A vida sem filtro

Assim, do nada ela começou a chorar. Era expediente. O trabalho estava ali esperando, mas, as lágrimas não. A frequência de emotividade em tardes de lead e sublead, são bem raras, mas, aquela mulher, confidenciou que, na noite anterior, havia chegado tão tarde daquele trabalho, que não viu as filhas acordadas. A mais velha, uma pré-adolescente, acabara de enviar uma mensagem pedindo atenção, atitude copiada pela mais nova, logo em seguida. Ela não se perdoava. Dizia ser uma péssima mãe, mas precisava trabalhar.

Ela chegou abatida no trabalho essa manhã. Não era só o cansaço por ter trabalhado além do  expediente todos os dias daquela semana (e de todas as outras). Muitas vezes, chora escondida pelo desemprego do marido, pelos dilemas da maternidade, mas, também pelas dores  no corpo cuja causa os médicos não conseguem diagnosticar com precisão.

Mais uma Ave-Maria foi rezada no rosário desgastado, mais uma lágrima caiu junto com a prece. Na oração, os filhos, que já adultos, ainda são suas eternas crianças. Quando nasceram, ela optou por deixar o bom trabalho público para se dedicar integralmente a eles. Mas agora os “meninos” cresceram. O mais velho mora em outra cidade e vem em casa uma vez por mês. O do meio decidiu começar a própria vida morando em outra casa. O caçula passa o dia se dividindo entre trabalho e estudos. Ela se sente sozinha.

Todo mundo diz que ela é engraçada, bonita e bem sucedida. Na boa parte do tempo, ela, nos seus 30 anos, realmente acha isso, mas, ao chegar em casa depois de um dia frenético, pesa o cansaço e a solidão. Ela cansou de desencontros, amores nascidos para morrer. Ela chorou pedindo paz, proteção e a sorte de um amor tranquilo.

O dia foi duro. Metrô. Trem. Lancheira preparada para a escolinha do filho (que cria sozinha), no dia seguinte. Contas feitas, se economizar com o almoço, ela vai cumprir todos os compromissos financeiros. Desde que o seu menino nasceu, seu papel é de mãe e pai. Ela precisa estudar, mas, a criança quer atenção. Só começou seu terceiro turno.

Ela sou eu e você. Por trás de um sorriso na rede social, existe uma vida imperfeita. Dizem por aí que a gente não pode chorar, falhar, se frustrar. Existe um mito de que para ser feliz é preciso desempenhar o papel de Mulher-Maravilha. Sempre linda, sorridente e impecável. A vida perfeita que postam nas redes sociais.

A nossa força é saber que por trás de cada amor existem lágrimas. Que por trás de cada filtro no Instagram, pode haver um coração inteiro e partido, ao mesmo tempo. Dores não são medidas com régua. Existem dias em que é difícil levantar da cama com um sorriso, e encarar de frente os compromissos, verdades, conflitos e desafios. Nos disseram que precisamos dar conta de tudo, equilibrando o mundo em meio a uma corda bamba. Mas, nós sabemos que não é bem assim.

Deixa a lágrima rolar!  E isso não significa se entregar. É que não somos perfeitas, temos nossas feridas, que com o tempo serão cicatrizes, mas, no momento estão abertas. Todas falhamos. Todas sempre teremos algo para amar e sofrer. Todos os dias. Sem filtro.

maria amélia saad

Maria Amélia Saad.
Jornalista, mestranda, pós-graduada em Comunicação estratégica, voluntária no site Jovens Conectados, da CNBB; com passagem em assessoria de comunicação de hospitais públicos e na Ordem dos Advogados do Brasil.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com . 

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