“Três filhos? Tá bem na fita, hein?” versão 2.0

Em fevereiro deste ano, aqui mesmo neste portal, eu contei uma história que me ocorreu em uma festa de casamento quando um colega me abordou dizendo que eu “estava bem na fita” porque tinha três filhos. Contei o desenrolar dessa história, alguns apontamentos sobre a “ditadura das famílias pequenas” e, para minha surpresa, o texto tornou-se um viral na internet com mais de 40 mil compartilhamentos e 266 comentários no portal. Nas primeiras semanas que seguiram a publicação, minha principal diversão era ler os comentários nos compartilhamentos e também no site. Diversão porque ler comentários feitos por pessoas que não nos conhecem é, no mínimo, curioso. Não há economia de palavras, preocupação com os termos, o texto é mais livre, digamos assim. Já naquela ocasião, resolvi que o “Três filhos? Tá bem na fita, hein?” merecia a versão 2.0. Pensei em fazê-lo no fim do ano, mas diante da última pesquisa divulgada pelo IBGE na última semana que tratou da estimativa de crescimento populacional dos municípios brasileiros de 2015/2016 e com a riqueza dos comentários dos leitores, resolvi antecipar a versão 2.0.

Começarei por uma constatação bem cotidiana que trago comigo por pura observação. Quando comecei a fotografar famílias em 2006, era raríssimo aparecer em meu estúdio uma família com três filhos, ou melhor, uma grávida de terceira gestação. Dois filhos já era considerado o limite. Recordo-me de que quando apareceu a primeira família com esse perfil eu assustei. Eram filhos em escadinha e, naturalmente, eu fiz aquela pergunta infeliz: eles foram planejados? A mãe respondeu que sim e eu, obviamente, não acreditei. Ela estava grávida do terceiro menino, aí eu fiz a outra pergunta infeliz: você queria uma menina? Ela respondeu: Não, eu queria um filho. Depois desse dia, nunca mais eu fiz essa pergunta, mas imagine o quanto a escutei quando engravidei do meu terceiro filho, depois de ter duas meninas. O fato é que famílias maiores eram muito raras. Contudo, nos últimos quatro anos consigo perceber que essa realidade vem mudando. Já não é tão incomum o terceiro filho, pelo menos no meu estúdio, já fotografamos muitas famílias com três filhos e até com quatro, do mesmo pai e da mesma mãe. Se contarmos os “meio irmãos” aí os exemplos são inúmeros.

Quando o artigo foi publicado, uma centena de pessoas com três filhos ou mais apareceram e narraram as suas histórias, como se, finalmente, alguém as representasse. E o mais interessante: jovens que ainda não casaram, mas que manifestaram o desejo de ter três filhos e que comungam das ideias apresentadas no texto. Depois de ler tantos comentários, reler o texto que escrevi, cheguei à conclusão de que, na verdade, o texto não era uma espécie de desabafo do tipo “poxa, deixa eu ter quantos filhos eu quiser”. O texto era uma denúncia contra uma sociedade supérflua que se pauta no consumo e que se deixa conduzir e seduzir. A decisão de se ter um número x de filhos é do casal, ou pelo menos deveria ser. Contudo, parece-me que não é do casal a real decisão. Tenho me convencido de que são os padrões de consumo que têm a palavra final.

Há ainda quem acredite ou defenda que não se pode ter mais filhos porque o planeta não suporta mais tanta gente. Um documentário feito pela BBC em 2009, intitulado “How many people can live on planet earth?” (Quantas pessoas podem viver na Terra?) que tive conhecimento porque um leitor do texto postou nos comentários da versão 1.0, diz que nascem no mundo duas pessoas por segundo, 200 mil todos os dias, 80 milhões por ano. Em 2050, seríamos uma população de 9 bilhões de pessoas e que não haveria recursos como água e comida para tanta gente. Esse crescimento se deve ao controle de doenças e à maior expectativa de vida.

Oh, Deus, porque então o Senhor foi deixar a gente descobrir a cura dessas doenças? Pra que lutar pela cura do câncer e de outras enfermidades? Se temos que controlar esse aumento populacional, o jeito é deixar as pessoas morrerem. Teríamos um problema a menos. Afinal, é mais fácil deixar o outro morrer ou impedi-lo de nascer do que cuidar da NOSSA CASA COMUM, como sabiamente chama o papa Francisco. Há quanto tempo ambientalistas têm gritado que o planeta não suporta mais tanto lixo, tanto consumo irresponsável?

Outro dia, vi uma notícia na internet de uma cantora muito conhecida dizendo estar realizada como mãe e que se sentia completa. Questionada sobre o desejo de ter mais filhos, ela teria respondido: “Estamos muito satisfeitos. Ter filho hoje é quase uma irresponsabilidade. O mundo está superpovoado.” Sou grande admiradora dessa artista e confesso ter muita dificuldades em acreditar que ela disse isso. Justamente ela que, com o irmão, construiu uma história de sucesso, beleza e que marcou gerações. Ela deve ter visto o documentário da BBC e ficou impactada, só pode! Se um dia eu a encontrasse e tivesse a oportunidade, diria: amor de mãe só multiplica, nunca divide. Amor de mãe sofre, mas sofre porque ama. Amor de mãe nos torna mais humanas porque nos coloca diante das nossas imperfeições e impotências. Amor de mãe nos diviniza, porque nos tornamos Geradoras e Criadoras de Vida. Isso é dom, é mistério, é graça.

Aí eu vejo o documentário, assisto atenciosamente a defesa em torno da Planeta e escuto o IBGE dizendo que a população brasileira está descrescendo cada vez mais.  O que isso significa? Significa que, em um futuro muito próximo, antes de 2050, o Brasil será um país de idosos. Eu estarei, se tudo correr direitinho (brinco sempre que quero muito ir para o céu, mas não tenho a mínima pressa, risos), com 75 anos. Como é manter um país com maioria idosa? Como fica a Previdência Social? Quantos serão os jovens e adultos economicamente ativos? Já que tudo se justifica e se explica pela economia e que ter muitos filhos é estar bem na fita, dispondo de muito conforto financeiro, vale a pena pensar um pouco além.

Creio que tudo na sociedade é cíclico. O homem vai de um extremo a outro na busca do equilíbrio. Saímos de famílias com 10 filhos, para 4/5 filhos, depois para 1,5 filho (média de filhos por casal segundo o IBGE). Em um tempo próximo, as famílias tendem a aumentar.  Aproveito aqui até para dizer uma palavra aos empreendedores do mercado hoteleiro. Que tal pensarem em quartos de família que comportem cinco pessoas? É, no mínimo, estranho, hospedar-se em um hotel e ter de separar os filhos em dois quartos. No final do século passado, vimos a mulher se emancipar, sair de casa para cuidar da carreira, deixando de lado a educação dos filhos e delegando-a a terceiros. Hoje, quantas mulheres têm revisto essa escolha, têm optado em “crescer menos na carreira”, para “crescer mais na família”? Isso não significa largar o emprego, mas talvez diminuir a carga horária, pedir uma licença, fazer uma escolha, viver com um padrão de vida menos supérfluo e mais essencial.

Depois de escrever dois artigos sobre o mesmo tema, concluo que pessoas supérfluas perguntam quanto CUSTA um filho, enquanto pessoas essenciais perguntam quanto VALE um filho. Termino o texto agora, vou entrar para a sala e sei que o caçulinha que completa dois anos dentro de algumas semanas vai correr em direção a mim e gritar: mamaiiii. Nessa hora, tudo para e sedimenta em mim a certeza de que eles não custam, eles valem.

Ivna Sá para Muitas MariasIvna Sá
Casada, mãe de três crianças, autora e professora universitária, é fotógrafa de famílias há 10 anos, profissão que descobriu com o nascimento da primeira filha. Há dois anos se dedica ao universo feminino com a criação da marca Ivna Sá Para Mulheres. Além de fotografar mulheres de diversas idades, palestra sobre a mulher contemporânea numa abordagem social, antropológica e cristã. Ivna é uma das pioneiras do Ministério Universidades Renovadas no Brasil.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com . 

3 comentários sobre ““Três filhos? Tá bem na fita, hein?” versão 2.0

  1. Adorei o texto. Tenho apenas um filho e me incomoda o modo como a sociedade impõe que “temos” que ter dois filhos, de preferência um casal!! Se você só tem 1 é julgada e se sente na obrigação de justificar esse número. Se tem 3, é louca; se tem 4… nossa… como te deixam solta pela rua?? Você é quase uma ameaça para a sociedade. As pessoas deveriam se tocar e parar de fazer tantas perguntas infelizes.

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  2. Amei Ivna! Sigo aqui com meus 4 #sapecasboys e já observo uma redução no número de vezes que eu e o Paulo somos chamados de loucos, talvez por verem que nossos sapecas são muito felizes tendo menos e existindo mais💓 sigo orando por vc!

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