Curtidas não salvam vidas e não matam o frio

Era uma manhã de domingo muito especial com direito a café da manhã farto e coletivo. Em torno de uma mesa, cinco casais e onze crianças/adolescentes em faixas de idade que vão de catorze a dois anos. Uma vez por mês vivemos essa experiência de encontro de famílias, sempre na casa de um dos casais. Tomamos o café juntos e depois temos um momento de oração, seguido de muita partilha. A família que acolhe é a responsável pelo café e por preparar um tema de acordo com o seu desejo e inspiração. As crianças ficam em outro ambiente com alguma atividade e nós partilhamos a Palavra e a Vida, depois de partilhar o pão. Esse grupo ou pequenina comunidade se reúne uma vez por mês há quase 4 anos. Somos todos católicos, mas nosso grupo não tem nome e nem regras. Cada casal tem seu compromisso paroquial ou comunitário e é completamente livre para preparar o encontro mensal a seu modo. O que nos faz estar juntos é a necessidade de uma vida fraterna intensa e profunda, já que aprendemos essa lição quando ainda jovens, todos inseridos em uma trabalho de evangelização chamado de Ministério Universidades Renovadas.

O tema que vou escrever não é o grupo, mas como a inspiração do artigo nasceu de um dos nossos encontros, julguei importante trazer o cenário onde o que vou narrar aconteceu. Em nosso último encontro, o casal que nos acolhia preparou uma reflexão acerca do evangelho de Marcos, capítulo 8, versículos de 27 a 38. Trata-se do impactante diálogo de Jesus com os discípulos e, por conseguinte, com Pedro.

Jesus e os seus discípulos estão em viagem para Jerusalém, próximos a Cesareia de Filipe, cidade situada no extremo norte da Palestina, junto às fontes do rio Jordão. Enquanto caminham, Jesus dirige uma pergunta aos discípulos que tem a ver com a sua identidade: “Quem dizem os homens que eu sou?” (Mc 8,27b). Na sequência, volta-se a Pedro e pergunta: “E vós quem dizeis que Eu sou”? Naturalmente, a questão proposta por Jesus não tem uma única resposta e Pedro fica ali, olhos nos olhos do Mestre, e com essa batata quente nas mãos.

Naquela manhã de domingo, a proposta era fazermos a experiência de Pedro. Cada um tinha de responder à pergunta, sem contudo apelar para as respostas prontas e catequéticas. Fiquei a pensar em quem era Jesus para mim. Ele era e é tantas coisas e resumi-lo a uma palavra apenas seria um reducionismo muito grande. A complexidade semântica em torno de um Nome que representa o princípio, meio e fim de todas as coisas, como é na experiência cristã, definitivamente dificultava demais a resposta. Enquanto refletia sobre o que foi proposto, recordei-me de dois fatos que me chamaram muita atenção durante aquela semana que terminava. O primeiro foi de uma mãe compartilhando o estado de saúde de seu filho, o pequeno Samuel com pouco mais de 1 ano e que precisa de um transplante de medula óssea. Não a conheço pessoalmente, mas ela participa de um grupo de mães do facebook que também participo. O outro fato foi com a minha irmã mais velha que pedia a todos nós, no grupo de família do whatsApp, que juntássemos roupas de frio que ela iria levar a uma entidade que cuida de moradores de rua.

Dois fatos distintos mas que tem em comum o amor. Esse amor gratuito, genuíno, sem interesse, puro como deve ser e como Ele ensinou. Relembrar esses dois fatos gerou em mim uma inquietação muito grande. Foi então que respondi à pergunta proposta: “Jesus é para mim um PROVOCADOR”. Nunca pensei que em meio a tantas palavras lindas, escolheria uma tão subversiva. A experiência com o Cristo precisa gerar em nós esse movimento de olhar para o alto e para os lados. Percebia naquela hora que estava olhando para o alto, mas havia me esquecido de olhar para os lados. O pequeno Samuel que precisa de um transplante tem a idade do meu filho caçula. Fiquei a pensar: “E se fosse comigo? E se fosse com o meu filho? Como é ter de implorar para que as pessoas se cadastrem como doadores para manter viva a esperança da cura de um filho?”

Pensei ainda nas pessoas que sentem frio e que dormem na rua. Naqueles dias, BH registrava os dias mais frios da última década. Quantas roupas no guarda-roupa que poderiam ser doadas! Tomei ali uma decisão: nada era mais importante no outro dia, a segunda-feira, do que ir ao Hemocentro e fazer o meu cadastro de doadora.

Chegando lá, havia uma caravana inteira na minha frente. Todos vinham do interior de Minas para se cadastrarem e doar sangue para reposição. O pequeno João Pedro de 7 anos que luta contra uma leucemia desde 1 ano de idade ficou internado por 40 dias e precisou de muito sangue. Conheci a sua mãe, ouvi histórias, chegou a minha vez de tirar o sangue, após esperar por mais de duas horas. Mas nada tirava a minha alegria de estar ali. Era muito pouco e, ao mesmo tempo, poderia ser muito. Ao tirar o sangue fiz a minha oração a Jesus: que eu possa salvar a vida de alguém, quem sabe do João ou do Samuel.

Quando terminou o procedimento, outra surpresa! Encontro duas mulheres ao lado de uma mesinha cheia de doces deliciosos, daqueles que só se come em uma boa festa de criança. Pensei que estavam vendendo em prol de alguma campanha e aproximei-me. Encontrei a mãe do João Pedro, senti o desejo de abraçá-la e o fiz (a gente nunca deve economizar abraços), chorei com ela ao contar da minha oração. De repente, todas ali estavam tomadas de emoção inclusive as “vendedoras de doces”.  Nessa hora, eu ganho um doce e pergunto quanto é. Elas respondem: é seu, não é vendido. Era o dia do aniversário delas e, todos os anos, elas comemoram assim: vão ao Hemocentro e convidam os amigos para irem até lá comerem um docinho. A condição é doar o sangue e fazer o cadastro para doação de medula. Meu queixo caiu! Fiquei extasiada com aquilo tudo, sentei-me e comecei a perguntar mil coisas, conversar e entender um pouco mais sobre o processo de doação e de onde saía tamanho gesto de amor. Fiquei ali por mais uma hora e não via o tempo passar.

Voltei para casa com o coração acelerado. Ele batia em direção ao Alto e batia para os lados. Naquela tarde, juntamos as roupas para doação aos moradores de rua. Há muitas pessoas boas no mundo, há muitas maneiras de fazer o bem. Ficava pensando: por que não fiz isso antes? Nas minhas reflexões encontrei uma possível resposta. Em tempos de tanta conexão, redes, virtualização das relações, passamos a acreditar que “curtidas” salvam vidas, matam o frio, geram engajamento político, cuidam da sustentabilidade do planeta. De repente, eu descubro que posso ser cidadã e cristã apenas no mundo virtual. Curto, compartilho, comento…mas sempre ali, sentada em frente ao computador ou ao smartphone. Quando somos convocados a engajar, de fato, em alguma ação, a resposta está na ponta da língua: nunca tempos tempo. Será? E o que é o tempo, senão prioridade?

Ele, o Cristo, está diante de mim. Seu olhar de amor e de mestre me provoca, me faz sair do lugar e ir ao encontro do outro, mesmo que eu não o conheça. É Ele quem me ensina o que é o tempo, o que é prioridade, se escrevo essa experiência para inspirar outras pessoas ou se gasto esse tempo para verificar as notificações do celular. Não, a vida é muito mais do que conexões virtuais e postagens muitas vezes sem relevância alguma. A vida é formada por relações sólidas e não líquidas. Recordei-me agora do sociólogo Zygmunt Bauman que trata com maestria do que chama “modernidade líquida”. Mas esse é assunto para outro artigo. Por hora preciso e desejo me aprofundar nesta pergunta tão desconcertante: “E, vós Ivna, quem dizeis que Eu sou”?

Obs: Se você tem entre 18 e 55 anos, vá ao Hemocentro de sua cidade e faça o seu cadastro, lembrando-se sempre de mantê-lo atualizado. E se tem qualquer idade, doe roupas e agasalhos a quem tem frio; ajude uma família que sofre com o desemprego. Há tanto por fazer…

Ivna Sá para Muitas MariasIvna Sá
Casada, mãe de três crianças, autora e professora universitária, é fotógrafa de famílias há 10 anos, profissão que descobriu com o nascimento da primeira filha. Há dois anos se dedica ao universo feminino com a criação da marca Ivna Sá Para Mulheres. Além de fotografar mulheres de diversas idades, palestra sobre a mulher contemporânea numa abordagem social, antropológica e cristã. Gosta de gente, pão de queijo, Atlético Mineiro e uma boa prosa.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com . 

2 comentários sobre “Curtidas não salvam vidas e não matam o frio

  1. Lindo, precisamos deixar de ser egoístas em nosso dia dia, nossos problemas, nosso mundinho e olhar além. Pra mim Jesus é um pai amoroso que não se cansa de me mostrar o que é bom e por onde seguir. Queridas Marias, parabéns pelo lindo trabalho que fazem. Deus lhes abençoe!

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    1. Olá Maitê, esse convite para olhar fora do nosso umbigo é muito forte. não é mesmo? Nem digo olhar ALÉM, porque na verdade, seria exigir muito. Bastar olhar para os lados e já teremos muito o que fazer…
      Que Jesus amoroso te proteja sempre!!!

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