Orlando: Terra da Fantasia e Realidade

Dizem que Orlando é a Terra da Fantasia. É lá que a mágica acontece, transformando adultos em crianças de novo. Comigo foi exatamente o contrário, mas calma aí que já explico melhor! Aliás caros amigos, aproveito que ainda estamos no início do texto para adverti-los: não vou dar dicas sobre os parques, citar os melhores shoppings ou os restaurantes imperdíveis de lá! Para isso já existe material vasto e especializadíssimo na internet!. Esse texto é sobre superação e te convido a vir comigo.

Passava o final de semana com meus pais. Era sábado e minha mãe me chamou para ir ao clube fazer uma aula de hidroginástica. Ahhh, essa aulinha mudou minha vida, gente! Lembro como se fosse ontem. No final da aula, enquanto relaxávamos nos nossos “espaguetes”, começamos a falar sobre intercâmbios. Eu cursava Jornalismo. Já tinha feito uma aulinha de inglês aqui, outra aulinha de espanhol acolá, mas tudo beeem meia boca, por isso defendi a ideia de que para me tornar uma boa profissional era mandatório saber falar outras línguas. E nada melhor que morar por um tempo em algum outro país, concordam?

Vocês sabem como é mãe, né? Voltei pra Viçosa e continuei os estudos. Uma semana depois, ela liga e fala: Tassiana, faça as malas! Você vai fazer intercâmbio nos Estados Unidos. Quase caí da cadeira! Munida de coragem e determinação, minha mãe procurou uma escola de idiomas e descobriu um programa chamado Work and Travel, que consistia em trabalhar nos parques da Universal Studios, por 4 meses. O quê?? Orlando?? Terra da Disney??

Nem deu muito tempo para pirar. Era preciso correr já que a viagem estava marcada para pouco mais de um mês! Providenciei o visto, tranquei a faculdade e quando dei por mim, embarcava para Orlando. Assim que cheguei veio o baque! Era início de dezembro e a cidade estava congelando. Logo de cara já peguei um resfriado “daqueles”. Passada a euforia da viagem, me vi em um país desconhecido, com um contrato de trabalho em mãos. E para piorar, meu vocabulário se resumia a quatro palavras, please, thank you, good morning e bye bye. Eu também sabia dizer que o livro estava sobre a mesa, mas onde raios eu iria usar isso…rsrsrs…??

Já no exame admissional, devia ter ali uns 30 outros jovens. Tivemos uma palestra inicial sobre procedimentos, regras, etc. Olhei ao redor e todos pareciam tranquilos. Certas horas anotavam sem parar, outras riam bastante com algo engraçado que estaria sendo dito. Aí bateu o desespero. Eu era uma intrusa ali, se eu não conseguia entender nada, como seriam meus próximos 4 meses?

Minha primeira semana foi um verdadeiro caos. O parque era enorme, eu me perdia quase que diariamente. Fui designada para trabalhar na lojinha da atração Jurassic Park, vendendo canecas, ursinhos de pelúcia e outras lembrancinhas. Por não conseguir me comunicar, eu sorria muito para tentar ao menos ser simpática, mas por dentro só pensava em ir embora!

loja-jurassic

Tinha poucos amigos e já estava farta do combo pizza, hambúrguer e batata frita. Vocês não imaginam a aflição que eu sentia ao ligar o rádio ou a TV e não entender uma palavra. Até ações corriqueiras do cotidiano como ir ao banco ou à farmácia me deixavam apavorada.

Foi o primeiro Natal longe de casa. Como eu não tinha família ali, lembro que fui escalada para trabalhar até às 22h00 no dia 24. Quando eu saí, os ônibus já haviam parado de funcionar. Eu morava relativamente perto, mas era tarde da noite e não queria arriscar ir andando. Chamei um taxi e já estava no meio do trajeto quando percebi que devia ter no máximo uns 8 dólares na carteira. Pedi para o motorista parar imediatamente, a corrida já estava quase dando o valor que eu tinha. Passávamos em cima de uma ponte e ele perguntou: mas onde é que você mora, afinal? Eu mostrei a carteira vazia, e ele apenas sorriu. Seguiu para o endereço que eu havia dito, me desejou Feliz Natal e se recusou a receber qualquer pagamento.

Cheguei em casa e a despensa estava vazia. A ideia era ir ao supermercado aquele dia mais cedo, mas não contava que trabalharia até mais tarde. Minha ceia de Natal se resumiu a um macarrão instantâneo. Fui dormir determinada a fazer as malas, jogar tudo para o alto e voltar para casa.

Acordei no dia seguinte bem reflexiva. Pensei na minha mãe e no que ela havia feito. Era justo abandonar tudo e perder todo o investimento feito em mim? Quantas pessoas não gostariam de estar ali vivendo a mesma experiência que eu? Cadê minha garra e determinação? Poxa, era para ser um sonho, certo? Respirei fundo e o espírito natalino falou mais alto. Decidi pagar para ver, afinal, estava ou não na terra da magia?

De ali em diante, tudo começou a fluir. Descobri restaurantes alternativos (inclusive um supermercado que vendia Guaraná e Leite Condensado). Gradativamente fui começando a entender as pessoas. No início uma palavra ou outra.  Em seguida frases inteiras, e quando me dei conta já fazia até piadinha no trabalho! Virei uma tagarela, puxava papo até com o poste. Com o tempo, comecei a fazer amigos. As pessoas me convidavam para almoçar, para comemorar os aniversários em barzinhos, etc. Cheguei inclusive a me aventurar em um Karaokê lotado! Ninguém me jogou tomates, então não devo ter me saído assim tão mal.

montagem-1

Comecei a aproveitar os Parques como uma louca! Era só ter 5 minutinhos sobrando que já corria para a fila dos principais brinquedos. Um certo dia encontrei um menininho chorando dentro da loja. Ele havia se perdido da família. E vejam só que ironia, euzinha, a mais perdida das criaturas o ajudei a reencontrar os pais. Segundo meu chefe, conduzi o processo tão bem que ganhei o prêmio de funcionária do mês, com direito a um dia de folga e 200 dólares pra gastar (isso que é chefe, hein?)!

montagem-2

Os outros três meses passaram muito rápido. Fui embora de Orlando com lágrimas nos olhos. Mas dessa vez, elas tinham gostinho de quero mais! Até hoje guardo a foto do bolo de despedida que ganhei do pessoal com a frase “Vamos sentir sua falta”!

Essa experiência me ensinou muito mais que inglês. Se eu tivesse desistido na primeira oportunidade, não teria vencido momentos tão desafiadores e conhecido pessoas tão incríveis! Quando olho para trás, vejo que Orlando foi o divisor de águas na minha vida. Cheguei jovenzinha e saí adulta! A adrenalina de ter conseguido transformar o desespero inicial em uma doce experiência foi muito mais provocativa que a mais assustadora das montanhas russas dali.

Dedico esse texto a Deus, que pôs muito (mas muito) “a mão por cima” e me salvou de várias  enrascadas. E também dedico esse texto à minha mãe, que se não fosse por ela, eu não teria tantas histórias para contar, não só de Orlando, mas também de tantos outros lugares bacanas que vieram depois, frutos desse primeiro intercâmbio. Posso dar um conselho? Vá. E se der medo, vá com medo mesmo, não deixe que ele te paralise e te impeça de tentar! Depois da tempestade Deus desenha um arco-íris para você…

Eu, no seu lugar, não perderia por nada o texto com a letra P! Quem vai escrevê-lo é muito fera!

Tassi Biografia

Tassiana Rossignoli

Mineira, casada, jornalista. Apaixonada pela família, pelos amigos, por viagens, livros, fotografia, músicas, filmes e pipoca. Adoraria fazer um curso de gastronomia. Sonha em ser mãe e ter uma casa na praia. Frase favorita: “Muitos pensam que sou rico. Outros pensam o contrário. O que ninguém sabe é que minha riqueza é medida em histórias, em experiências e pessoas. Sim, Então sou rico.”- Fergal

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com . 

15 comentários sobre “Orlando: Terra da Fantasia e Realidade

  1. Maria Christina, obrigada pelo comentário!
    Valeu muito a pena ter insistido…ano passado voltei lá e me bateu uma saudade boa…
    Acho que no fundo é bem isso, 100% de esforço onde houver 1% de chance…
    Bjos,

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  2. Nossa Tassiana, adoro seus textos!

    Muito legal! Deve ter sido uma experiência muito bacana. Ás vezes precisamos chegar perto do limite, para que uma luz se acenda e possamos perceber as coisas de uma outra forma. Muito feliz que você não desistiu de Orlando.

    Pra quem se esforça, a chance sempre existe!

    Grande abraço

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    1. Oi Ícaro, obrigada!!!
      Viajar faz um bem danado né? A gente nunca volta o mesmo depois de qualquer viagem..
      Orlando me acolheu, teve paciência comigo…rsrs…Por isso vou guardar pra sempre as memórias dessa época!
      Abraços pra você!

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  3. Tassi, assim como pra você, foi em Orlando que aprendi ser gente grande…
    Me identifiquei demais com o texto, mas sobretudo me deixou morrendo de saudades de você.
    Que delícia acompanhar seu crescimento cada dia mais.
    Um grande beijo!!

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  4. Minha filha, como foi gostoso ler este texto e relembrar todos aqueles momentos… As experiencias de vida nāo sāo aleatorias. Tudo tem um sentido e um propödito. Tudo faz parte de um plano. O plano de Deus! Fui apenas uma pecinha! Rsrsrs…Houve momentos que meu coraçāo apertava…Mas atingimos nossos objetivos.
    Agradeço a Deus por tudo!
    E que amadurecimento!…
    Te amo muito!

    Curtido por 1 pessoa

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