Amizade não tem idade

Era para ser um encontro do mundo acadêmico, com seu peso e suas formalidades, mas eis que surge uma cumplicidade incomum entre três mulheres, com idades diferentes, mas com muito em comum. Madeleine Müller, produtora de Moda, na jovialidade de seus 50 anos. A professora de moda Karina Fernandes de 41 anos e a jornalista aspirante de 27 anos, que vos escreve.

Encontrei umas das minhas melhores amigas de vida no mestrado. Minha vida não estava tão adiantada, eu, uma recém-formada e com planos mirabolantes; mas minha alma procurava quem pudesse entender meus dilemas de mulher adulta. Eu agora sou a amiga delas de “20 e poucos anos” (sempre reitero que já são quase 30).

Madeleine e Karina acolheram isso. Sabemos as três como foi desafiador viver aquele julho de 2015, quando tivemos de cumprir as oito matérias do Mestrado em Ciências da Comunicação, na Universidade Fernando Pessoa em Portugal – e que, até então, julgávamos estar tão preparadas. As cadeiras muito voltadas para a Publicidade, e nós, perdidas! Sentindo-nos desafiadas como mulher, como profissional e como ser humano.

Somos mulheres e temos frases épicas e de efeito! Hoje damos risada, mas, se eu te contar que já falamos isso chorando? Dividíamos nossas angústias e escutávamos também nossos silêncios.
Nosso primeiro passeio foi num domingo sem trabalhos exaustivos para fazer, fomos visitar Santiago de Compostela, na Espanha. A mágica do lugar, a história ali calcada, aflorou algo diferente em nós. Tínhamos apenas uma semana de convivência, mas nossa alma parecia tocada por algo muito mais profundo.

Voltamos para a rotina de alunas, e demos conta de todas as tarefas, com certo esforço, e claro, tivemos nossas recompensas. Nossos finais de semana eram cheios de passeios históricos e livres. Experimentamos uma liberdade única, não sei bem o nome e não saberia dar a receita. Karina traçava o roteiro e via o horário do trem, seguíamos logo pela manhã. Madi, com seu corpo atlético sempre nos deixava para trás, e quando julgávamos tê-la perdido a encontrávamos falando com alguém em inglês, francês ou alemão. Ficamos apaixonadas em ouvi-la em francês e, sempre que possível, pedia para que recitasse algo pra nós.

No trem falávamos da vida uma da outra, dos casamentos (sou a mais jovem e a única divorciada), da família, dos filhos delas. De nossos pontos em comum, de nossas diferenças. Algumas vezes, sem aviso, contamos segredos de vida, coisas tão nossas e muitas delas nunca antes divididas com ninguém. Choramos juntas. Cada uma com seus óculos escuros olhando pela janela nossa história passar.

As matérias do curso acabaram, era hora de voltar para casa, teríamos um ano para terminar nosso trabalho final e voltar a Portugal para a defesa do mestrado. Visitei Karina, que mora em Recife, em dezembro de 2015. Fui recebida com carinho e fiquei encantada com sua família linda (um marido que entende de vinhos, e dois filhos incríveis), ficamos na casa de praia. Vivemos dias alegres e coisas sem fim.

Em março, minha agenda de trabalho bateu em Porto Alegre, e lá fui abraçar minha “mãe” gaúcha em sua cidade. Fiquei hospedada no quarto de sua filha, Alexia de 21 anos, a “cidadã do mundo”, que nunca está em casa, e por aqueles dias estava estudando na França. Passamos um final de semana divertido e em família, o marido dela me chama hoje de “a nossa filha mais velha”. Voltei para Brasília com minha promessa cumprida: a de não nos perdermos!

Finalmente, a data para o fechamento de mais um ciclo chegou. Julho de 2016. Lá fomos nós defender nosso mestrado. Um ano passara, e como foi bom rever a Madi logo que cheguei. Karina chegou uma semana depois e tivemos a sorte de dividir o mesmo apartamento dessa vez. Conviver com elas naquele momento foi o melhor presente que eu poderia ter. Não foram dias fáceis, nos preparávamos diariamente e os ajustes finais pareciam não ter fim. Três mulheres de idades diferentes, realidades distintas, unidas por um objetivo comum e almas muito iguais.

Superamos! Passamos com notas muito boas. E a Madi, mais uma vez surpreendera com uma mega nota. Era de se esperar! Conhecemos muitas cidadezinhas medievais nesse período, Amarante, Braga, Guimarães, Pinhão, Peso da Régua, Aveiros, cada qual com seu encanto, cada qual em seu momento. Fomos felizes. Em Amarante, tomamos banho de mangueira num festival a céu aberto enquanto dançávamos uma música qualquer! Estava um calor de 38° graus e precisávamos viver aquilo. Foi lá também que lavamos os pés no Rio Tâmega (um de nossos melhores momentos), rimos junto à sombra de uma grande árvore, acenamos aos passeantes do Rio. Lugar onde tiramos o selfie que ilustra essa estória.

Somos mulheres modernas, nisso combinamos! Uma mais insegura que a outra, uma mais contemplativa, outra mais contida, somos um trio de emoções fortes! O que sobra em uma, é a semente plantada na vida da outra. Minha mãe sempre diz que meus amigos são ainda os da minha infância, sou uma pessoa de poucos e bons amigos. Mas, confesso voltei dessa experiência com duas outras melhores amigas na bagagem. Elas dizem que comigo rejuvenescem, com elas eu me sinto gente grande!

sheila souza fotoSheila Souza
Sou jornalista brasiliense, tenho 27 anos, sou cristã, muito questionadora e amo liberdade. Acredito que toda mudança vem para o bem.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com . 

7 comentários sobre “Amizade não tem idade

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