Ser mulher: sentido em disputa

Essa semana visitei uma barbearia.

Não para me cuidar, mas para acompanhar  meu esposo. Fui de curiosa, porque pelo menos por aqui, está uma modinha de barbearias em estilo vintage, que servem bebidas, petiscos, e tal.  Enquanto ele se cuidava por lá, avistei duas revistas que estavam sobre a mesinha da recepção, ambas com mulheres lindas na capa. Nenhum dos caras que  ali esperava se interessou pela leitura, mas lá fui eu folhear  e, ao contrário do que imaginava, as duas revistas masculinas não tinham nenhuma receita do tipo “enlouqueça a gata na cama”, ou “os segredos da barba bem feita em dez passos”, ou mesmo “saiba qual estilo de calça valoriza o seu bumbum” nem nada parecido com  “use este penteado e suba na carreira”. Havia textos sobre economia, política, viagens, trabalho, veículos e outros temas gerais, sem qualquer apelo emocional ou estético. A moça da capa aparecia com pouca roupa em um editorial provocante no meio da publicação.

Me chamou atenção que uma das matérias era sobre “como dar um pé na bunda com elegância”. Sério! O texto falava basicamente que, se o cara percebeu que a menina não era mais “aquela brastemp” do início da relação, que desse o fora rápido e pessoalmente.

Comparando este e outros textos que fui lendo ali às várias matérias das revistas femininas das quais me recordo, percebi que os sentidos destas publicações são bem opostos, já que as revistas ‘para meninas’, digamos assim, tem pautas do tipo  “prenda o cara a qualquer custo” ou ”dieta para  o homem se apaixonar loucamente”, e também “as posições sexuais que vão laçar seu parceiro” enfim… textos que nos levam a arregaçar as mangas para ter um relacionamento, enquanto que as ‘para meninos’ tem uma infinidade de outros temas.

Essas  representações do ser mulher pautam nossas conversas e nosso cotidiano – e me incomodam muito.  Mas, não sou a única! Recentemente, ao questionar as pessoas sobre as capas das revistas femininas,  tive  várias respostas (que compilo ao final do texto), todas, com  impressão similar: as revistas femininas vendem uma mulher irreal, com receitas milagrosas para emagrecimento,  incutindo padrões de beleza e comportamento bem artificial e distante da nossa realidade. Mas mesmo a gente sabendo disso, por que ainda compra, curte, compartilha, lê, recomenda “para as amigas”, e às vezes até chora escondido por não conseguir corresponder às  prescrições, como se fossem verdade?  Essas revistas estão aí porque VENDEM. E muito. Em média as tiragens  giram em torno de 200 mil exemplares hoje.Apesar das palavras da moda serem  sonoridade, empoderamento, e trazerem a ideia das mulheres que lutam pelas mulheres,  somos nós mesmas que compramos esses conteúdos que nos reduzem a um bibelô na vitrine, um pedaço de carne no açougue, uma eterna dependente de corresponder aos anseios do homem que será o salvador da pátria.

É preciso criar novos espaços de fala e debate sobre o  ser mulher, trazendo outros discursos que sejam  mais palpáveis, reais, de “gente como a gente” . Esses outros sentidos precisam  circular e disputar o sentido de ser mulher na nossa sociedade.

Há um ano, Muitas Marias, que ora eu chamo de portal, ora de site, ora de projeto, ora de revista, enfim, esta obra Muitas Marias dá voz a gente simples, com histórias ricas de significado e olhares diferenciados sobre o cotidiano feminino. Gente que, como eu, está cansada dessa mesmice editorial.

A gente não disputa também os espaços das bancas de revista (ainda!), mas tem buscado trazer conteúdo de qualidade na web, com pautas que atravessam o dia a dia de gente de todo o país – e de fora também .É lindo saber que nosso conteúdo já chega até fora do Brasil, nos Estados Unidos, Portugal, Reino Unido, Canadá, Alemanha, França, Espanha, Japão, Australia…

E para fora do mundo virtual também!  Já participei de quatro encontros de mulheres para  apresentar o Muitas Marias e ver o brilho nos olhos das pessoas e seu desejo de participar desta iniciativa me mostram que sim é preciso – e possível – falar das mulheres de outra maneira.

Engraçado que recentemente, em um desses eventos, em  Brasília, em meio às várias perguntas sobre nosso processo editorial, me questionaram quanto a gente ganha com o Muitas Marias. Eu ri, e respondi que a gente só gasta. Já reparou que não temos aquelas propagandas chatas que os blogs geralmente trazem? Já viram como nossa proposta é clean, sem frufrus demais, sem nada desnecessário? Quem financia isso e as edições, artes, repercussões nas redes sociais, participa de eventos… é tudo a gente mesmo, quatro mulheres com recurso próprio e muita alegria pela causa! As fotos que ilustram cada texto são retiradas de uma plataforma free, ou do acervo dos autores.  Nosso parceiro privado é a Editora Paulinas, que nos possibilita incentivar a leitura doando mensalmente um livro para sorteio ou resenha, sem qualquer recurso financeiro envolvido. Aliás, um acréscimo: além de nós quatro, quem programou o site e faz a manutenção dele é o meu esposo,  a quem eu agradeço sempre que posso e onde vou, pois sua disponibilidade é fundamental para que você, leitor, acesse todos esses conteúdos e os demais que virão.

Esse processo tem valido a pena porque pouco a pouco,  pautamos outros sentidos sobre o ser mulher, e disputamos espaço nas timelines e nas conversas cotidianas sobre outras formas de viver a vida feminina, sem corresponder aos padrões das capas de revista.A gente está fazendo a nossa parte, bem nos moldes do beija-flor apagando o incêndio, e o retorno de cada pessoa que leu, escreveu, fez contato, nos ouviu,   faz valer a pena.

Então, ao invés de só reclamar da opressão das mulheres, vamos continuar fazendo! E eu te convido a também fazer alguma coisa! Busque uma forma de pautar esses outros sentidos da mulher na sociedade! Faça algo novo!  Se quiser, manda o seu texto pra gente compartilhar também! Ou ainda,  faz um evento, e chama que a gente vai, divulga, participa. Eu espero que iniciativas como nosso Muitas Marias pipoquem pelo Brasil e pelo mundo afora porque há espaço  e é preciso muito mais gente criativa e disposta a mostrar outras representações sobre o ser mulher e disputar esse sentido .

Se você está ainda em dúvida sobre o que pode fazer, peço que hoje,  faça uma prece pelo nosso Muitas Marias, que completa um ano este mês! Como católica, eu creio muito no poder da oração, e só ela tem sustentado nosso Muitas Marias.

E, mesmo que  você não tenha religião nenhuma, a sua torcida já nos impulsiona, viu! Torce daí, curte, compartilha, escreve, cria e vem com a gente!

A vida é uma só, mas você pode ser muit@s!

Opiniões de algumas pessoas da minha timeline sobre as revistas femininas: 

Valdirene de Miranda Todas vem estampando na capa uma mulher magra, com a barriga sarada e muitas receitas para emagrecer, como se fosse um milagre. Nas outras páginas vc irá encontrar dicas para segurar seu parceiro na cama e o modelo de roupa certo que vc deve usar para parecer aquilo que vc não é.  Resumindo “o mesmo do mesmo”.

Daniel Cardozo Tenho a impressão de que reciclam as mesmas matérias há 20 anos. As chamadas sempre no eixo emagrecimento, plásticas, sexo e dietas. Não sei como as leitoras podem não reparar.

Bené Alves Tudo muito artificial, feita para um público X. Não vejo verdade na capa, nem tão pouco na revista em si. Criatividade zero!

Heslley Couto Hum, faz tempo que não vejo destas… Ou se vejo, não “reparo”! Mas, me lembro de terem mulheres “chamativas”, em poses “glamurosas”. O conteúdo?! já folheei alguma, numa destas salas de espera da vida. Recordo ter encontrado dicas(um monte delas), mais mulheres lá dentro, sendo perguntadas como perderam tantos kg em tantos meses… Bom, acho que é isso!

Ligia Pereira Umas trazem fotos de mulheres malhadas, gostosonas, outras, de mulheres poderosas, cabelos longos esvoaçantes, e algumas poucas mostram só o rosto mesmo. Em idade, nenhuma idosa/madura.

Maria Luiza Sampaio Alves Sempre olho e me vejo muito distante do “corpo ideal” definido pela mídia … d pra completar sempre fico c vontade de comprar pra saber como perder 4kg em 7 dias

Dianamy Andrade Sempre o trivial: mulheres transformada por aplicativos (não existe esses padrões de beleza); reportagens sobre dieta, sexo, moda (que alguém dita), consumo e datas comemorativas.

Daniel Mesquita Creio que o foco dessas revistas é para mulheres de classe média+ que se preocupam com sua estética e apresentação visual.

Núbia Nascimento As capas não me fazem ter vontade de abrir a revista para ver seu conteúdo. Elas parecem as mesmas de sempre.

Ariadner Ribeiro Faço minhas as palavras da Valdirene.

Eliana Tavares Tudo bem fugaz!

Leonardo Novaes Do Nascimento Faz tempo que não entro numa banca de revistas, mas a impressão que eu tenho é que, frequentemente, as mulheres nas capas dessas revistas geralmente estavam só um pouco melhor vestidas do que as das capas das revistas para o̶s̶ ̶s̶e̶m̶ ̶v̶e̶r̶g̶o̶n̶h̶a̶ o chamado “público masculino”.

Hellen Cristhine Oliveira Todas no mesmo padrão sempre: mulher, beleza, plásticas, dieta, moda, dicas de conquistas ou reconciliação. São literalmente: Affs.

Amanda Castro Rosa Pereira Esteriótipos de beleza… Receitas milagrosas…

 

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com . 

4 comentários sobre “Ser mulher: sentido em disputa

  1. Marias! Conheço as quatro e sei o quanto tem se empenhado. Amei sua colocação de hj Mariella: Não disputam
    espaço nas bancas (ainda)… Mas as nossas não há com o que preocupar: todas elas cada dia mais digitais….que aguardem!

    Curtido por 2 pessoas

  2. Mari, adorei o texto! Realmente, na nossa cultura “macho”, ainda estamos submetidas a um peso injusto de expectativas e pouca retribuição. Enquanto em nossas revistas femininas vemos artigos sem fim sobre como seduzir, atrair e conquistar o sexo oposto, as revistas masculinas ensinam como dar o pé na bunda das mulheres, mas sem perder a classe. Revistas femininas que se dizem “feministas”, mas que, na verdade, só perpetuam a visão da mulher-produto e não humana.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Chris, que bom que gostou do texto!
      É bem esse o espírito da coisa, só sendo muito boba pra continuar nessa vibe de ler as mesmas coisas que só nos colocam pra baixo!
      Obrigada por sonhar comigo esta empreitada linda, modéstia a parte, está uma alegria só ver o resultado do nosso trabalho e empenho.
      Sigamos!!!

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