Nem todas as mães amam os filhos

Impactante. Real. Reflexivo. Provocador.

Esses são alguns dos adjetivos do livro autobiográfico da publicitária Rose Ferreira, que relata com riqueza de detalhes a sua situação de violência doméstica desde a infância, por parte do pai e, em especial, da mãe com traços de psicopatia. A obra expõe o avesso do amor materno incondicional e retrata o cotidiano de uma menina, adolescente e mulher rejeitada pela família. Eles não queriam filhos, mas essa gravidez, ao contrário das anteriores, abortadas, foi descoberta muito tarde. Então esperavam um menino, mas nasceu uma menina que atrapalhou o corpo e as baladinhas dos pais.

As situações de agressão física e psicológica, de tortura, de humilhação, de abuso e sofrimento são lembradas pela autora com palavras envolventes. São tantas e tão distintas dores e omissões por parte dos vizinhos, parentes, educadores e colegas  que a tensão evocada permite ao leitor devorar as 215 páginas em um dia. A cada capítulo, o meu sentimento era de indignação e surpresa: ” essa menina vai continuar assim? Ninguém vai ajudar? Preciso ler o próximo pra ver se ela reagiu”. Lentamente, a  narradora vai tomando consciência dos motivos pelos quais a mãe depositava nela todas as suas frustrações, tristezas e arrependimentos, e fazia dela motivo de chacota e ira não só da vizinhança, mas dos próprios colegas de classe, professores e parentes,  inventando mentiras a respeito da filha.

Bullying na escola, tentativa de abuso sexual, surras sem motivo se alternam nos diferentes períodos em que era proibida de se manifestar dentro da própria casa – mesmo depois de começar a pagar as contas.

Rose nunca teve um Feliz Aniversário, um presente de natal ou dia das crianças celebrativo. A mãe dizia que eles não tinham dinheiro, mas ela sabia que sua família tinha situação financeira igual ou melhor que a das outras crianças da rua, que sempre comemoravam. O seu primeiro ovo de páscoa, dado pelo namorado enrolado em papel vermelho e guardado no armário, foi devorado pela mãe, sozinha, em sua ausência.

Ela não ganhou parabéns ao passar no vestibular, e a mãe também não foi à sua formatura.

E é impressionante como a narrativa não apresenta uma autora amargurada, triste, ou à espera da hora propícia para dar o troco a quem nunca lhe deu amor.

Ao contrário, percebe-se uma alma tão nobre, a ponto de fazer pela mãe agressora muito mais do que por si mesma.

É uma história linda de superação dos próprios limites e de vitória em meio a diversas adversidades.

Vale a pena ler e se emocionar.

Fiquei curiosa pra saber se a Rose ainda vive em Brasília, se encontrá-la na rua, só quero um abraço.

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Nem todas as mães amam os filhos

Rose Ferreira . Editora Paulinas. 215p.

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2 comentários sobre “Nem todas as mães amam os filhos

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