porém, que entre a beleza de uma criança doar os órgaõs, fato raríssimo de ocorrer, e a burocracia necessária até que se encontrem os receptores compatíveis, existe um caminho de dor que os pais precisam suportar e que sem a força do Alto não dariam conta de viver. Do anúncio da morte feito às 9 horas do dia 19 de julho ao dia da cremação, passaram-se três dias. Imagine a dor de uma mãe de ver o seu filho vivo/morto por três dias. A testa gelada e o restante do corpo aquecido e ligado em aparelhos para que não houvesse falência dos órgãos. Somado a isso, preenchimento de questionários, autorizações e diálogos difíceis e protocolares exigidos no processo.

Resolvida a burocracia e tendo encontrado os receptores, o médico do MG Transplantes disse para a mãe: “É chegada a hora de despedir do seu filho, porque ele precisa ir para o bloco cirúrgico.” Daniela ajoelhou-se no leito onde estava o seu Dudu e desabou. Ao escutar o coração do filho que batia perfeitamente, lembrou-se do dia em que fez seu primeiro ultrasson. “Aquele som era o mesmo. Na chegada e na partida, o seu coração batia na mesma  intensidade”. O médico a abraçou, chorou e disse: “Mãe, seu ato é muito sublime.”

A família não pôde ter acesso aos receptores. Sabe-se apenas que foram doados o fígado, os dois rins, a pele e as duas córneas. O tempo passou e Daniela, que já estava casada novamente, pensou em engravidar. Mas passados alguns meses, ela teve uma forte embolia pulmonar e precisou tomar anticoagulantes por seis meses. Com isso, o risco de uma trombose no parto ou na gestação era altíssimo, impossibilitando uma nova gravidez. Daniela completou 40 anos ano passado e, na ocasião, lembrou-se de que havia prometido ao filho que faria uma festa linda e um ensaio de fotos para comemorar a data. Sem a alegria necessária para se fazer uma festa, pelo menos as fotos desejou fazer. “Ivna, eu preciso marcar a minha vida. Eu estou viva, eu estou de pé. Faço as fotos por mim e pelo meu Dudu. Por mais que me doa, eu sei que um dia eu vou abraçá-lo novamente. Ele cumpriu a sua missão, que talvez tenha sido salvar seis vidas. Eu ainda não cumpri a minha. Eu preciso seguir.”

Ao ouvir as palavras da Daniela, meu coração transbordava! Ficava a pensar nos meus filhos, na possível ausência e o simples fato de pensar sobre isso, me parecia insuportável. A Daniela participa de grupos de mães no facebook que passaram pela mesma experiência. Poucas dão conta de seguir. Muitas se suicidam, outras se rebelam contra Deus e contra a vida. O trauma provocado pela perda de um filho deixa tanta dor na alma que, sem o suporte dos amigos e a fé em Deus, é impossível dar conta de viver. Entre lágrimas e a voz embargada, Daniela recordou um fato ocorrido meses antes de seu filho partir. Houve um evento na escola em que os alunos apresentavam o livro que haviam escrito na disciplina. Cada um tinha o seu livro impresso. Tomada de compromissos na empresa que trabalhava e tendo visto o recado na agenda do filho, apenas na véspera, Daniela não foi. Ao chegar em casa, o filho disse: “mãe, olha aqui meu livro. Você foi a única mãe que não foi.”

“Trago além da dor da perda, a dor da culpa por esse dia. Tudo que eu queria era ter uma reunião de escola para ir, uma casa com brinquedos espalhados, uma viagem para fazer, um tempo para sentar e brincar com ele. Nada disso eu tenho mais.” Sabe, Daniela, você não tem mais essas tarefas que nos consomem, mas tem uma força dentro de você, tão rara, tão genuína, tão intensa que pode ser ponte para todas nós. Ponte para o perdão, para o diálogo, para a redescoberta da maternidade, para a reflexão acerca das nossas escolhas, muitas vezes tão vazias. Com a dor do parto, você gerou uma vida. Com a dor da partida, gerou seis. Isso é magnífico, é digno de um tributo, é reflexo de quem sabe essencialmente o que é AMAR.

Obrigada por me permitir contar a sua história! E que ela alcance muitas vidas que carecem de sentido, que se perderam nos supérfluos do cotidiano ou que ainda não compreenderam que só é eterno o que nasce do Coração de Deus.

Crédito da foto de abertura: Ivna Sá.

Arte daniela e dudu 2.jpg

Ivna Sá para Muitas MariasIvna Sá
Casada, mãe de três crianças, autora e professora universitária, é fotógrafa de famílias há 10 anos, profissão que descobriu com o nascimento da primeira filha. Há dois anos se dedica ao universo feminino com a criação da marca Ivna Sá Para Mulheres. Além de fotografar mulheres de diversas idades, palestra sobre a mulher contemporânea numa abordagem social, antropológica e cristã. Ivna é uma das pioneiras do Ministério Universidades Renovadas no Brasil.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com . 

17 comentários sobre “Tributo a uma mãe

  1. Emocionada demais com a história dessa mãe guerreira…. não tenho dimensão da dor vivida por ela. Somente em Deus para poder compreender essas coisas da vida.

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  2. Eu sou suspeita de falar do texto, por ter sido agraciada com a oportunidade de ter a Daniela como cliente e hoje como alguém bem próxima. Esse texto modificou muita coisa dentro de mim e até então estou tentando elaborar tantas perguntas e reflexões. Fica apenas uma certeza: VIVAMOS O AGORA!!!!

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  3. Impossível não chorar… Daniela é minha amiga irmã e eu estava lá e sei muito bem como ela sofreu. .. Tenho um imenso orgulho dessa linda e forte mulher e mais orgulho ainda de fazer parte de sua vida. Te amo minha irmã. E Ivna, você foi minha professora na faculdade, lindo texto, com certeza a Dani merece essa homenagem.

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  4. Lindo o texto e mais lindo ainda a história de superação da Daniela. Amiga de faculdade sempre doce, meiga e um sorriso contagiante. Merece toda a felicidade do mundo.

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  5. Ivana conheço a Daniela. Trabalhávamos juntas quando Dudu faleceu. Nunca mais fui a mesma depois daquele dia. Guardo com carinho no meu coração Dani e Dudu. Vendo seu texto e sua foto… me lembrei de vc! Estudamos juntas no curso de jornalismo. Mundo pequeno demais. Grande abraço!

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    1. Que mundo pequeno não é Patrícia? A gente anda por caminhos tão diversos e, em alguns momentos, a vida nos aproxima e promove encontros cheios de vida. A Dani é um exemplo de força e de fé para todas nós…Abraços. Você está no nosso grupo de whatsApp da turma de jornalismo de 1997?

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  6. Eu trabalhava com a Dani quando o Dudu faleceu e me tornei sua amiga pessoal!
    Ivna, além das fotos lindas, seu texto descreve tão bem a história, que é impossível não reviver a angústia e a avalanche de sentimentos que passamos junto a Daniela naqueles dias. Emocionante! Chorei horrores…
    Tem coisas que acontecem na vida que não dão pra entender…só sei que Dani perdeu seu anjo Dudu e segue sim com uma ferida que não se fecha mas com uma força incrível pra nos fazer refletir e mostrar que o que importa na vida é viver intensamente cada momento com nossos filhos!!
    Não posso deixar de registrar que a Dani, essa deusa linda e loira, tem um coração do tamanho do mundo e sempre terá um lugar no meu coração! Beijos para vocês!

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    1. Juliana Cabral, a Dani é uma pessoa iluminada de um coração que transborda a fé e a ternura. Sou gratíssima a Deus de ter encontrado essa mulher pelos caminhos da minha carreira e da minha vida. Obrigada pelo seu post.

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