Sobre mães e pássaros

Era manhã de domingo. Escuto um choro, não é de um bebê, olho pela janela e logo vejo,  são passarinhos no ninho e uma mãe afoita em logo saciá-los.

Andei estudando sobre pássaros, pois, de certa forma, aves e mães têm uma árdua missão pela frente, como eles – os pais – os filhotes tem que aprender a voar. Muitas vezes é um voo distante, em outros, é um voo sem volta.

Observando aquela mãe a alimentar seus filhotes, logo vi. O ninho é um lugar propício a ataques de predadores, os pássaros ainda pequenos não podem ainda alçar um voo. São dependentes daquela que os alimenta.

Descobri que alguns passarinhos são alimentados a cada 10 minutos, pois a mãe tem o intuito de fortalecê-los, para que logo cresçam e voem. Tenham suas próprias asas a seu favor e tracem seu próprio destino, sempre sustentados por este amor, que cuida, alimenta e ama. Pensando bem seria este o desejo profundo daquela mãe pássaro,  vê-los crescer logo, e independentes, levantarem seus voos, seguros dos predadores ou quereria aquela mãe, continuar a abrigar seus filhotes sobre suas asas por toda a vida.

Aves e mães… ambas com um grande desafio, ensinar seus filhos a fazerem seu voo “solo”.

Se observarmos um bebê, ele chora, grita, quer um colo… aninha-se num refúgio seguro.

Aquela mãe, por vezes, cansada, estende seus braços e o aninha em seu colo. Poucos minutos e a agitação primeira é silenciada, por vezes não sem antes uma resistência, como se o bebê tentasse provar se aqueles braços poderiam suportar sua angústia e, ao sentir que sim, pode então acalmar-se.

Quando pensamos no pássaro dando alimento ao seu filhote, nós o vemos sustentando seu bebê, saciando sua fome.

Quando pensamos numa mãe amparando, amamentando, embalando seu bebê em seus braços, vemos uma mãe sustentando seu bebê. A palavra sustentar trás consigo a ideia de algo que está abaixo, ‘sustentando’ algo que estaria acima, pesando-lhe como uma carga. Uma carga nem sempre é um peso físico, mas uma responsabilidade.

Refletindo sobre isso, num momento de angústia, um bebê se expressa das mais variadas formas, afinal, veio de um refúgio tranquilo, seguro, amparado por paredes macias (a barriga da mãe), onde era sustentado.

Os medos, caso surgissem, se esvairiam logo ao perceber ao seu entorno, uma sustentação. Mas no mundo aqui fora há muito espaço, muito barulho e estímulos e isso angustia o bebê e ser acolhido no colo desta mãe, com firmeza, trás de novo o sentimento de segurança.  É o amor doado que permitirá a esta criança se sentir amparada e sustentada, confiante para vida. É o cuidado da mãe pássaro para com seus filhotes que permitem que seus voos sejam seguros.

Sustentar é alimentar, mas ainda mais, é  suportar uma carga de angústias deste mundo novo, é colocar-se como um suporte, uma base e, sim, isto exigirá muita dedicação, exigirá um ‘dobrar-se’ no sentido de multiplicar, pois uma mãe, antes a lidar com suas angústias, agora suporta e sustenta as angústias deste novo ser que acaba de nascer.

Um ser tão pequeno e frágil que tem em outro ser, a mãe,  a sua extensão… seu outro eu, até descobrir quem se é neste mundo tão barulhento, é a mãe quem empresta de si para que seu bebê seja um outro, que não ela.

É a mãe pássaro que alimentando seu bebê, o fortalece, que abrigando-o sobre suas asas lhe conforta e o aquece.

O mundo novo sempre é um desconhecido. Os limites vão sendo colocados para que os riscos sejam minimizados. Um filhote que exceda o limite do ninho pode cair e se machucar. Um filho que não saiba os limites dentro de casa pode sair, cair e se machucar.

Um dia a mãe pássaro, enfim, vê seu pequeno filhote dar seu primeiro voo. São os primeiros passos. Um após o outro e, logo, seus pequenos tornam-se grandes. Agora pode se defender dos predadores. É uma árdua missão criar para ensinar a voar…descobrir seu próprio voo, seu próprio destino.

O desejo de abriga-lo sempre sob suas asas agora é apenas um desejo… seu pequeno filhote tem asas e precisa ser incentivado ao voo.

É certo,  o ninho fica vazio e é preciso reaprender de novo, é preciso redescobrir seu voo pessoal.

Ser mãe é missão. Missão dada é missão a ser cumprida.

A mãe que se doou, alimentou, agora novamente precisa ser sustentada, pela ausência que ficou, pelo filho que partiu. Alguns voos permitem o regresso. Outros não.

Mas pássaros são feitos para o voo. Impedi-los é como cortar as suas asas e um pássaro nasceu para as alturas.

Mães e aves, por amor, permitem o voo. Sabem que o ninho é um lugar de refúgio. Mas sabem que também os fragiliza, os deixam vulneráveis aos ataques dos predadores. É preciso que os voos comecem logo cedo, para que quando o entardecer da vida chegue, seus pequenos filhotes saibam o potencial que há em suas asas e busquem um novo horizonte.

Mães e aves criam seus filhos para os ensinarem a voar.

Olhando pela janela, vejo a mãe pássaro buscar novo alimento. É manhã de domingo, é vida que recomeça.  O vento impulsiona o voo. O vento me leva a pensar que é preciso seguir. Nascemos pra voar…

P.S.: Existe um autor, Donald  Woods Winnicott (1896-1971), Pediatra e Psicanalista onde sua extensa obra dedicou-se à construção da Teoria do Amadurecimento Pessoal. É um foco na relação mãe-bebê e todas as nuances envolvidas nesta relação. O Holding, termo inglês que pode indicar sustentação, é de extrema importância nesta relação. Há muitos psicólogos que trabalham na linha Winnicottiana e artigos científicos que relatam a vasta obra de Winnicott. É um rico conhecimento, em especial para pais de primeira viagem. A propósito não sou mãe, mas uma apaixonada pela obra Winnicottiana.

IMG-20151102-WA0008 (1)Cristina Coutinho
Paranaense, formada em Administração e graduanda em Psicologia, na ciência encontra a essência e reconhece que, quanto mais aceita quem é, avança. Ama música, poesia e saudade; todas a levam em direção ao céu. Acredita no poder da palavra escrita e da linguagem verbal, ou não. Entende que a vida flui de dentro pra fora e, por isso, o amor deve ser sua maior necessidade diária.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com . 

2 comentários sobre “Sobre mães e pássaros

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