Não me tirem o direito de ser mãe

Um belo dia meu relógio biológico tocou. Quatro anos de casamento, alguns sonhos realizados, e ali estávamos eu e meu esposo Yan, prontos para ter nosso amado e sonhado bebê.

Em setembro de 2014, decidimos planejar nosso filho, em meio a vários sonhos e uma expectativa enorme! Um mês depois, estava grávida! Foi tão rápido, e nosso maior presentinho estava ali na minha barriga; eu estava gerando um fruto do nosso amor! Queria gritar para o mundo, pois este sempre foi o meu sonho… contamos para a família e os amigos.

Quando ouvimos o coraçãozinho do nosso bebê, quanta emoção! Era a maior alegria das nossas vidas: roupinhas, sapatinhos,  decoração do quarto… Com 12 semanas, me lembro do médico falando que podíamos relaxar pois estava tudo bem. Passou o primeiro trimestre.Quanta alegria, minha barriga já estava grande, sentia o meu bebê, sentia a vida brotando dia após dia. Era um sonho se tornando realidade! Toda nossa família se preparou para recebe-lo.

Em janeiro do ano passado, acordei de madrugada para ir ao banheiro (uma rotina, desde que descobri que estava grávida) e observei uma manchinha rosa. Não sentia dor alguma, mas me bateu um desespero, um sentimento de que algo não estaria bem. Acordei meu marido e fomos para o hospital. A médica constatou que eu não tinha dilatação, que estava tudo bem e suspeitou de uma infecção de urina. Fiz um exame e fomos para casa aguardar o resultado. Três horas depois, retornamos ao hospital e outro  médico  disse que não era infecção, mas estava tudo bem. Meu coração de mãe queria  ver meu bebê e aquietar meu coração.

Antes do  ultrassom, lembro que eu e meu marido estávamos na sala de espera,  apostando qual seria o sexo do nosso bebê. O médico falou com tanta certeza que estava tudo bem, que estávamos mais tranquilos. Na sala de ultrassom, porém, um silêncio.Cadê o coraçãozinho do meu bebê? Aquele silêncio me cortou, e nunca mais serei a mesma, nunca me esquecerei daquele momento, um pedaço de mim se foi junto com meu bebê… Era uma menina, Sofia, minha amada filha. Eu estava ali com um aborto retido.

Com o coração partido, ouvi do médico o quanto isso é normal! Normal? Perder minha filha com 19 semanas? Não, isto não é normal, me recuso a ouvir comentários assim. Ele me receitou um remédio para induzir o aborto, pediu  que eu esperasse o sangramento em casa,  e lá se foram quatro dias de plena tristeza. Eu ouvia barulhos na minha barriga, e ela murchando, bem aos pouquinhos eu sentia minha filha indo embora,  mas não queria deixa-la ir. Foram os piores dias da minha vida.

Cinco dias depois,  voltei ao hospital e tomei remédios para induzir o aborto. Eu  não tinha dilatação, e foram mais dois dias de luta, de sangramento, sem dilatação e  com muita angústia. Naquele hospital, muitas coisas passaram pela minha cabeça, minha amada filha já estava se desfazendo dentro de mim, o risco de infecção era alto, e eu pedi a Deus para ir com ela.

Um pedaço de mim se foi junto com a minha filha. Foram dias de tristeza, de dor e pessoas dizendo:” você terá outros filhos”, “melhor ter morrido do que ter nascido doente”. Se alguém não sabe o que dizer quando uma mãe aborta, é melhor ficar quieto. Eu sentia que ninguém respeitava o meu luto. Eu queria minha filha, de qualquer forma ela teria nosso amor.

Só peço que não me tirem o direito de ser mãe! No dia das mães,  uma pessoa da minha família me olhou e disse: um dia você será mãe.  Eu não serei mãe , eu SOU  mãe de minha pequena Sofia. Cuidei dela nestes meses e fui a melhor mãe que poderia ser;  quem já passou pela experiência do aborto poderá me entender.

O tempo passou, aqui estou, sou metade, todos os dias imagino como seria se minha filha estivesse aqui, ela já teria um ano, quantos momentos teríamos vividos juntinhas. É  uma saudade do que não vivemos.Penso sim em engravidar novamente, mas não para ser mãe de alguém, para preencher algum lugar vazio, afinal já sou mãe de uma linda anjinha que está lá no céu, e o lugar dela não será ocupado.

Para você que assim como eu sofreu um aborto, desejo paz, desejo que se lembre com amor de seu filho, que o guarde no coração, e que nunca se esqueça da mãe maravilhosa que  você foi. O amor materno, esse amor que transborda,  não está no tempo que ficamos juntos, mas na intensidade desse sentimento!

juliana_anjos.jpg

Juliana Malaquias

Casada, 27 anos, mãe de uma anjinha, funcionária pública, compradora, católica, apaixonada pela arte de cozinhar, apaixonada pela vida!

 

 

 

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com . 

6 comentários sobre “Não me tirem o direito de ser mãe

  1. Que texto lindo minha querida…Também já tive um aborto, com menos semanas. É um buraco sim muito grande. Tenho três filhos aqui e um anjo no Céu. Do momento em que pegamos o exame positivo, a nossa vida já muda por inteiro. São os mistérios que não damos conta de entender. Neste tempo especial, tenho refletido muito sobre a adoção também…Uma espécie de maternidade tão intensa que muitos ainda não compreenderam. Obrigada pelo texto escrito com a alma…

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  2. Emocionante teu depoimento, compartilho da tua dor pois em maio 2015 perdi meu baby com 11 semanas aborto retido e dezembro do mesmo ano um aborto espontâneo . Até hoje escuto pessoas me falando porque já tenho duas filhas não deveria estar sofrendo tanto.
    Mesmo que tivesse 10000 filhos meus dois bebes nunca jamais serão esquecidos, mas sempre peço a Deus que abrande a minha dor e todas que passsam e ainda passarão por esta perda .

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  3. Lindo seu depoimento tbm passei por isso em 28,de maio de 2015 desde então nunca mas fui a mesma pessoa todos percebem brinco sorrio mas nao sou a mêsma mesmo sendo mãe de um menino lindo mas é um vazio que parece nso ter fim.
    E só quem passa que sabe

    Que Deus seja a nossa Fortalez.

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  4. Lindo depoimento! Também sou mãe de um anjinho e sei do que vc está falando. É um vazio infinito, que vc descreveu muito bem quando disse “…saudade do que não vivemos”. Mesmo que venham outros filhos, a dor pode até diminuir, mas esse vazio nunca será preenchido. Cada um é especial e tem o seu lugar no nosso coração. Esses anjinhos marcaram nossa vida e serão nossos filhos pra sempre. Fico feliz por vc estar seguindo em frente e passando essa mensagem adiante com tanta coragem. Parabéns!! E Feliz Dia das Mães!!!

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  5. Entendo perfeitamente, passei pelo mesmo. Dói muito ouvir que seu bebê parou dentro de você, mais doloroso ainda é ter que tomar remédio para expulsa-lo. Sou mãe de um anjinho e sempre sentirei saudade do que não vivi.

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