O preconceito está nos olhos de quem vê

Quantas vezes você já não ouviu alguém dizendo “sou uma pessoa sem preconceito”, “trato todos de modo igual” ou, então, “nunca agi de modo discriminatório em minha vida”? Pois é, talvez, você também já tenha dito isso, não é mesmo? Vamos ser bem honestos: ninguém gosta de admitir seu lado obscuro. A questão é que ele existe e todos, sem exceção, em menor ou maior grau, somos preconceituosos. Sim, todos.

Eu sou uma dessas pessoas que sempre dizia “sou uma pessoa sem preconceito” e apenas recentemente descobri que isso não era verdade. Sempre me incomodei com comentários racistas, sexistas, classistas ou que denigrem a imagem de uma pessoa simplesmente devido à sua opção sexual. Mas, refletindo mais extensivamente, reconheci como preconceitos antigas visões sobre determinadas pessoas. Exemplo? “Não gosto de emergentes (acham que o fato de terem dinheiro lhes dá o poder para agirem como quiserem com os outros)” ou “esse povo que vive na academia é muito fútil”.

Como é vergonhoso perceber que cometemos atitudes semelhantes àquelas que condenamos! Contudo, é preciso entender que o preconceito (juízo preconcebido) e a discriminação (atitude gerada a partir de nosso preconceito) são mecanismos viciosos que começam no indivíduo e, a partir dele, quando assimilados por um governo ou sociedade, transforma-se em opressão. E é isso o que muita gente não entende.

É fácil ser contra as cotas para os negros quando se é branco e, por esse simples fato, privilégios são mais fáceis de se obter; é fácil condenar um homossexual quando se é heterossexual e ninguém lhe trata mal, faz piada ou bate; é fácil dizer que não existe preconceito contra a mulher no meio corporativo quando se tem maior acesso a cargos de liderança pelo simples fato de ser homem. Mais do que um mero preconceito ou discriminação, o que essas pessoas vivem é a mais dolorosa das opressões.

Se você acredita que nossa sociedade é justa e trata a todos da mesma forma (não na teoria, mas na prática), por que há mais negros nas prisões do que brancos? Por que vemos pessoas olhando torto para alguém quando descobrem que essa pessoa é homossexual? Por que há tão poucos cargos de liderança nas mãos de mulheres? Não falo aqui sobre posições ideológicas, mas sobre o respeito ao outro como ser humano acima de qualquer coisa.

A opressão social, como vemos, existe. E podemos dizer que não é um indivíduo que acabará com ela. Mas o preconceito e a discriminação podem ser trabalhados em nós. Como disse, cada um de nós tem seus preconceitos, mas é só quando confessamos a nós mesmos nossas misérias que podemos trabalhá-las. A negação não nos levará a lugar algum. Considerando que cada um de nós tem um preconceito contra uma pessoa ou outra, para nos tornarmos seres humanos melhores não basta dizer que somos desprovidos desse sentimento. É no silêncio da nossa alma, despindo-nos de nossas certezas, que poderemos ser sinceros conosco e nos perguntar: que preconceito eu vejo dentro de mim?

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com . 

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