Por um mundo com menos furiosos cibernéticos

Vivo brincando que a relação “brasileiro x internet” precisa ser estudada. Nós, simplesmente, dominamos as redes sociais. Quem está mais por dentro, sabe muito bem.

Exemplos? A jogadora americana, Hope Solo, foi massacrada por piadas de brasileiros nas redes. A goleira da seleção feminina de futebol aguentou as piadas dentro e fora de campo depois de uma foto publicada pela própria com um kit contra o Aedes Aegypti. O kit a permitiria participar das Olimpíadas no Rio sem contrair o zika vírus. Outro exemplo para consolidar esta ideia é sobre o ator Tyler William James. Tyler era o personagem principal da série “Todo mundo odeia o Chris” e diariamente sofre com milhares – são milhares mesmo!- de comentários de brasileiros no Instagram que insistem em escrever os principais bordões de Chris nas fotos dele. Ele chegou a dar uma entrevista pedindo caridosamente que parassem com esses comentários.

Fátima Bernardes e William Bonner, Luana Piovani e Pedro Scooby, Angelina Jolie e Brad Pitt foram os casais de celebridades que se separaram recentemente e, possivelmente, sofreram com esta perda tão significativa na vida pessoal. Enquanto isso, pessoas sem o mínimo de bom senso escrevem o que pensam sobre as suas separações através de comentários nas páginas deles.

Quando a repórter Fernanda Gentil e o marido Matheus Braga se separaram, comunicaram à imprensa e pediram que respeitassem esse momento que cabia a eles. A situação já era delicada por si só.  Enquanto isso, nas redes sociais dos dois, chuva de comentários. Era possível encontrar tudo: apoiadores da Fernanda, pedidos para que os dois se reconciliassem, insultos a Matheus (surgiu uma história de que existiu uma traição da parte dele), recém-divorciados que partilhavam seu sofrimento, enfim, uma infinidade de considerações dos internautas sobre a situação.

Quem chamou aquele pessoal ali? Quem disse que Fernanda e Matheus queriam a opinião deles? Quem disse que eles não se entristecem ao ler insultos, muitas vezes baseados em mentiras – e que mesmo que fossem verdades, não lhes dariam o direito de xingar uma outra pessoa?

Ler aquilo é de assustar. A internet dá aos usuários um anonimato e, consequentemente, um poder para falar o que bem querem sem ser incomodados. Duvido muito que se encontrassem Matheus na rua, ele seria xingado daquela forma. No mínimo, pensariam melhor antes de falar o que lhes vêm à cabeça.

As pessoas esquecem que existe uma mulher, um homem, um ser humano que lê aqueles comentários, que se ofende com a forma com que é tratado e, de modo especial, que as palavras muitas vezes machucam e podem causar no outro um dano difícil de ser superado.

A intimidade é algo que diferencia o ser humano de qualquer outra criação de Deus. Torna cada pessoa única, é esta a essência dela. Deve-se guardá-la para mostrar a quem lhe interessa e quem acrescentará coisas boas e não a degrade. O exercício é justamente esse, saber a quem convém o quê. A cada um dar a medida certa de intimidade: colegas de trabalho, amigas, namorado, marido, pais.

Mas também pode, e deve, se aplicar isso aos outros. Quanto me cabe da vida privada do outro? Existem pessoas que, por diversos motivos, têm a intimidade exposta mais do que deveria. Muitas vezes, elas nem quiseram isso. É preciso ter certeza quando se recebe essa liberdade dada pelo outros de falar certas coisas ou agir com determinadas atitudes. Não é porque se está protegido por perfis em redes sociais que se pode transgredir a particularidade do outro.

merlice

 

Marlice Pinto, 24 anos. Jornalista por formação mas que substituiu textos por planilhas apesar de morrer de saudade deles. Seu maior sonho é casar. Só falta aprender a passar camisa, ser paciente, comer melhor, tirar mancha de molho, testar mais receitas, ter um salário melhor e umas outras coisas.

 

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com . 

Um comentário sobre “Por um mundo com menos furiosos cibernéticos

  1. Oi Marlice,
    bem vinda ao nosso Muitas Marias, sinta-se em casa, escreva-nos sempre!
    O tema do seu texto é atual e importante, gente… por que tanta patrulha nas redes sociais? O que mais me impressiona é, geralmente quem dá pitaco na vida alheia sequer tem alguma intimidade.
    Ao mesmo tempo,penso que vale a pena a gente se policiar também, afinal, se a gente compartilha demais, está sujeito a essa gente chata que gosta de dar palpite. Amei sua frase””A cada um dar a medida certa de intimidade: colegas de trabalho, amigas, namorado, marido, pais.”
    Abraço e paz

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