O melhor presente que eu poderia me dar

Até um certo tempo, acreditava que o melhor presente que podemos nos dar é aquele ou aqueles que não nos canse, não nos prove e que, simplesmente, nos permitem relaxar. Sendo assim, se o gênio da lâmpada aparecesse para mim, eu prontamente diria: quero estar com minha família em um local paradisíaco, comendo uma picanha deliciosa sem risco algum de engordar e, de preferência, com massagens all inclusive. Claro que qualquer mulher desejaria um presente assim. Todavia, descobri nesse último ano que o melhor presente é aquele que, de algum modo, nos “violenta”. Calma, vou explicar!

“Violentar” aqui significa nos tirar da zona de conforto, colocar os nossos medos e inseguranças na mesa e nos causar sofrimento, justamente porque expõe nossas fragilidades e nossa condição humana! E para ilustrar essa minha tese vou compartilhar com você uma experiência fantástica.

Costumo trabalhar ouvindo músicas ou palestras. Gosto de me inscrever nestes congressos on-line, de preferência os gratuitos, e enquanto vou editando fotos, escrevendo algum texto, gerenciando as redes sociais do meu estúdio, fico escutando pelo fone de ouvido um pouquinho de tudo. Era mais ou menos o mês de julho do ano passado, acabava de completar os esperados e intensamente vividos 40 anos e, neste tempo, surgiu uma nova perspectiva profissional que me demandaria mais coragem, fé, determinação e, sobretudo, disciplina. E entre uma pesquisa ou outra na internet, sobre esse novo projeto profissional, me deparo com um congresso on-line de coaching. Fiquei curiosa e comecei a ouvir as palestras. Se o tema fosse atrativo seguia, se não fosse desligava.

Ao falar de superação, um coach contou a sua experiência de trabalhar em um navio por meses e o quanto ele precisou se violentar para conseguir seu objetivo que era juntar dinheiro em um curto espaço de tempo e, ao mesmo tempo, desenvolver ou aprender inglês. Até que em um determinado momento, ele falou: “Não podemos deixar que o medo nos paralise. Meu conselho é: se um dia você for à Disney, escolha o brinquedo mais radical, a montanha russa que mais lhe causar temor e vá nela primeiro, porque se você vencer esse medo inicial, você conseguirá vencer qualquer outro brinquedo por mais radical que possa parecer”. Aquela metáfora acertou em mim de mão cheia, uma espécie de tiro certeiro.

Não que eu tomei coragem de ir a uma montanha russa, até porque só de pensar meu estômago já embrulhou. Mas porque naquela hora eu pensei: “Ivna, qual é a montanha russa que você precisa subir na sua vida?” A resposta veio prontamente: a carteira de habilitação e a coragem de dirigir.

Muitos não acreditam, mas até há um mês eu não era habilitada. Já escrevi livro, fiz mestrado, me casei, tive minha primeira filha em um tempo de dois anos, sem deixar de trabalhar percorrendo cerca de 800 km por semana para lecionar em duas cidades do interior. E não tinha carteira. Estou acostumada a fazer palestras para públicos diversificados e numerosos, não sinto nenhum constrangimento ou frio na barriga, mas o simples fato de me imaginar dirigindo me causava pavor. Houve um Natal em que meu marido, cheio de boas intenções, resolveu me dar de presente a inscrição em uma autoescola, chegou a pagar os exames iniciais. Conclusão: dinheiro jogado fora, porque nem lá eu apareci.

Nessa hora em que eu escutava o palestrante falar da montanha russa, eu entendi que precisava enfrentar aquele bloqueio. Contudo, o mais interessante foi que tomei a coragem de me matricular em uma autoescola não porque queria dirigir, não obstante a necessidade mais do que real de uma mãe de três filhos e profissional autônoma que precisava do marido para levá-la em todos os lugares ou que estava sempre em um táxi.

Mesmo iniciando o processo, eu não me via dirigindo, meu desejo era simplesmente vencer essa montanha russa para alcançar a outra montanha russa que viria com o novo projeto profissional. Eu precisava dizer para mim mesma e provar para mim mesma: você está pronta, vai.

Mas esse percurso foi sofrível demais da conta. Inicialmente, porque conciliar 40 horas aula de curso teórico dentro de uma rotina alucinante é igual fisioterapia, uma espécie de atividade que funciona como um boi na linha. Segundo, porque aconteceu de tudo nesse processo. Quando finalmente, começaram as aulas práticas, precisei parar mais de 20 dias: família quase toda com dengue e feriado de carnaval. Um dia eu adoeço. No outro, a instrutora. Sabe quando você encontra todos os motivos do mundo para dizer: realmente isso não é para mim? Mas vida que segue. Mudo de instrutor, começa tudo de novo.

No meio do processo, paralisei no controle de embreagem de subida. Imagine você ficar mais de 20 aulas errando a mesma coisa consecutivamente. Tinha pesadelos com o tal do controle, chorava de angústia, quando amanhecia e era a hora do treino, parecia que estava indo para o matadouro. Meu marido e maior incentivador chegou a me questionar: se está fazendo tanto mal assim para você, talvez seja melhor você parar. Não quero que esse processo seja tão penoso como tem sido. Eu respondi: eu não desisto nunca, ainda que eu faça 100 aulas. Ufa, como foi difícil!

Lembro-me de que se aproximava a Páscoa e eu pedi a Jesus: renova a minha capacidade de sonhar, porque nessa altura do campeonato já estava triste e não tinha entusiasmo para nada. E mais do que isso: “Senhor, ajuda-me no controle de embreagem”. Acreditem, mas na semana seguinte da Páscoa eu avancei no treino até que, finalmente, depois de 55 aulas, marquei meu primeiro exame. E passei de primeira!

Com a carteira provisória nas mãos, começou uma nova etapa do processo: a coragem de dirigir nas ladeiras de Belo Horizonte, de enfrentar o trânsito com seus desafios, de ir e vir. Preciso dizer que me sinto uma águia com asas renovadas. Que sensação maravilhosa! Tudo tem o seu tempo para acontecer. E esse processo todo me ensinou o que eu disse no início do texto: o melhor presente é o que nos “violenta”. Cheguei aos 41 anos com esse presente, dado antes de tudo por DEUS e, depois, por mim mesma. Eu consegui, eu sou capaz, ninguém me segura mais.

Desejei compartilhar essa experiência aqui no Muitas Marias porque sabemos que nós mulheres temos muitas montanhas russas para vencer, aquelas ordinárias que estão no cotidiano corrido e massacrante, mas em especial aquelas extraordinárias que podem representar medo, insegurança e fragilidade: a mudança de emprego, a mudança no estilo de vida, uma reeducação alimentar, a atividade física, estar livre dos remédios antidepressivos, os relacionamentos afetivos que necessitam de perdão para sobreviver, os desafios na educação dos filhos, os projetos a serem escritos e vividos. Então, coragem!

Descubra qual é a sua montanha russa e decida enfrentá-la. O que posso dizer é que a alegria da chegada é maior do que a dor do percurso. E enquanto escrevo essas linhas finais, o coração pulsa ainda mais forte porque a “outra montanha russa” está prestes a ser vencida também.

Ivna Sá para Muitas MariasIvna Sá
Casada, mãe de três crianças, autora e professora universitária, é fotógrafa de famílias há 10 anos, profissão que descobriu com o nascimento da primeira filha. Há dois anos se dedica ao universo feminino com a criação da marca Ivna Sá Para Mulheres. Além de fotografar mulheres de diversas idades, palestra sobre a mulher contemporânea numa abordagem social, antropológica e cristã. Gosta de gente, pão de queijo, Atlético Mineiro e uma boa prosa.

 

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com . 

4 comentários sobre “O melhor presente que eu poderia me dar

  1. Ivna,
    que engraçado, né… eu nunca imaginaria que você tinha esse receio com a direção, pois sempre de fala tão firme e decidida, jurava que você era um ás no volante desde sempre! Que lindo ler o seu relato recheado de humanidade e humildade, a gente precisa tanto disso!!!
    Um abraço e paz, obrigada por compartilhar conosco!
    Mari

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