“Meus filhos, minhas regras”: afinal, filhos são propriedades dos pais?

“Da educação do meu filho cuido eu”; “não se meta com meu filho”; “com meu filho vai ser diferente”. Às vezes, tenho a ligeira impressão de que frases como essas, ouvidas a todo instante, são muito traiçoeiras. Se de um lado representam a preocupação e a responsabilidade dos pais, do outro, denunciam um pacote de superproteção dos filhos, como se eles fossem propriedade de seus genitores. Quer um exemplo bem corriqueiro? Pais que monopolizam uma reunião na escola para trazerem a singularidade de seu filho, esquecendo-se de que a escola é o espaço da coletividade. Argumentam embasados em teorias e testemunhos a realidade de seus pequenos e querem que a escola se molde à necessidade dos seus filhos. Não me refiro aqui à realidade de alunos portadores de necessidades especiais e à abertura cada vez mais urgente de escolas inclusivas, mas à dificuldade de compreensão de que, não obstante o difícil desafio de estar atenta à singularidade de seus educandos, a escola não é o lugar dos filhos e, sim, dos alunos. Isso já faz uma tremenda diferença.

Outro exemplo? A toda hora lemos e ouvimos histórias que dizem respeito ao uso de tecnologias por parte das crianças. Nunca tivemos tanta informação. E nesse quesito nenhum pai e mãe se atreveriam dizer:  eu não sabia.  A Sociedade Brasileira de Pediatria lançou no dia 11 de novembro uma cartilha com recomendações para a exposição de crianças e adolescentes à tecnologia. Segundo o órgão, os pais devem “desencorajar, evitar e até proibir a exposição passiva em frente às telas digitais (…) para crianças com menos de 2 anos”. De 2 a 5 anos, a orientação é limitar o uso a uma hora por dia. Aí vem a pergunta que não quer se calar: quem obedece a esses parâmetros?

Outro dia, encontrei, numa revista especializada em assuntos da primeira infância, uma reportagem sobre o tal uso da tecnologia em que um pai argumentava o fato de ter presenteado sua filha de 3 anos com um i-phone 6Splus. “Ela usa para fins didáticos e desenvolvimento da linguagem”. Como assim? Fiquei perplexa com o fato e a resposta. Não que a questão seja matemática numa relação precisa de causa e feito, porque a educação engloba muitos aspectos, mas quando lá na frente problemas surgirem decorrentes dessa atitude movida pelo estilo de educação baseado no “minha filha, minhas regras”, de nada adiantará impor novas regras. Aí elas não funcionarão mais.

A primeira infância compreendida como o período que vai da gestação até os seis anos de vida é a época em que a criança se desenvolve mental, emocional e socialmente. Por isso, acompanhar o seu desenvolvimento nessa fase da vida é tão importante quanto acompanhar a sua evolução física e neurológica. Mas como são tão pequenos, tão engraçadinhos, tão lindinhos, a gente vai negligenciando aquilo que vemos e sabemos que está errado, seja pelo cansaço, seja para não sair da zona de conforto.

Educar é a arte de repetir, repetir, repetir incansavelmente, ainda que nos canse. E como cansa! Educar é não ter medo do conflito. O grande educador Paulo Freire dizia que a paz não é ausência de conflito, ao contrário, a falta do conflito pode sinalizar uma paz falseada, mentirosa, opressora. Se não há conflito, não há diálogo, não há crescimento. Muitas vezes, a “paz” que reina em nossos lares ou o “paraíso” propiciado pela fixação nas telas azuis que se multiplicam cada dia mais e com mais atratividade, podem se tornar o nosso “inferno” amanhã. A grande questão é que os alertas são muito bons, mas para os filhos dos outros. Para os meus, eu tenho as minhas regras, eu sei controlar, quem educa sou eu.

Que armadilha! A tecnologia é apenas um dos exemplos. Poderíamos citar tantos outros, sobretudo os que dizem respeito ao acúmulo de bens de consumo. Tenho a impressão, às vezes quase uma certeza, de que com tanta informação nunca vivemos tão perdidos como se tivéssemos completamente desinformados. Modismos que surgem aqui e ali. Tendências que mudam de tempo em tempo, às vezes entre um filho e outro, e dão conta de tudo que é ideal para a educação dos nossos filhos. São tipos de parto, tipos de alimentação, modelos de maternidade, educação sem escola, escola sem partido, professor acuado diante de uma sociedade que em algum momento retirou a sua autoridade e a depositou por inteiro nas mãos dos alunos.

Um dia pode comer ovo, noutro ele é o vilão. Proteína do leite faz mal. Agora é a vez do glúten, decretamos a morte da farinha branca. Corta o açúcar, utiliza o adoçante. Mas o adoçante tem muito sódio, aumenta a pressão. Corta o refrigerante, bebe o suco. Mas o suco de caixinha tem muito sódio, faz o suco natural. Mas o natural tem de ser feito na hora, senão perde os nutrientes. Aí fica difícil demais e pesado demais ser pai, ser mãe e ser gente.

O parto normal deitado é violento, a mulher fica exposta para o médico, o médico não pode ajudar, porque é o bebê que escolhe a hora certa de nascer. Então o jeito é fazer na água. Mas nem todo mundo dá conta, mas se não for assim, você não será uma mãe de verdade. Outro dia estava em um evento de mães e uma mulher que se dizia noiva, ao fazer uma pergunta às palestrantes, já mostrava a sua angústia com a dificuldade de se encontrar um obstetra que faça o parto natural humanizado em sua casa. O tom de angústia da pergunta para quem ainda era noiva me assustou.   

Educar filhos nesses tempos de tantas vozes nunca foi tão difícil e tão pesado. Na busca da perfeição, na autocobrança “será que estou agindo certo?”, “meu filho não vai suportar essa frustração” acabamos cometendo o pior dos erros: achar que vamos acertar. Afinal, estou sempre me informando, lendo, pesquisando o que é o melhor para o MEU filho.  Relaxa, o mundo não gira em torno dele, em torno de você, de sua família. O mundo não gira em torno do nosso mundo. Um dia eles vão crescer, vão se tornar pais e também vão errar, como os nossos pais erraram.

Enquanto escrevia esse artigo, minha filha mais velha de 11 anos chegou perto do computador, leu o título e foi dizendo: “não concordo, não”. Eu perguntei: não concorda com o quê minha adolescente? Ela respondeu: “com essa história de regras e propriedade. A gente tem de ter uma liberdade consciente”. Resolvi ouvi-la e ela completou: “Mãe, filho não é propriedade dos pais, porque propriedade a gente compra e filho a gente cuida”. Creio que posso encerrar o texto por aqui, melhor conclusão ou melhor síntese não poderia ser feita. Eles não são propriedade, são filhos.

Ivna Sá para Muitas Marias

Ivna Sá
Casada, mãe de três crianças, autora e professora universitária, é fotógrafa de famílias há 10 anos, profissão que descobriu com o nascimento da primeira filha. Há dois anos se dedica ao universo feminino com a criação da marca Ivna Sá Para Mulheres. Além de fotografar mulheres de diversas idades, palestra sobre a mulher contemporânea numa abordagem social, antropológica e cristã. Gosta de gente, pão de queijo, Atlético Mineiro e uma boa prosa.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com . 

10 comentários sobre ““Meus filhos, minhas regras”: afinal, filhos são propriedades dos pais?

  1. Oi Ivna,
    adorei o texto, bem reflexivo e atual.
    Obrigada por compartilhar com a gente essas suas experiëncias de observação e vivência sobre a maternidade.
    Fico temerosa sobre os adultos daqui 20 anos, com essa criação tão sem limites e baseada nos desejinhos dos pais e do bebê, sempre com medo da frustração.
    Confesso que tenho muita preguiça ao perceber que parte das que se tornam mães, nesta geração de mulheres que se diz tão empoderada, vivem a vida em torno do umbigo dos filhos. Eu já tentei escrever sobre,mas seria leviano da minha parte, sem conhecimento prático da causa, mas taí um novo tema para um próximo texto seu, que tal ?
    abraço e paz
    Mari

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  2. Ivna, só um detalhe que para a maioria das pessoas passa despercebido, mas para mãe de alérgico jamais: não existe alergia à lactose. Ou é alergia à proteína do leite de vaca ou intolerância à lactose. Essa confusão faz com que muitas vezes sejam consumidos produtos sem lactose por alérgicos, causando reações graves. Sugiro a leitura da página Põe no Rótulo para maiores esclarecimentos. Gostaria de ver o texto editado para correção desta informação. Grata!

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      1. Obrigada pelo retorno! Se me permite mais uma observação, penso sim que a maternidade precisa de mais leveza, mas do jeito que está escrito o parágrafo dos alimentos pode gerar o entendimento que a alergia é só mais uma moda alimentar, como o caso do glúten ou ovo que você citou. Muitas pessoas são alérgicas não só a leite, mas a ovo, glúten, oleaginosas, etc. E enfrentam muito preconceito principalmente de familiares justamente por todos acharem que agora é moda ser alérgico, que é uma frescura da mãe. Uma coisa é a gente não comer por opção, outra bem diferente é a necessidade de não comer determinado alimento devido ao quadro clínico da criança, não é mesmo? Novamente agradeço o retorno e sugiro um adendo nesse parágrafo para ressaltar a importância do apoio dos familiares e conhecidos às crianças que tem alguma alergia alimentar. Beijos!

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  3. Erika Mitsue, o objetivo do parágrafo não foi ressaltar os modismos na alimentação. O que trada dos modismos e tendências foi o paragrafo anterior. O objetivo foi mostrar o peso que está sob a maternidade e a paternidade nos dias atuais, inclusive na alimentação. Por exemplo, na minha casa nós cortamos o suco de caixinha no lanche escolar. Minhas filhas estudam de manhã e saem muito cedo. Fazemos o suco natural e deixamos na geladeira da noite para a manhã. Elas vão beber por volta das 9h do dia seguinte. Seguindo a orientação de especialistas, os nutrientes já foram todos embora. Aí fica a pergunta: o que fazer então? Eu relaxo e vou viver. E o que percebo na grande maioria dos grupos de mães que participo é essa síndrome de ser perfeita em tudo. Quanto aos casos de alergia, são sérios, precisam ser analisados e cuidados um a um. Não podem ser generalizados e criar uma cultura de medo em torno de tudo. Quanto à sugestão do adendo ao artigo, a questão envolve muitos aspectos e, por isso, um artigo especial. Você não toparia escrevê-lo?

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  4. Lindo texto Ivna!
    Assim como a Mariella, tenho medo dos adultos daqui 20 anos, vejo tantas coisas que me deixam muito assustadas nos “príncipes e princesas” intocáveis que estão sendo criados, tantos egoísmos . Não tenho filhos, mas imagino como é grande o desafio de criar/educar crianças para o futuro neste tempo em que vivemos, na superficialidade que o mundo tenta nos mergulhar a todo instante. Precisamos nos agarra ao essencial, e quando recordo a minha infância, penso que essencial é ter bons pais (casais justos, honestos e que ensinam seus filhos valores) e não pais perfeitos, até porque ninguém é perfeito….
    Obrigada pela reflexão!!!!
    Grande abraço!

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