Vai se casar? Escute o que tenho para lhe falar

Há muito estou planejando escrever sobre casamento para partilhar um pouco do que eu e meu marido conversamos com centenas de noivos, nas nove palestras que ministramos por ano, sobre Harmonia Conjugal. Não dá para falar tudo aqui, mas gostaria de dar ao menos umas pinceladas em alguns aspectos que julgo importantes.

Preciso dizer que casar é muito bom e muito gostoso. Cuidar dos preparativos da cerimônia, da festa, de cada detalhe é, de fato, uma experiência que deve ser vivida intensamente. Vamos confessar: é ou não é o nosso dia de cinderela? Muito se parece com a  estória que um dia escutamos na infância. De uma mulher com bobs e de cara lavada, em um passe de mágica nos tornamos verdadeiras divas com vestido de baile, tapete, música na entrada e um príncipe a nossa espera.

A única diferença é que na estória o encanto acaba logo depois do baile e, no casamento, pode ser que demore um pouquinho mais. Talvez depois da lua-de-mel, ou quem sabe depois da primeira briga, ou com a chegada dos filhos. Pode ser que acabe em 1 ano, 10 anos, 30 anos ou que não acabe. Existe coisa mais linda do que dois velhinhos companheiros e “apaixonados”? Deixo o apaixonado entre aspas, porque aqui já estamos falando de um estágio avançado da paixão, mais conhecido por AMOR.

Casais que estão se preparando para o casamento sempre dizem “casar é difícil demais, é caro demais…”. Na verdade, o casar é nada difícil se comparado ao que vou chamar de “manter-se casado”. Para casar, queimamos muita energia e nos desgastamos com os preparativos daquilo que vai durar uma noite, ao passo que não gastamos tempo para conversar, dialogar, refletir sobre o projeto, que é para uma vida inteira.

E aí cabem algumas perguntas: quais são as nossas afinidades? Em que convergimos e em que divergirmos? Pessoas diferentes se atraem, mas com gostos completamente diferentes é possível manter uma relação saudável? Imagine o João todo festivo, cada fim de semana é um evento em sua casa, ama um pagode e uma mesa repleta de cerveja, futebol e muita piada. Ele se casa com a Maria que é introspectiva, aprecia um bom programa a dois, não bebe, não suporta barulho e pessoas inconvenientes. O João quer viajar o mundo, fazer cursos no exterior, ser um cidadão do mundo e investir em viagens. A Maria preza pela estabilidade, quer fazer um concurso público, aprendeu com seus pais a importância de ter um patrimônio sólido, quer aposentar-se cedo, viver em uma casa de campo para comer os orgânicos que ela plantar. O João não pensa em ter filhos, um já é demais. A Maria quer três filhos porque vem de uma família grande e aprendeu o valor de famílias maiores.

Esses são apenas uns poucos exemplos dentre tantos. E acreditem…há muitos casais assim. Confesso que não sei como sobrevivem. Outro dia, escutei em uma palestra do terapeuta de casais, Luiz Alberto Hanns, um aspecto da vida conjugal que me chamou muita atenção. Hoje, diferente da época dos nossos pais, não existe o que ele denominou de “usos e costumes”. Antes os papéis da esposa e do marido eram muito bem definidos, não existia crise para decidir quem iria fazer o quê. Hoje os dois participam de tudo, negociam tudo, da cor do sofá ao cardápio do almoço, do quarto do bebê à reforma da área de serviço. “E conviver negociando tudo o tempo todo pode se tornar um inferno”, dizia.  Ele tem razão. Tem razão porque a negociação exige renúncia, ganhar aqui, perder ali. E não fomos educados para perder, queremos apenas ganhar.

E quando chegamos ao tal do casamento, a coisa complica. São duas pessoas criadas de modo diferente, com visões de mundo diferentes convivendo no mesmo espaço. No início é o encanto da paixão, uma espécie de óculos com lentes especiais que eliminam os defeitos e limites do outro. À medida que a paixão diminui, e ela diminui mais cedo ou mais tarde, tenha certeza disso, é como se colocássemos outras lentes que começam a ver os tais defeitos. E sem o exercício do AMOR que se doa e está disposto a perder para que o outro ganhe, os tais defeitos vão se ampliando até que a convivência fique insuportável.

Quem vai casar precisa conversar sobre essas diferenças, sobre os dramas familiares, sobre a relação com o dinheiro e a administração financeira, sobre a vida sexual e o planejamento familiar, sobre a paternidade, sobre a fé. Aquela história de que quando casar talvez melhore é a maior armadilha que alguém pode cair. Se você não suporta ver seu namorado ou noivo beber, como marido será muito pior. Se você não suporta o jeito que a sua namorada ou noiva se expõe nas redes sociais e fica incomodado com a sua superexposição, quando casar vai ser muito pior. Ela vai postar foto da lua-de-mel a cada minuto.

E, por fim, sem concluir, porque esse tema é muito amplo e pode gerar muitos outros artigos, quem vai casar deveria ter a gentileza de convidar “Alguém muito especial” para a cerimônia, mas também de guardar dentro do seu lar um espaço único para esse “Convidado de Honra”. E aqui eu refiro-me a DEUS. De que adianta convidá-lo para o dia do casamento, se passada a cerimônia nos tornamos um casal ou uma família que vive como se Ele não existisse? Casais que se nutrem espiritualmente são mais felizes e mantêm o encanto “daquela noite do baile” por muito mais tempo. Aprendem que AMAR é – antes de relacionamento sexual, de busca de parceria para a vida, de se ter um pai ou mãe para os filhos – a disposição de “lavar os pés” de seu cônjuge.

Gosto de utilizar esse termo “lavar os pés” por ter sido esse um dos últimos gestos de Jesus antes de sua morte, justamente com o objetivo de ensinar aos seus discípulos, a quem chamou de amigos, o que é o AMOR. Lavar os pés na sociedade judaica no tempo de Jesus era um gesto feito apenas por escravos. Jesus o faz livremente para dizer que quem AMA é capaz até de “lavar os pés” do seu amado. Portanto, amar é servir, também e sobretudo, na vida conjugal. E quando vemos as estatísticas de casais que se separam após a chegada dos filhos, é fácil compreender que falta o amor-serviço.

Portanto, se você vai casar e ainda não tinha ouvido falar sobre isso, se não está disposto a lavar os pés de quem ama, é melhor parar, pensar e refletir: estou preparado (a) para dar esse passo? Se não estiver ou se não se sentir preparado, primeiramente amadureça. Caso contrário, você incorrerá no sério risco de tornar você, a pessoa que ama e talvez os frutos desse amor em um ninho de angústia e infelicidade.

Ivna Sá para Muitas Marias

Ivna Sá
Casada, mãe de três crianças, autora e professora universitária, é fotógrafa de famílias há 10 anos, profissão que descobriu com o nascimento da primeira filha. Há dois anos se dedica ao universo feminino com a criação da marca Ivna Sá Para Mulheres. Além de fotografar mulheres de diversas idades, palestra sobre a mulher contemporânea numa abordagem social, antropológica e cristã. Gosta de gente, pão de queijo, Atlético Mineiro e uma boa prosa.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com . 

4 comentários sobre “Vai se casar? Escute o que tenho para lhe falar

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s