Infância roubada e mães culpadas

Dizem que quando nasce uma mãe, nasce a culpa. Afinal, somos a geração que cresceu prometendo não repetir os erros dos nossos pais, que foi trabalhar e buscar estabilidade e independência financeira, para depois se casar. Uma vez casadas, curtimos muito a vida de casal para depois ter um filho. Preparamos o quarto do bebê com riqueza de detalhes, fizemos um chá-de-fraldas que acabou se tornando o maior evento da família, planejamos uma viagem para comprar o enxoval fora do Brasil quando o dólar não estava tão alto, marcamos o parto cesariana para que nada saísse fora do nosso controle. E o primeiro filho nasceu. Mil cuidados, um bebê de porcelana, organizamos a festa de 1 aninho que mais parecia de 15. Fizemos tudo isso com grande alegria. Afinal: trabalhamos para dar a eles o melhor que nós temos. Chegou a época de ir para a escola e, para muitas de nós, essa fase chegou muito rápido. Com dois aninhos apenas, já sofremos mais um corte do cordão umbilical: deixar a criança chorando na escola para ir ao trabalho chorando. A diferença é que eles param de chorar bem mais rápido do que nós.

Tudo acontecendo dentro dos conformes e, mesmo assim, a tal da culpa não larga do nosso pé, ou melhor dizendo, do nosso coração. As mães do século XXI são muito conectadas, participam de grupos de mães e mulheres nas redes sociais e ali trocam muitas experiências, desejos, angústias, brincadeiras. Entre um post e outro, sempre vem a tal da comparação. Há aquelas que partilham suas intimidades porque a alegria de ter feito a festa de 1 aninho dos contos de fada e das gordas contas bancárias foi um feito tão extraordinário que não poderia ficar restrito ao mundo da família e dos amigos mais próximos. Era alegria demais para ficar contida. Há outras que fazem pelo simples desejo de ostentar, ganhar curtidas e tornar-se celebridade nas redes nem que seja por pelo menos algumas horas, talvez por carência e para mascarar a infelicidade de seu clã.

O fato é que estamos sempre nos cobrando, porque idealizamos um castelo encantando na educação deles. Não acreditávamos que, justamente com o nosso filho ou filha, haveria pirraças, dificuldades para alimentar, falta de educação quando chega aquela visita super especial, rendimento escolar baixo, dificuldades de sociabilização, problemas na saúde entre outros tantos aspectos que rodeiam a paternidade e a maternidade. Desse modo, acabamos entendendo que a maneira de o filho não dar tanto trabalho é ocupá-lo. A criança deve gastar o seu tempo com atividades extracurriculares e assim queimar a energia que tem em excesso. Só a escola é muito pouco. Precisa nadar ou fazer algum esporte, precisa aprender um instrumento musical, precisa dançar, precisa aprender línguas o quanto antes. Por incrível que pareça, há escolas infantis que já falam na competividade e nos desafios do Enem nas reuniões de pais. E para bancar tantos cursos, haja trabalho, haja horas fora de casa. Mas não tem problema, é para eles, é para arrancar essa culpa que insiste em dizer que eu não sou a mãe perfeita.

Aí chegam as férias. Hora de a criança descansar, pelo menos por 15 dias, já que aqui no sudeste as férias de julho são muito curtinhas. Para não deixar a criança ociosa, a escola envia um Diário de Férias. Elas chegam sorrindo para mostrar pra gente, está cheio de desafios e desenhos que eles fizeram ou que têm para fazer. Aí você abre e encontra 10 atividades distintas para eles fazerem justamente nos corridos 15 dias. Criar brinquedo, ler um livro, ler um gibi, ver um filme no cinema, ver um filme na TV, fazer uma receita, visitar alguém, ir ao teatro e mais um bocado de coisas, fora os desenhos, caça-palavras e outras atividades. Tudo precisa ser registrado. Quando peguei o tal “Diário de Férias” pensei: e se estivesse com uma viagem planejada para um sítio no meio do mato? E se não estou de férias para poder acompanhá-la em tantas atividades? Estou neste segundo time.  A gente tem de se desdobrar em três, quatro, cinco e ir monitorando o tal Diário. Em uma semana, vencemos a metade dos desafios mas os registros ainda não foram todos feitos. Aí você diz: “Filha, precisa fazer o registro no Diário” e ela responde com toda razão: “eu não quero fazer diário, quero divertir”.

Será que a criança não pode ser criança pelo menos nas férias? Acordar tarde, dormir tarde, lamber a rapa do bolo e sujar-se toda? Não ter hora cronometrada para tomar banho, comer, acordar, dormir e brincar? Penso que muito mais do que preencher um Diário de Férias, o melhor programa é ter um tempo de qualidade com eles. Ver um filme juntos, amontoados no sofá com pipoca e guaraná, sentar no chão para montar um quebra-cabeças, fazer o que der vontade sem aquela obrigação do “ter que fazer”.

A vida adulta já tem tantos prazos e urgências. Deixemos as crianças serem crianças, sem roubar-lhes a infância. Eles, os nossos filhos, já não podem brincar de pique-bandeira nas ruas, andar de bicicleta e ralar o joelho sem medo de ser atropelado ou curtir os amigos da vizinhança. Dentro do que for possível e, sem culpa, façamos um piquenique no parque bem a moda antiga, construamos um brinquedo sem apelos tecnológicos (nessas férias meu marido já fez um carrinho de rolimã para o caçula com 1 ano e 10 meses, só que ele nem chegou perto, ficou com medo. Faz parte do pacote da paternidade, risos), tomemos um sorvete juntos, façamos uma caminhada, mas, por favor, sem a obrigatoriedade dos registros.

Férias são férias e ponto final. Ou melhor, quase final. Que me perdoem os pedagogos e professores que se debruçaram para elaborar a atividade, mas essa culpa de não criar rotina nas férias eu já abri mão.  Depois do terceiro filho, a gente abre mão de muita coisa e vai compreendendo que o castelo que idealizamos quando eles nasceram é muito frágil e é isso que o torna simplesmente maravilhoso. Menos culpa, mais infância, mais presença. No fundo o que eles mais querem é isso: a nossa presença.

Ivna Sá para Muitas MariasIvna Sá
Casada, mãe de três crianças, autora e professora universitária, é fotógrafa de famílias há 10 anos, profissão que descobriu com o nascimento da primeira filha. Há dois anos se dedica ao universo feminino com a criação da marca Ivna Sá Para Mulheres. Além de fotografar mulheres de diversas idades, palestra sobre a mulher contemporânea numa abordagem social, antropológica e cristã. Gosta de gente, pão de queijo, Atlético Mineiro e uma boa prosa.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com . 

2 comentários sobre “Infância roubada e mães culpadas

  1. Mais um excelente texto Ivna! To achando que voce é escritora e não fotógrafa hein? 🙂 rs rs

    Não tinha idei a de quantas angustias as mães modernas sofrem. Bom para eu ser um pai mais atuante e presente quando chegar a minha hora (se ela chegar. Oremos!). Abraços e todas e sucesso ao portal!

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  2. Olá Victor, você não imagina mesmo o quanto elas sofrem….risos. Eu não sou exatamente essa mãe, graças a Deus em muitas coisas já me desapeguei. Mas acompanho o drama de muitas…Na verdade, é aquela história das muitas necessidades que são criadas e que ni fundo não são importantes.
    Obrigada pelo “escritora”…Amei!!!

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