A Índia dos muitos contrastes

Se você está de viagem marcada para a Índia, acho que deve estar sentindo o que eu senti, um misto de curiosidade e ansiedade. Quando resolvi fazer essa viagem pensei, será que estou preparada para esse país enorme, cheio de contrastes, misterioso, denso, super populoso, caótico, apimentado, diferente, colorido, hindu, barulhento, sujo, guerreiro, terra de marajás e com mais de quatro mil anos de história? Eu não conseguia prever minha reação, muito menos a do meu marido que nem gosta de viajar, você sabe. Os relatos que ouvi eram muito conflitantes, algumas pessoas amaram a Índia, outras simplesmente detestaram. E nós? Na dúvida, segurei na mão de Shiva e fui… rsrs. Agora saiba por que valeu tanto a pena!

Nenhum país me desafiou tanto quanto a Índia e acredito que nenhum outro conseguirá. Vi muita pobreza nas ruas, crianças sujas, animais esqueléticos, uma miséria tão intensa que era como uma ferida aberta, um tapa na cara a todo momento. Não era fácil ignorar as crianças. Continuavam lindas, apesar de toda a sujeira grudada em seus rostos. Os olhos – sempre escuros, vivos e grandes – revelavam o mesmo sofrimento dos adultos, mas com um olhar penetrante, mais doce, e sempre com um sorriso aberto no rosto. Poucas chorando, a maioria brincando com o que achavam no meio da rua e da sujeira. Como podem ainda se divertir? Mistério… São milhares assim pelas ruas. Triste…

Fiquei encantada com esse país, com sua arte, arquitetura, história, lendas e crenças. Mas jamais vi tantos contrastes. Também jamais vi um colorido tão lindo e vibrante. E jamais vi sorrisos no meio da pobreza extrema. Lá o povo tem sorriso! Por onde quer que se ande, cenas curiosas, umas chocantes, outras tocantes, mas em todas chamou a atenção o nobre caráter do povo indiano: mesmo sob as condições mais precárias, sobressaem-se a conformidade e a aceitação. Apesar do sofrimento e desconforto, percebe-se doçura, alegria, sorrisos e simpatia, chegam a ser inocentes. Impossível não ficar tocado pela vida indiana.

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Em alguns locais turísticos com o marido.

Mas depois de uns dias, não se engane, vem a frustração. Os funcionários e prestadores de serviço não sabem dizer não. Você sabe onde é? Sei. Só que não… Tem esse prato? Tem. Só que não… Você sabe por que isso? Sei. Só que não… Não sei se é questão de honra, ou talvez com sim queiram dizer não, como a balançadinha de cabeça que pode ser sim, não, talvez, claro que não, claro que sim. Entendo agora, só queriam agradar.

O cheiro da Índia é peculiar. Uma mistura de cheiro de humanidade, de suor, de pés descalços, do curry, cebola frita, gengibre, masala, vaca, chá, lixo, poluição, esgoto, incenso… Vai saber quando estiver lá!
Li nos jornais e ouvi coisas ruins a respeito do que acontece no cotidiano do país, que suicídios são comuns, suas mulheres sofrem. Mulheres se enforcam com seus xales, jovens são forçadas a casamentos indesejados, mulheres sofrem estupro coletivo, viúvas são consideradas azarentas, mulheres abandonadas pelo marido já não valem nada, mulheres são queimadas, machucadas a até mortas pelo dote.

Minha vontade era chorar, gritar, tamanho meu choque, tristeza, pena… Mas a Índia não me deu espaço físico nem mental pra demonstrar minha raiva. Era tanta gente me encarando, pedindo, fazendo sinal de comer ou de dinheiro, criaturas esqueléticas com bebês dependurados, empurrões, uma luta para me esquivar de vendedores e da merda de vaca, lixo, poluição, homens urinando na rua, cuspes, arrotos, escarros em público… Tudo isso depois de ver um lindo templo, um palácio encantador, ouvir histórias envolventes de crenças e deuses. Inacreditável.

Depois de dias tão intensos sentia falta de silêncio, espaço, reflexão – luxos que até então não tinha valorizado o suficiente. Ao voltar para o quarto do hotel (por sinal, hotéis maravilhosos!) meu desejo era deixar a água do chuveiro não só tirar a poeira do meu corpo, mas me reenergizar de tudo o que tinha testemunhado. Suspirava aliviada… Descansava enquanto olhava as fotos que tirei e não podia deixar de abrir um sorriso apesar de tudo, a Índia me rendeu belas imagens!

Atônita a tudo que vi e senti, num certo momento perguntei ao meu motorista: “você é feliz aqui?”. Com um sorriso no rosto ele respondeu: “Yes madam, não se preocupe, o povo aqui é feliz, não temos outra opção.” Que incrível, eles têm o segredo da felicidade! Invejo e me emociono.

Acredite: por mais que você leia sobre esse país e planeje sua viagem, nada vai te preparar para a Índia! Lotada, caótica e suja. Ao mesmo tempo, diferente, interessante e bela. Os contrastes estão por todos os lados e nos pegam de surpresa a todo momento. A Índia é um país que gera curiosidade e chama atenção por suas diferenças. No entanto, não é um destino para quem procura férias convencionais. É um lugar que pode trazer certo desconforto, mas também traz muitas recompensas. A Índia precisa ser compreendida, fronteiras precisam ser atravessadas para que se possa ver além da sujeira espalhada pelas ruas, dos animais fuçando no lixo, dos miseráveis desfilando sua pobreza.

É preciso mergulhar na profundidade dessa cultura ancestral, despir-se dos preconceitos e buscar seus tesouros encobertos. Sua alma é nobre, com certeza. Impossível ficar indiferente aos sentimentos que brotam em nós numa viagem à Índia, porque ela nos faz reféns de suas paisagens, de sua cultura, de sua gente, de seu patrimônio fabuloso. Por tudo de maravilhoso que vi e apesar do desafio constante aos inúmeros contrastes e contradições, a aprendizagem e o encantamento foram grandes.

Viajar é um antídoto eficiente contra preconceitos e intolerâncias, uma maneira de mudar nosso referencial e aprender com outras culturas. Poder ver de perto como uma sociedade se organizou através de sua história, como são as relações humanas, as religiões, a alimentação, a arte e a cultura de um povo é uma oportunidade incrível. Fazer tudo isso na Índia é mais que especial, é essencial, vale a pena passar por essa experiência ao menos uma vez na vida!

Meu guia em Delhi, seguidor da doutrina sikh, ao se despedir me disse que nunca devemos dizer adeus, porque, para eles, um dia nos encontraremos, seja em pensamento, seja em alguma vida. Então, por esse ensinamento, saiba que não dá para dizer adeus à Índia, basta um até logo.

Namastê! (“O Deus que há em mim, saúda o Deus que há em você!”).

20150302_102555Maria Christina Cruz, paulistana aposentada que trocou as ruas de asfalto da cidade pelas ruas de terra da praia. Apaixonada por novos lugares, tenho saudade dos que conheci e dos amigos que perdi pelo caminho. Sinto falta das experiências que ainda não vivi e, talvez, por isso continuo viajando, vivendo e aprendendo.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com . 

2 comentários sobre “A Índia dos muitos contrastes

  1. Queridos leitores, falei que iriam ter uma surpresa com a Letra I? Eu quando li esse texto da Christina, fiquei arrepiada! Sem dúvidas, um dos relatos mais lindos, humanos e verdadeiros que já li sobre a Índia!
    Chris, você conseguiu traduzir em palavras os vários sentimentos que nos invadem ao visitarmos um país tão contraditório e desafiador, mas ao mesmo tempo tão incrível!
    Parabéns por sua sensibilidade!
    Namastê!
    Um beijo grande e obrigada!
    Tassi

    Curtido por 1 pessoa

  2. Tassiana, eu é que agradeço, ter meu texto escolhido para publicação foi uma surpresa muito agradável, uma oportunidade para dividir experiências e paixões. A Índia foi uma experiência incrível e continua me trazendo boas lembranças e gratas emoções.

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