Aceitar uma perda é (a)normal?

Em 25 de agosto, “Dia do Soldado”, há 11 anos, perdi uma filha com idade de 7 anos e 9 meses vitimada pela Leucemia Linfoblástica Aguda T.

Ao receber um diagnóstico de câncer, metade de nossa esperança vai embora pelo susto, pavor e temor. Com um filho é diferente: despojamo-nos de todos os sentimentos ruins, ainda mais por se tratar de uma criança de apenas 5 anos de idade, que via amparo e força no pai e em mim. Recebi o diagnóstico em agosto de 2003. sempre me senti o termômetro dela e não podia fraquejar.

Deus e inúmeras pessoas que abraçaram nossa causa nos deram a graça de viver os momentos mais marcantes e maravilhosos com Aninha em meio ao sofrimento. Lutamos bastante, com tratamentos em Minas e em São Paulo, sempre com a nossa forma simples e mineira de ser. Lembro bem que os paulistas estranhavam este nosso jeito, pois a violência das grandes cidades endurece muitos corações, faz com que as pessoas fiquem desconfiadas, temerosas e defensivas a toda forma de acolhida e gestos fraternos, amorosos.

Recordo-me que minha filha era recém-transplantada e era época da Páscoa. O transplante de medula zera todas as células e o transplantado passa a ter o sangue do doador. Passei uma mensagem de texto a todos os médicos do setor de Transplante de Medula Óssea relacionando a Vida Nova da Páscoa ao transplante dela, agradecendo a cada um deles. Sempre reconheci a luta de todos, desde a faxineira até o mais alto escalão. Porém passei essa mensagem depois da meia-noite, nem percebi o horário.

Quem tem um filho doente por uma simples virose não dorme, eu não fugi à regra por consecutivas noites em dois anos de tratamento. No dia seguinte, dois médicos vieram agradecer, um deles, com os olhos brilhando, comentou que tratou inúmeras crianças e poucos voltaram para agradecê-lo da forma carinhosa que fiz. Porém, uma médica, por telefone, “puxou minha orelha”. Ela se assustou com a mensagem pois, naquele horário, só deve ser passada uma mensagem quando fosse algo importante. Aquelas palavras soaram como uma punhalada no peito, pois em meu conceito era, e ainda é, importante ser grata a todos eles, pois minha filha se foi, mas não por culpa deles que tudo fizeram para que ela vivesse.

Não tive a oportunidade de sentar com essa médica, mas, após o primeiro impacto, não julguei, busquei considerar o lado dela, seu cansaço, sua luta e embora para mim minha filha fosse única, ela tinha outros pacientes e posso ter sido mesmo invasiva. IMG_0020

Hoje minha outra filha luta para ser médica, e sei que ela conviverá com mães ansiosas, nervosas, desesperadas pelo instinto de defesa de seus filhos. Oro a Deus para que ela seja sábia e tenha para com elas um olhar misericordioso. Não existem dor e impotência maiores do que não poder livrar o filho do sofrimento e da morte.

Nessa semana e nas outras do mês de agosto nos anos passados externei meus sentimentos nas redes sociais, mas sinto que meu jeito de ser não combina muito com elas, pois falo e escrevo o que sinto. É uma semana difícil, aliás, o mês de agosto é um mês difícil. Ana Cláudia, minha filha encantada, adoeceu em agosto, a recidiva da doença foi em agosto e ela faleceu em agosto. Desde sua morte, não consigo controlar e escrevo meus textinhos no Facebook, e desde aquela época passei por momentos de profunda reflexão sobre a reação das pessoas a esses textos e à minha conduta. Alguns me colocam num patamar elevado, de anormalidade, pois não é normal alguém perder o filho e seguir a vida com bom humor e leveza, sem revoltas, sem culpar terceiros, sem amargura.

Eu me perguntava: que mulher eu sou? Sou insensível? Sou anormal? Fui ponderando… Insensível não sou, chorona nata, sim; a sensibilidade aflora em meu peito com uma violência intensa a ponto de tomar dores de outras pessoas como minhas e procurar de uma forma ou de outra estar a serviço dos que buscam meu auxílio. Sou anormal? Também penso que não sou, pois o normal é aceitar aquilo que não pode ser mudado com serenidade e sabedoria para colher o aprendizado.

Gosto de ditos populares e um deles se encaixa: “o que não tem remédio, remediado está”. Isso não quer dizer que não sinta a ausência de minha filha, não há dor maior, mas a tristeza de sua morte não pode ser maior que a alegria em ter outra filha comigo. Vejo tantos pais sobreviventes (sim, sou uma sobrevivente a um triste naufrágio!) chorarem os filhos que se foram desprezando os que ficaram. Isso não é justo e nem correto. Em suma, sei que sou forte, mas não havia escolha mais sensata, além de aceitar e aceitar.

Toda a doença de minha filha e seu tratamento pesadíssimo, com quimioterapia cavalar foi encarada por ela assim como nesta foto, com esse sorriso largo, cativante, mesmo sofrendo muito! Não existe quem com ela tenha convivido que não tenha passado por uma profunda transformação na forma de encarar a vida e seus obstáculos. Penso que tenho que , pelo menos, tentar imitá-la e buscar ser feliz, por ela, por minha família e principalmente por mim mesma: fazer os outros felizes e não contaminá-los pelos sofrimentos que passei. Sou sobrevivente e não vítima. Sou normal e não um exemplo, ela sim, o é. Uma criança que enfrentou de forma leve e tranquila situações impossíveis de se imaginar. Não sei o motivo desta doença, mas com certeza não foi um castigo divino, pelo contrário, sem Ele não teria conseguido e não estaria hoje de pé.

Em  cada agosto, a saudade bate mais do que nunca, mas a certeza de que Aninha vive em minha lembrança e coração é meu consolo. A gratidão a ela por todo aprendizado é incomensurável e também a tantos ‘Simãos-Cireneus’ que suavizaram minha cruz, gratidão eterna!

À minha “soldadinha”, guerreira Aninha, amor eterno!

IMG_0021Eliana A. Tavares de Faria

Sou casada, tenho uma filha de 20 anos, amo viajar, conhecer pessoas novas e a natureza me atrai. Sou católica, não atuo diretamente na Igreja, mas não perdi minha Fé e sou convicta de que somos templos de Deus e que a Fé sem obras é morta.Bacharel em Estudos Sociais, História e Direito. Advogada militante na Comarca de Formiga-MG, com especialidade em Direito Civil e Direito das Famílias. Administro um grupo de solidariedade aos formiguenses em tempos de crise.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com . 

10 comentários sobre “Aceitar uma perda é (a)normal?

  1. Novamente sem palavras Eliana, desde àquela época sempre que estou com você ou a vejo externar toda sua missão de vida. Sim, ouso dizer a sua missão. A missão de ser mulher, esposa, profissional, mãe e mãe de um anjo, me emociono muito; porque apesar de tudo, mesmo triste ou saudosa, seu copo sempre está meio cheio. Você não endureceu, tem sempre doçura para passar em seus textos, na sua profissão e nos seus trabalhos voluntários na sociedade formiguense, na sua vida. Por isso, sempre peço a Deus que em meio às minhas tão pequenas lutas, se comparadas à perda de um filho, eu nunca venha a endurecer o meu coração e a minha alma; mas apenas que eu possa adquirir a firmeza e a serenidade dos forte como você; que se permitem chorar, falar e externar sua saudade e/ou tristeza com tanta leveza, sendo sempre um exemplo para todos nós mães, pais e pessoas. Porque seguir em frente é preciso, lutar sempre, vencer às vezes, mas perder a doçura e a esperança jamais! Gosto muito de você! E desejo muito que você seja feliz à sua maneira ao lado dos seus amados, Grande beijo amiga!

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  2. Não tenho palavras para descrever o sentimento que o seu texto me.trouxe… daí eu penso seria normal a Ana te passar tanta força? ? Conclube que sim!! E para amor de filha para com a mãe e se mãe pela filha e de Deus pela sua família. Que o mês de agosto não seja de tristeza mas que traga o conforto de que ser mãe é muito mais que entrega. .
    É simplesmente fascinante, mesmo em dificuldades. Abraços e que a sua filha consiga ser uma excelente profissional. ..

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    1. Obrigada Alessandra! É bem por aí, um conjunto de coisas e no final a certeza de que sou agraciada por todas elas. Até mesmo pelo sofrimento, que ensina e nos dá a chance de sermos melhores ou piores, a partir dele. Obrigada por suas generosas palavras!

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